Há alguns anos, a mineração de asteroides era tema quente no setor espacial comercial. Com o crescimento acelerado dessa área, parecia iminente o sonho de comercializar recursos no espaço.

A ideia era ter plataformas e espaçonaves capazes de alcançar asteroides próximos da Terra (NEAs), extrair seus minerais e levá-los a fundições espaciais — tudo isso na mesma dimensão do envio de tripulações comerciais a Marte.

Entretanto, após muita especulação e o fracasso de várias iniciativas, esses planos foram adiados até que a tecnologia amadurecesse e outros marcos fossem alcançados.

Apesar disso, o sonho da mineração de asteroides — e do futuro “pós-escassez” que ela poderia trazer — permanece vivo. Além da necessidade de infraestrutura e desenvolvimento técnico, é essencial aprofundar o conhecimento sobre a composição química dos pequenos asteroides.

Estudo Recente Analisa Asteroides Carbonáceos

Uma recente pesquisa liderada por cientistas do Instituto de Ciências Espaciais (ICE-CSIC), na Espanha, examinou amostras de asteroides do tipo C (ricos em carbono), que correspondem a 75% dos asteroides conhecidos. Os resultados indicam que esses asteroides podem ser fontes cruciais de matéria-prima, abrindo possibilidades para futuras explorações e extrações.

O grupo foi conduzido pelo Dr. Josep M. Trigo-Rodríguez, físico teórico do ICE e do Instituto Catalão de Estudos Espaciais (IEEC), em Barcelona. O time contou ainda com o doutorando Pau Grèbol-Tomàs (também do ICE e IEEC), Dr. Jordi Ibanez-Insa (Geociências Barcelona), o Prof. Jacinto Alonso-Azcárate (Universidade de Castilla-La Mancha), e a Profª Maria Gritsevich (Universidade de Helsinque e Instituto de Física e Tecnologia da Universidade Federal dos Urais).

O trabalho será publicado no dia 2 de janeiro no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS).

Análise de Condritos Carbonáceos

Os condritos carbonáceos são meteoritos que caem regularmente na Terra, mas são raramente recuperados para estudo devido à sua fragilidade e baixa ocorrência (cerca de 5% do total). A maioria das amostras recuperadas foi encontrada em regiões desertas, como o Saara e a Antártica.

O grupo de pesquisa em Asteroides, Cometas e Meteoritos do ICE-CSIC, liderado por Trigo-Rodríguez, investiga as propriedades físico-químicas desses corpos e é responsável pelo repositório internacional da coleção de meteoritos antárticos da NASA.

Na pesquisa mais recente, o time selecionou e caracterizou amostras de asteroides que foram submetidas à espectrometria de massa pelo Prof. Jacinto Alonso-Azcárate. O método permitiu determinar a composição química precisa das seis classes mais comuns de condritos C, trazendo importantes informações sobre a viabilidade de extração futura.

Segundo Trigo-Rodríguez:

“O interesse científico desses meteoritos é que eles representam pequenos asteroides não diferenciados, oferecendo dados valiosos sobre a composição química e a história evolutiva dos corpos de onde se originam.

No ICE-CSIC e IEEC, desenvolvemos experimentos para melhor compreender as propriedades desses asteroides e como os processos físicos espaciais afetam sua natureza e mineralogia. O trabalho publicado é a culminação desse esforço coletivo.”

Desafios da Heterogeneidade e Identificação de Recursos

Asteroides são altamente heterogêneos e normalmente classificados em três tipos principais: C (carbonáceos), M (metálicos) e S (silicáceos), além de categorias baseadas no espectro e órbita. Como resíduos da formação do Sistema Solar há cerca de 4,5 bilhões de anos, suas composições variam amplamente.

Saber exatamente o que cada asteroide contém é fundamental para identificar onde estão localizados os recursos, como água e minérios.

O estudo mostra que a mineração de asteroides não diferenciados (possivelmente fontes dos meteoritos condritos) ainda está longe de ser viável. Porém, identificou um tipo de asteroide rico em olivina e espinélio como potencial alvo para extração.

Além disso, os pesquisadores recomendam priorizar asteroides ricos em minerais portadores de água. Entretanto, ressaltam a importância de missões de retorno de amostras para confirmar a identidade desses corpos antes que a mineração efetivamente se concretize.

Trigo-Rodríguez destaca:

“É necessário que empresas façam avanços tecnológicos decisivos para extrair e coletar materiais em condições de baixa gravidade. O processamento e os resíduos gerados a partir desses materiais terão impacto significativo, que deve ser quantificado e mitigado adequadamente.”

Ele acrescenta que serão fundamentais o desenvolvimento de sistemas de coleta em larga escala e métodos para extrair recursos em microgravidade.

“Para certos asteroides carbonáceos ricos em água, a extração dela para reutilização parece mais viável, servindo tanto como combustível quanto recurso para a exploração de outros mundos”, afirma o pesquisador.

Perspectivas Futuras e Importância Científica

Além dos benefícios óbvios, a mineração espacial poderia gerar maior conhecimento científico sobre asteroides que podem representar ameaças futuras para a Terra. A longo prazo, até permitiria a redução do tamanho de asteroides potencialmente perigosos.

Pau Grèbol-Tomàs enfatiza:

“Estudar esses meteoritos em nossas instalações, usando técnicas analíticas variadas, é fascinante devido à variedade de minerais e elementos químicos. No entanto, a maioria dos asteroides tem baixas concentrações de elementos preciosos, e nosso objetivo foi entender até que ponto sua extração é viável.

Parece ficção científica, mas também parecia assim quando as primeiras missões de retorno de amostras estavam sendo planejadas há trinta anos.”

Relevância e Aplicações da Mineração de Asteroides

As vantagens da mineração espacial são imensas, o que explica o interesse crescente na última década. Asteroides podem fornecer não apenas metais preciosos, mas também gelo de água, fundamental para produzir combustível para missões de longa duração, além de água para consumo humano e irrigação.

Isso reduziria a dependência das missões de reabastecimento da Terra, aumentando a autonomia de missões robóticas e tripuladas. Ao deslocar operações de mineração e manufatura para o espaço próximo à Terra e ao cinturão principal de asteroides, o impacto ambiental na Terra também diminuiria.

Embora o entusiasmo inicial tenha esfriado, muitas iniciativas seguem investindo no desenvolvimento da tecnologia necessária. Agências espaciais como NASA e JAXA já realizaram missões de retorno de amostras que expandiram enormemente nosso conhecimento sobre os recursos dos asteroides.

No futuro próximo, a missão chinesa Tianwen-2 pretende encontrar um NEA e um cometa do Cinturão Principal, marcando avanços importantes para a exploração desses corpos.

Embora possa levar décadas até surgir uma indústria consolidada de recursos espaciais, o momento para investir nessa fronteira é agora — com a ciência e a tecnologia caminhando lado a lado rumo a essa nova era.

Crédito das pesquisas: Instituto de Ciências Espaciais (ICE-CSIC), Instituto Catalão de Estudos Espaciais (IEEC), Universidade de Castilla-La Mancha, Universidade de Helsinque, Instituto de Física e Tecnologia da Universidade Federal dos Urais.