O rótulo “não invasivo” parece indicar que os procedimentos estéticos são isentos de riscos, mas à medida que injetáveis, lasers, ultrassons e radiofrequências se popularizam, cresce também o número de casos em que há efeitos adversos. E o que pode reduzir esse risco é a avaliação dermatológica, que na maioria das vezes inexiste nas clínicas de estética populares.

“Todo procedimento estético envolve algum tipo de risco e a análise detalhada é fundamental para garantir um tratamento seguro ao perfil de cada paciente. O dermatologista é o médico que tem experiência e conhecimento para identificar doenças e condições de pele que podem, inclusive, contraindicar um procedimento. Um exemplo clássico é o câncer de pele. Se um paciente vai a uma clínica fazer um laser e não passa por avaliação médica, há um risco de o calor e a energia luminosa do laser causar alterações inflamatórias e reparativas no tecido, estimulando a proliferação celular. Se houver células malignas ali, especialmente de um carcinoma basocelular, espinocelular ou melanoma, há risco de estimular seu crescimento local ou mascarar os limites da lesão, atrasando o diagnóstico correto”, explica o especialista, Daniel Cassiano, dermatologista e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Dermatologista – Regional São Paulo (SBD-RESP).

De acordo com a dermatologista membro da SBD-RESP, Elizabeth Senra, a avaliação médica prévia é etapa indispensável antes de qualquer procedimento estético. “É nesse momento que o dermatologista identifica condições clínicas que podem alterar o resultado esperado, agravar doenças cutâneas pré-existentes ou gerar complicações graves”, diz a médica.

A dermatologista Paula Tiemi Fujioka, membro da SBD-RESP, acrescenta que existe uma ampla variedade de alterações e doenças de pele que podem passar despercebidas na ausência de uma avaliação médica adequada antes da realização de procedimentos estéticos. “Entre elas, destacam-se as neoplasias cutâneas, como o carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e o melanoma, que muitas vezes são confundidas com lesões benignas. E a manipulação inadequada dessas lesões pode não apenas atrasar o diagnóstico precoce, mas também favorecer sua disseminação ou agravamento”, explica a médica.

“A presença de dermatoses crônicas como psoríase, vitiligo e líquen plano devem ser cuidadosamente avaliadas, pois podem desencadear o chamado fenômeno de Koebner, isto é, o aparecimento de lesões típicas da doença em áreas previamente saudáveis da pele, após traumas físicos, como os provocados por procedimentos estéticos”, diz a Paula.

Alergia, acne, vermelhidão, pintas, feridas… na verdade, não é incomum, segundo o Dr. Daniel, encontrar alguma condição pré-existente que mereça tratamento dermatológico antes do estético. “É por isso que o dermatologista precisa sempre examinar a pele do paciente. É a base do nosso atendimento. A pele fala”, comenta o médico.

A dermatologista Paula Tiemi Fujioka reforça que lesões cutâneas de origem infecciosa, como a verruga vulgar, o molusco contagioso e o herpes simples, frequentemente confundidas com alterações inofensivas, podem se disseminar para outras áreas da pele através do trauma ou manipulação inadequada, complicando o tratamento e aumentando o risco de complicações.

Doenças de pele ligadas à inflamação, como melasma ou rosácea, também tendem a piorar com procedimentos agressivos, como peelings profundos ou lasers ablativos. “Nesses casos, o dermatologista deve considerar abordagens mais suaves, já que estímulos excessivos podem desencadear os surtos inflamatórios ou pigmentares”, reforça a Paula.

“Durante a avaliação, o dermatologista também reconhece sinais sutis de processos alérgicos ou reações inflamatórias, como áreas avermelhadas, descamações, hipercromias ou alterações de relevo decorrentes de procedimentos anteriores. Essas alterações podem indicar inflamação local ou reação de corpo estranho e, por isso, contraindicam temporariamente diversos tratamentos, até que o quadro esteja controlado”, acrescenta a Elizabeth Senra.

Em alguns casos, não são nem as questões de pele especificamente que merecerão atenção especial. “Em um paciente portador de diabetes ou doença vascular, por exemplo, o médico deve considerar que ele pode apresentar circulação comprometida, o que dificulta a cicatrização e aumenta o risco de infecções e atrasos na recuperação. Nesse caso, o dermatologista vai avaliar como está a situação da doença. Ela está controlada? É seguro fazer um procedimento, mesmo que menos invasivo?”, diz o Daniel.

“Pacientes com doenças autoimunes, por exemplo, frequentemente apresentam contraindicações para diversos tratamentos devido ao risco de complicações. Doenças neurológicas também podem limitar a indicação de certos procedimentos, como a aplicação de toxina botulínica”, acrescenta a Paula.

Outra questão que não é negligenciada na consulta dermatológica é o histórico clínico, que influencia diretamente na escolha e na segurança do procedimento. “Pacientes em uso de anticoagulantes, isotretinoína, imunossupressores, corticoides ou medicamentos fotossensibilizantes exigem protocolos específicos”, comenta a Elizabeth.

“Além disso, hábitos como tabagismo, exposição excessiva ao sol e má alimentação também comprometem negativamente no resultado final do tratamento”, acrescenta a Paula. “O dermatologista pode e deve orientar o paciente a melhorar seu estilo de vida, não só para potencializar os efeitos dos procedimentos, mas promover saúde”, acrescenta o Daniel.

Por fim, o Daniel Cassiano reforça que a avaliação dermatológica é fundamental para realização de tratamentos estéticos. “Com ela, minimizamos o risco de efeitos colaterais. Mas, acima de tudo, como médicos, conseguimos manejar intercorrências caso elas ocorram. Estética não é simples. Exige conhecimento profundo de anatomia, farmacologia e experiência clínica. Ao escolher um procedimento, o paciente deve verificar se haverá avaliação médica dermatológica, desconfiar de preços muito baixos, checar as credenciais do profissional e buscar locais seguros”, finaliza.