Foi pela mão de Hugo Chávez que, em 2008, o braço militar da Venezuela passou a ter o nome atual: Forças Armadas Nacionais Bolivarianas. A referência é ao “libertador Simón Bolívar”, ícone da independência de vários países da América Latina. O regime, que se autoidentifica também como “bolivariano”, teve no Exército — no seu todo ou em parte — um bastião que o foi segurando entre várias crises e tentativas de retirar do poder Chávez e o seu sucessor, Nicolás Maduro.

A primeira destas tentativas ocorreu logo no início do primeiro mandato de Hugo Chávez. Quatro anos após ter sido eleito, a 11 de abril de 2002, Chávez foi alvo de uma tentativa de golpe pelas altas autoridades militares, que chegou a tirá-lo do poder durante quase dois dias. Foi instalado o empresário Pedro Carmona como Presidente interino, aproveitando um momento de resistência de políticos e líderes empresariais da oposição contra as reformas impostas na chamada “Revolução Bolivariana”.

A reviravolta deu-se quando um grupo de militares chavistas se revoltou e, com o apoio de manifestações em massa de apoiantes de Chávez, mudou a posição das chefias, que passaram a condicionar o governo de transição de Carmona até à manutenção do regime constitucional de 1999, iniciado pelo próprio Hugo Chávez.

À DW, o politólogo venezuelano Yosbert Vásquez contou que este golpe “tornou Chávez mais forte, sem dúvida alguma“. “Se analisarmos as sondagens históricas, posteriores ao golpe que ele sofreu, percebemos que a aceitação de Chávez entre os venezuelanos cresce em vez de diminuir”, acrescentou, apontando que “as lideranças mais importantes entre as forças opositoras” se debilitaram.

Em 2019, Nicolás Maduro tomou posse para o segundo mandato como Presidente da Venezuela, após uma eleição marcada por acusações de fraude e pela desqualificação dos maiores líderes da oposição naquela altura, destacando-se Henrique Capriles. Quatro anos antes, nas eleições legislativas, a oposição unida tinha passado a controlar dois terços da Assembleia Nacional venezuelana.

Em janeiro, pouco depois de Maduro tomar posse novamente, Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, foi declarado Presidente interino pelo parlamento do país. Após uma breve detenção do político e de um motim frustrado de membros da Guarda Nacional venezuelana, Guaidó autoproclamou-se e tomou posse como Presidente da Venezuela a 24 de janeiro.

Esta proclamação foi apoiada imediatamente por vários países, incluindo os Estados Unidos liderados por Donald Trump e, a 4 de fevereiro, por Portugal. Seguiram-se meses de impasse e de forte contestação social, com Maduro, apoiado por países como a Rússia e a China, a afirmar que “a administração de Donald Trump” queria “transformar” a sua “pátria numa ‘guerra do Vietname’ na América Latina” e a apelar para que não o permitissem.

Num texto assinado pelo próprio no Washington Post a 15 de janeiro, Guaidó quis enviar “uma mensagem aos militares”, a que chamou de “peça-chave” na revolta contra o regime. “A cadeia de comando foi quebrada e não há comandante-chefe — é hora de ficar do lado certo da História. A Venezuela e o mundo agradecerão”, disse então.

Em abril desse ano, os apelos de Guaidó intensificaram-se e o venezuelano convocou, abertamente, uma manifestação em massa no dia 1 de maio e que os militares tomassem o poder. Porém, nesse dia, tal não aconteceu e, tirando um pequeno grupo, a maioria ficou do lado de Nicolás Maduro e o regime ficou de pé.

Quatro razões para o golpe de Guaidó ter falhado

A última grande crise do regime madurista ocorreu no verão de 2024. A 28 de julho, Edmundo González, apoiado pela desqualificada Maria Corina Machado, e Nicolás Maduro foram a votos nas eleições presidenciais. Os resultados apresentados pelo Governo e pela oposição, porém, foram radicalmente diferentes.

A Comissão Nacional de Eleições venezuelana indicou, sem apresentar parte das atas da eleição, que Maduro vencera por 51,94% dos votos, com González a ter apenas 43,18%. Porém, os resultados apresentados pela plataforma da oposição ConVzla, indicam que González obteve 67% dos votos e o então Presidente apenas 30%, apresentando as atas que os seus representantes conseguiram recolher.

Perante a intransigência do regime em ceder o poder e as acusações que, eventualmente, os obrigaram a sair do país, Edmundo González e Maria Corina Machado publicaram uma carta aberta conjunta com um apelo à “consciência dos militares e polícias para que se coloquem ao lado do povo e das suas próprias famílias”, rejeitando as posições dos altos comandos que tinham cerrado fileiras em torno de Nicolás Maduro.

“Estamos conscientes de que em todos os componentes da Força Armada Nacional está presente a decisão de não reprimir os cidadãos que reclamam pacificamente os seus direitos e a sua vitória”, afirmaram os responsáveis na carta, sublinhando que os militares “podem e devem parar” a repressão exercida pelo regime através dos militares.

“Exortamo-vos a impedir a violência desenfreada do regime contra o povo e a respeitar e fazer respeitar os resultados das eleições de 28 de julho. Maduro deu um golpe de Estado que contraria toda a ordem constitucional e quer fazer de vós os seus cúmplices”, continuam.

A resposta veio do topo, do próprio ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que garantiu que tanto as Forças Armadas como a polícia nacional rejeitavam “veementemente as propostas desesperadas e sediciosas” dos opositores.

“Estes fúteis e irracionais apelos procuram minar a nossa unidade e institucionalidade, mas nunca o conseguirão”, continuou o homem forte das Forças Armadas.

Como destacou o jornal espanhol El País, em todas as iniciativas e vitórias eleitorais da oposição e protestos populares contra Maduro “esbarraram na mesma barreira: a identidade chavista das Forças Armadas”.

Porém, esta peça fundamental do regime não impediu ou não conseguiu impedir que os Estados Unidos atacassem vários pontos-chave na Venezuela, entrassem no importante centro militar do Forte Tiuna e capturassem o seu líder, Nicolás Maduro, e a deputada e primeira-dama, Cilia Flores.

Ainda assim, nas horas seguintes, não houve sinais de que o Exército tinha quebrado com o regime presidido pelo líder capturado. Os principais órgãos das forças armadas venezuelanas apressaram-se a condenar o ataque como “um ultraje” e a garantir que estão prontos para defender-se, apelando ao que o “povo saia à rua”.

Este domingo, Vladimir Padrino López, em nome das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, emitiu um comunicado próprio, a rejeitar ” veementemente o cobarde sequestro do cidadão Nicolás Maduro Moros”, a quem continuou a chamar de “Presidente Constitucional” e “comandante-chefe”. Os militares reconheceram também que Delcy Rodríguez, vice-presidente que assumiu interinamente o cargo, tinha todos os poderes da Presidência.