TopCycling em Espanha com Afonso Eulálio para analisar a época de estreia no WorldTour e o que vai mudar em 2026 para o ciclista da Bahrain.

Pelo segundo ano consecutivo, o TopCycling visitou Afonso Eulálio em Altea, na Comunidade Valenciana, no hotel de ciclismo Cap Negret, a segunda casa da Bahrain Victorious.

Com vista para o mar Mediterrâneo, sentamo-nos à conversa num bonito e ameno final de tarde com o pôr do sol em pano de fundo.

Afonso Eulálio apareceu antes do previsto e com a boa onda habitual, que contagia quem o rodeia. Tanto foi assim que começamos dois à mesa e acabamos na companhia de Lenny Martinez e de Antonio Tiberi.

Um francês e um italiano, que foram surpreendidos pelo talento do português que em 2022 se colocou na montra mundial.

“Foi um processo rápido. Vocês têm o João Almeida e outros nomes que de sucesso no ciclismo profissional. Quando me disseram que vinha um jovem português fiquei curioso porque temos a mesma idade. Vi logo que era um tipo muito natural, um pouco como eu, não se foca só no trabalho. Fizemos o Giro juntos, foi a estreia dele em Grandes Voltas e esteve ainda melhor do que eu na minha primeira grande, que foi a Vuelta. Fiquei contente por ele.”

Antonio Tiberi ao TopCycling.

“O Eulálio é o segundo melhor português. Também é um grande amigo. É fortíssimo, fechou nos oito primeiros no Mundial. Não o conhecia, mas tem grande potencial. É jovem, como eu, se calhar daqui a cinco ou dez anos, quando formos grandes corredores, vamos recordar esta etapa.”

Lenny Martinez ao TopCycling.

Vídeo | Hotel Cap Negret – Um hotel de sonho para ciclistas

A Bianchi sucede à Merida, parceira da Bahrain ao longo de nove épocas.

“Caruso é mesmo o capitão“

Após um ano longo, que incluiu corridas em cinco continentes, Afonso Eulálio conquistou o seu espaço na estrutura asiática.

A época de estreia no WorldTour começou muito cedo – em janeiro, no Tour Down Under – e prolongou-se até meados de outubro – com a Japan Cup.

Foi fundamental voltar a casa e fazer um reset ao corpo e à mente, após 10 727 quilómetros percorridos em 68 dias de competição, incluindo nas estradas italianas graças à estreia em Grandes Voltas, que aconteceu no Giro de Itália.

“Fiz muitas corridas de uma semana e pelo cansaço nem consegui preparar o Giro. Foi correr, correr, correr.”

Afonso Eulálio ao TopCycling.

No fundo, 2025 foi um ano de aprendizagem, no qual o português passou meio ano fora de casa.

A adaptação ao WorldTour foi facilitada pela presença de líderes como Damiano Caruso, com quem Afonso Eulálio correu o Giro. O italiano, de 38 anos, foi 2º classificado na prova italiana em 2021 e o conhecimento de 16 épocas como profissional foi posto à disposição do no

“Caruso é mesmo o capitão, na bicicleta e fora dela. Vou outra vez correr com ele o Giro e parece que este ano vai mesmo ser o último ano. Penso que vai terminar no Tour. É muito inteligente, tem muitos anos de ciclismo. Não posso dizer – “aprendi isto”; é a forma como evoluímos na corrida, como trabalhamos, como corremos.

Afonso Eulálio ao TopCycling.

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Ao coroar o Mortirolo na frente, Eulálio recebeu o prémio Montanha Pantani.
Foto: Zac Williams

Foi ao Giro “abrir o motor”

Segue-se uma temporada diferente, de maior exigência, mas também preparada em consonância com a direção desportiva da Bahrain.

Em 2026, vamos ver um Afonso Eulálio com galões para liderar a equipa em certos momentos da temporada. O objetivo principal é o Giro de Itália, naquela que será a segunda presença consecutiva na prova.

Confiram o calendário de Afonso Eulálio para a primeira parte da temporada.

  • Alula Tour
  • UAE Tour
  • Strade Bianche
  • Volta à Catalunha
  • Liège-Bastgone-Liège
  • Giro de Itália

“Este ano vai ser a primeira vez que temos as coisas mais planeadas. Consegui fazer o calendário com a equipa, conciliando as coisas como eu gosto e como eles precisavam. Acabo por ir mais motivado para as corridas. Onde quero estar mesmo bem é na Strade e na Catalunha; depois quero preparar bem o Giro. Mas a equipa também quer que eu esteja bem em Alula e depois no UAE, nesta última para ajudar o Tiberi. A minha ideia é ir pouco a pouco porque são cinco meses de competição.”

Afonso Eulálio ao TopCycling.

Foi importante ter feito uma corrida de três semanas logo na época de estreia no WorldTour. Como se diz na gíria, o figueirense foi ao Giro “abrir o motor” e sentiu imediatamente os benefícios desse esforço.

Até podia ter ganho a 17ª etapa, que finalizou em Bormio, mas a Bahrain teve medo. Afonso Eulálio coroou o Mortirolo na frente, atacou a solo, mas com 48 quilómetros até à meta a equipa optou por uma abordagem conservadora.

“A minha ideia era ir a solo, mas a equipa não quis arriscar de tão longe. Tinha acabado de chegar e de andar bem na Austrália, mas eles tiveram medo que eu fosse a solo. Estavam sempre à espera do grupo que vinha atrás e acabamos por perder muito tempo. Depois de ter recuperado do Giro fui a minha melhor versão de sempre. Em 2026, a única coisa que vai mudar é a equipa dar-me mais liberdade para fazer a minha corrida. Levamos o Santiago Buitrago para a geral, vai também o Damiano Caruso, mas vou ter maior liberdade, o que faz muita diferença.”

Afonso Eulálio ao TopCycling.

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O azul predomina no equipamento da Bahrain para 2026.
Foto: Luca Bettini/SprintCyclingAgency

Como será a temporada após maio?

Agora, o objetivo é continuar a crescer e a equipa pede-lhe que vença. Uma corrida, uma etapa, mas que vença.

Na Bahrain, todos ficaram impressionados com o top 10 que o rookie fez no Mundial do Ruanda, numa corrida que só 30 atletas concluíram.

“No ano passado podia estar tranquilo e descolar a 100 quilómetros da meta que estava tudo bem. Agora vou ter mais pressão, mas as coisas também estão pensadas para correr melhor e não ter essa irregularidade. Comecei a segunda parte do ano em Burgos e depois não tinha calendário certo. A equipa queria sempre mais e mais; comecei em Burgos, depois fui a França, Inglaterra, Canadá, Mundial, clássicas italianas, por isso não fiz o Europeu. O Mundial foi o limite, nas outras provas estava bem, mas não sentia potência e não fazia diferenças.”

Afonso Eulálio ao TopCycling.

Como será a temporada após maio? Por agora, há duas hipóteses em aberto: optar por um calendário parecido com o de 2025 – clássicas italianas de outono, clássicas do Canadá e ficar em Montreal para correr o Mundial – ou preparar a Vuelta a Espanha.

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