Um dos maiores problemas atuais não é gerar energia, mas sim “onde a armazenar”. Uma nova geração de sistemas de armazenamento energético começa a ganhar forma e pode tornar-se decisiva para a transição energética. Conhecidas como baterias de CO₂ ou, informalmente, “baterias de bolha”, estas soluções já estão em operação e atraem o interesse de gigantes da energia e da tecnologia.

Um domo gigante no meio da Sardenha

Na localidade de Ottana, na Sardenha, entrou em funcionamento, em julho de 2025, uma instalação de armazenamento energético de 20 MW desenvolvida pela Energy Dome. À primeira vista, o que se destaca é um enorme domo branco, alongado e maior do que um estádio desportivo, rodeado por tanques industriais e painéis solares.

Apesar da aparência invulgar, o princípio é simples e assenta em física conhecida. No interior do sistema estão armazenadas cerca de 2.000 toneladas de dióxido de carbono de grau industrial, mantidas permanentemente num circuito fechado. O CO₂ não é capturado de emissões nem do ar ambiente. É fornecido especificamente para funcionar como fluido de trabalho.

A bateria de bolha, ou de CO₂, baseia-se num ciclo diário de compressão e expansão do gás. Esta tecnologia está a ganhar tração globalmente, com planos de replicação na Índia e nos EUA, e um investimento estratégico significativo da Google para alimentar os seus centros de dados com eletricidade limpa 24 horas por dia.

Como funciona uma bateria de CO₂

A chamada bateria de CO₂ baseia-se num ciclo diário de compressão e expansão do gás. Quando há excedente de produção renovável, o CO₂ é comprimido, arrefecido, transformado em líquido e armazenado em depósitos sob pressão. Quando a eletricidade é necessária, o processo inverte-se: o gás evapora, aquece, expande-se e faz girar uma turbina ligada à rede.

Este sistema permite gerar até 200 MWh, o equivalente a fornecer 20 MW durante cerca de 10 horas consecutivas. Não envolve reações químicas irreversíveis, o que contribui para uma vida útil significativamente mais longa do que a das baterias convencionais.

 

Flexibilidade e rapidez na instalação

Insuflar o domo demora apenas meio-dia. Já a construção completa da instalação pode ser concluída em menos de dois anos, exigindo cerca de cinco hectares de terreno plano. Esta flexibilidade torna o conceito facilmente replicável em diferentes geografias, sem necessidade de montanhas, albufeiras ou condições naturais específicas.

A partir de 2026, este mesmo modelo começará a ser reproduzido em vários continentes, marcando o início de uma nova fase para o armazenamento energético de longa duração.

Índia, Estados Unidos e o interesse das elétricas

O primeiro projeto fora de Itália será desenvolvido pela NTPC Limited, um dos maiores operadores elétricos da Índia, na central de Kudgi, no estado de Karnataka. Nos Estados Unidos, a empresa pública Alliant Energy já recebeu autorização para avançar, em 2026, com uma instalação capaz de abastecer cerca de 18.000 habitações.

Estes projetos confirmam que a tecnologia está a ultrapassar a fase experimental e a entrar no domínio das infraestruturas críticas de rede.

Porque é que a Google aposta nesta tecnologia

Entre os interessados destaca-se a Google. A empresa planeia instalar baterias de CO₂ em localizações estratégicas da Europa, Estados Unidos e Ásia-Pacífico, com o objetivo de alimentar centros de dados com eletricidade limpa 24 horas por dia, mesmo quando não há produção solar ou eólica.

Segundo responsáveis da empresa, o desafio não é apenas armazenar energia durante várias horas, mas garantir que a solução funciona de forma fiável em climas, redes elétricas e contextos regulatórios muito distintos. A estandardização e o caráter modular do sistema da Energy Dome são fatores decisivos.

Um problema central da transição energética

O interesse crescente nesta tecnologia está ligado a uma questão estrutural da transição energética: o armazenamento de eletricidade por períodos superiores a 8 horas. Sem soluções deste tipo, grande parte da energia solar e eólica produzida em excesso acaba desperdiçada.

As baterias de iões de lítio dominam atualmente o mercado, mas raramente ultrapassam 4 a 8 horas de autonomia. Aumentar essa duração encarece os sistemas, acelera a degradação e reforça a dependência de minerais críticos como lítio, cobalto ou níquel.

Existem alternativas em desenvolvimento, como baterias de sódio, ferro-ar ou fluxo de vanádio, bem como soluções físicas baseadas em ar comprimido, hidrogénio ou armazenamento térmico. No entanto, muitas ainda enfrentam desafios de custo, escala ou complexidade.

Vantagens face às soluções tradicionais

As baterias de CO₂ apresentam vários argumentos fortes. Não dependem de minerais críticos, utilizam componentes industriais já existentes e beneficiam de cadeias de fornecimento maduras. A sua vida útil estimada pode ser até três vezes superior à de muitas baterias químicas.

Além disso, quanto maior a instalação, menor tende a ser o custo por quilowatt-hora. Segundo a Energy Dome, estas soluções podem ser cerca de 30% mais baratas do que sistemas equivalentes de iões de lítio para aplicações de longa duração.

Riscos e limitações

Nem tudo são vantagens. Estas instalações ocupam aproximadamente o dobro da área de uma bateria de iões de lítio equivalente e o impacto visual de um domo com dezenas de metros de altura pode gerar resistência local.

Em termos de segurança, os sistemas são projetados para resistir a ventos até 160 km/h. Em caso de aviso prévio, o domo pode ser desinsuflado através da compressão do CO₂. No cenário mais extremo, uma rutura libertaria as 2.000 toneladas de CO₂ para a atmosfera, uma quantidade comparável a cerca de 15 voos transatlânticos de longo curso.

Não é desprezável, mas está longe do impacto contínuo de uma central a carvão. A evacuação necessária seria limitada a um raio de cerca de 70 metros.

Um papel estratégico no futuro das redes elétricas

As baterias de CO₂ não são uma solução milagrosa, mas surgem como uma ferramenta sólida para tornar as redes elétricas mais previsíveis e resilientes. Encaixam especialmente bem em regiões com elevada penetração de energia solar e eólica, onde o principal desafio já não é produzir eletricidade, mas geri-la de forma eficiente.

Podem apoiar a descarbonização de centros de dados, indústria pesada e redes isoladas, reduzindo a dependência de soluções fósseis de emergência. Discretas, baseadas em física simples e facilmente replicáveis, estas “baterias de bolha” podem vir a ser um dos pilares silenciosos da transição energética.