A era espacial entrou numa nova fase, que vai moldar as relações internacionais nas próximas décadas. Entre a ocupação do espaço cislunar e o crescente armamentismo espacial, novos blocos de cooperação, competindo entre si, partem para uma nova corrida, desta vez não pelo prestígio, mas para ditar as regras que vão valer no futuro da exploração espacial.

Essa é a tese central de “O Futuro da Geografia”, livro do jornalista e escritor britânico Tim Marshall.

Publicado originalmente em 2023, e trazido há pouco ao Brasil pela Zahar, o livro de 304 páginas assume um tom mais pragmático e geopolítico acerca do movimento de exploração do espaço. Ele aborda, sim, o fascínio humano ancestral com o céu, suas várias permutações que levam à astronomia e, finalmente, à astronáutica, mas o romantismo pega o banco de trás nessa obra que procura destacar que a expansão das atividades humanas para o espaço é atual, urgente, transformadora e perigosa.

A maior parte do livro é dedicada a oferecer um panorama dos três grandes estados nacionais que lideram esse movimento para além da Terra: China, Estados Unidos e Rússia (ele os apresenta nessa ordem).

O programa chinês é apresentado como a bola da vez, baseado em uma organização calcada em firmeza de propósitos, que permitiu ao longo de pouco mais de duas décadas se colocar em pé de igualdade com (até agora) líderes na exploração espacial —os Estados Unidos, aqui vistos como um agente um pouco assentado em sua complacência, depois de uma vitória contra a antiga União Soviética, e com dificuldades de manter seu planejamento estratégico após diferentes trocas de governo.

A Rússia, por sua vez, que outrora foi a pioneira no voo espacial, agora se vê relegada à parceira júnior da China, em que dois grandes grupos ambicionam se estabelecer na Lua e, a partir daí, determinar as regras pelas quais recursos naturais e a ocu pação serão feitos.

Marshall nos lembra do vácuo (sem trocadilho) legal que existe hoje no espaço, ditado por normas multilaterais genéricas e de pouco efeito prático, com o Tratado do Espaço de 1967, assinado no âmbito das Nações Unidas e responsável por manter a ideia de que nenhum país pode declarar posse sobre um corpo celeste, no todo ou em parte.

É uma boa premissa, mas insuficiente para uma época em que o barateamento do acesso ao espaço começa a viabilizar atividades comerciais além da Terra, como mineração e o estabelecimento de bases de operação presumivelmente sob soberania dos países que as montarem, na Lua ou em Marte.

O jornalista nos apresenta a estratégia americana para superar esses impasses, com os Acordos Artemis, assinados de forma bilateral entre os EUA e outros países, mas sem a adesão crucial das duas principais potências que lhe poderão servir de competidores, China e Rússia.

Os dois, em contrapartida, estão emparceirados na Estação Internacional de Pesquisa Lunar, projeto com liderança chinesa para estabelecer uma base, de início robótica, depois tripulada, na Lua.

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Tanto o programa Artemis como a iniciativa sino-russa tentam atrair parceiros internacionais, lembrando a dinâmica da primeira Guerra Fria, com a divisão do mundo em dois blocos. E Marshall mostra como a situação já está levando a uma escalada do armamentismo espacial, com países testando (e discutindo, em vão, banir) armas antissatélite.

O jornalista ajuda a trazer esses potenciais futuros conflitos espaciais para longe da ficção científica, mostrando como realisticamente já há tecnologia e propensão hoje para que tenhamos pela primeira vez uma escaramuça armada no espaço. Faíscas para acender esse pavio não faltam no mundo atual, com a queda do multilateralismo e a escalada dos conflitos.

Depois de nos deprimir (com propriedade) com uma longa exposição de por que um conflito desse tipo pode não estar longe, o autor nos lembra de que tudo não passa de uma história já vivida muitas vezes na trajetória humana, com expansões territoriais e buscas por novos horizontes que inevitavelmente levam consigo nosso gosto por confusão.

Enfim, ele oferece uma fagulha de esperança, lembrando que, mesmo que as coisas não se desenrolem de uma forma tão pacífica quanto se poderia querer, o futuro humano no espaço vem cheio de promessas e maravilhas a serem desvendadas.

O livro termina com uma ode à ficção científica e seu valor como instrumento para iluminar questões que, à primeira vista, poderiam parecer distantes da nossa realidade —até que nos tomam de assalto e começam a se manifestar, num sobressalto, em nosso dia a dia.