Acompanhe o liveblog sobre o ataque dos EUA à Venezuela e a captura de Maduro
No final dos anos 90, Cilia Flores estava na rua a exigir a libertação de Hugo Chávez quando reparou em Nicolás Maduro. A venezuelana da cidade de Tinaquillo, no centro do país, estava ali enquanto advogada especialista em Direito Penal e Direito do Trabalho e foi graças a si que Chávez voltou à liberdade. Casou com Maduro no verão de 2013 e desde então tornou-se “discreta”. Ainda assim, continua a ser uma das figuras mais influentes da Venezuela e há quem a considere “mais astuta e perspicaz do que o próprio Maduro”.
Em 1992, ao tentar depor o então presidente da Venezuela, Carlos Andrés Pérez, Hugo Chávez foi capturado. E foi aí que a jovem de classe média baixa nascida em 1956 entrou em ação. Formada em Direito, passou a defender a causa e a exigir a libertação do venezuelano.
“Durante a luta pela libertação de Chávez, estávamos envolvidos em algumas ações de rua. Lembrar-me-ei sempre de um encontro em Catia, quando um homem jovem pediu para falar. Falou e eu olhei para ele. E disse: ‘Que inteligente’”, contou Cilia Flores num podcast citado por vários órgãos de comunicação, como a CNN Internacional.
A partir daí, Cilia continuou a trilhar caminho na política. Foi eleita membro da Assembleia Nacional da Venezuela em 2000, um ano depois de Hugo Chávez ser eleito Presidente do país. Em 2005, foi novamente eleita e um ano depois torna-se presidente do Parlamento (sucedendo a Maduro, entretanto nomeado ministro das Relações Externas do governo de Chávez). A relação entre Cilia Flores e Hugo Chávez era tão próxima que, ao criar conta na rede social X (em 2015), intitulou-se como “Filha de Chávez”.
Segundo a CNN, durante o seu mandato, Cilia Flores foi acusada de contratar parentes e amigos para o Congresso. Confrontada com a acusação, em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, Cilia Flores não o negou: “Sim, os meus familiares foram contratados com base nos seus próprios méritos. Tenho orgulho neles.”
Em julho de 2013, Cilia Flores e Nicolás Maduro casaram, após duas décadas de namoro. E, pouco depois, ainda nesse ano, o marido sobe ao poder, sucedendo a Hugo Chávez. A partir daí, a venezuelana torna-se primeira-dama e afasta-se dos holofotes. Segundo Carmen Arteaga, professora na Universidade Simón Bolívar ouvida pela CNN, Cilia Flores deixou de fazer declarações públicas e passou a assumir um perfil mais recatado.
A partir desse ano, Cilia Flores deixou também de ocupar cargos governamentais, escreve o New York Times. Mas, ainda assim, Cilita — como é carinhosamente apelidada por Maduro — continuou a assumir um papel de poder e autoridade nos bastidores. Na verdade, até o próprio Nicolás Maduro se refere à mulher como “a primeira combatente”.
“Dentro do próprio [movimento do] chavismo, conhece-se o verdadeiro poder que Cilia Flores tem”, diz Roberto Deniz, jornalista de investigação na Venezuela ouvido pelo NYT. Respeitada dentro do regime, a primeira-dama é também considera uma das principais caras da corrupção. A Venezuela tem “um sistema judicial completamente politizado, falhado e corrupto, e Cilia Flores tem grande responsabilidade naquilo em que o sistema judicial se tornou”, diz Roberto Deniz.
Segundo o jornal americano, acredita-se que muitos juízes e altos quadros judiciais da Venezuela sejam leais a Cilia Flores ou tenham assumido determinados cargos por terem ligações à primeira-dama. Segundo Zair Mundaray, que trabalhou como procurador sénior no governo de Chávez e de Maduro e também foi ouvido pelo NYT, “muitas pessoas consideram Cilia Flores muito mais astuta e perspicaz do que o próprio Maduro”.
Cilia Flores foi capturada, juntamente com o marido, Nicolás Maduro, na noite de dia 2 de janeiro. O ataque dos EUA à Venezuela tinha como objetivo a detenção dos dois líderes, são acusados de quatro crimes: conspiração para cometer narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os EUA, posse de armas de combate e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir armas de combate e dispositivos destrutivos. Até ao momento, não foram reveladas imagens ou vídeos da até então primeira-dama.