Marcelo Rebelo de Sousa acaba de tomar posse como novo Presidente da República. 9 de março de 2016. Para trás tinha ficado uma campanha em que nunca chegou a ter verdadeiramente um adversário à altura. A divisão do PS entre António Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém tornou tudo ainda mais fácil, um passeio na parque. Marcelo saboreia a vitória e não esquece aqueles que o apoiaram desde o primeiro minuto. No meio das comemorações, faz questão de tirar uma fotografia com Luís Marques Mendes, Luís Montenegro e Luís Campos Ferreira, com direito a dedicatória aos “Três Luíses“. Nos meses que se seguem, o grupo vai juntar-se várias vezes para jantar no Palácio de Belém, continuando uma tradição antiga nascida nos verões algarvios e nas conversas pela noite dentro.

Dez anos depois, os quatro estão em posições muito diferentes. Marcelo Rebelo de Sousa está a poucas semanas de se despedir do Palácio de Belém. Luís Álvaro Campos Ferreira, mais distante da política partidária, ligado ao universo do futebol e da cultura, mas sempre membro integrante do núcleo mais duro do PSD. Luís Montenegro no cargo de primeiro-ministro, depois de um percurso feito de erros, persistência, talento e uma dose generosa de sorte. E Luís Marques Mendes agora na iminência de disputar uma eleição presidencial com hipóteses reais de passar à segunda volta, contando com Luís Montenegro como o seu grande aliado nessa corrida.

Aliás, e quebrando uma tradição com mais de 20 anos, Luís Marques Mendes vai mesmo contar com um primeiro-ministro em funções na sua campanha presidencial, assumindo e promovendo as figuras dos partidos que o apoiam, com notáveis da AD e independentes a juntarem-se à caravana. É Mendes, com a devida bênção de Luís Montenegro, a assumir a simbologia oficial de um movimento que deu ao líder social-democrata três vitórias nacionais em quatro eleições possíveis.

Se dúvidas restassem sobre o empenho pessoal de Luís Montenegro nesta corrida presidencial, foi ver e ouvir o primeiro-ministro no primeiro dia oficial de campanha de Marques Mendes. “Antes da minha qualidade de presidente do PSD e da minha qualidade hoje de primeiro-ministro, eu sou, efetivamente, amigo de Luís Marques Mendes, um amigo que o conhece há muitos anos, a ele e à sua família”, assumiu, sem rodeios, o líder social-democrata.

Na Batalha, no primeiro de muitos comícios do candidato da AD, Luís Montenegro desdobrou-se em elogios a Mendes, “uma personalidade forte, que conjuga várias qualidades que são as mais importantes para poder representar o povo português na sua mais alta magistratura”, tentou provar que o antigo comentador foi sempre independente na sua relação com o Governo e fez um importante apelo ao voto útil de socialistas e liberais, como forma de garantir que Marques Mendes passa mesmo à segunda volta e a vence. “Não podemos facilitar de tal maneira que no dia 19, quando acordarmos, os que passaram são populistas, sejam os vindos do espaço civil e mesmo juvenil ou de um espaço mais disfarçado ou militarizado“.

Percebem-se as motivações de Luís Montenegro. Qualquer outro resultado que não seja a vitória de Luís Marques Mendes nas próximas eleições presidenciais representará um desafio para o primeiro-ministro. A vitória de André Ventura, por maioria de razões, seria um problema muito grave para o Governo. Só é possível respirar de alívio porque nenhuma sondagem aponta esse cenário como provável — apesar do favoritismo numa primeira votação, o líder do Chega perderia sempre na segunda volta. Mas existem outros cenários menos felizes para Montenegro.

Ora, olhando para a tendência consolidada em todas as sondagens, Henrique Gouveia e Melo e António José Seguro, aparentemente mais do que João Cotrim Figueiredo, têm de facto hipóteses de ficar em segundo lugar e disputar a Presidência da República numa segunda volta contra André Ventura, cenário-base em que todas as candidaturas estão a trabalhar. Luís Montenegro sabe que essa hipótese é real, sabe que Cotrim atinge particularmente o eleitorado potencial de Mendes, e sabe o que significaria ter Gouveia e Melo ou Seguro em Belém: um Presidente da República mais antagonista do que coadjuvante, uma estrada sinuosa e não uma via rápida. Tudo o que este Governo não quer, nem deseja.

E estas eleições presidenciais também são sobre isso. Apesar de pertencer à mesma família política do primeiro-ministro, e ao contrário do que aquela fotografia tirada há 10 dez anos poderia fazer antecipar, Marcelo Rebelo de Sousa despede-se de Belém assumidamente desiludido com Luís Montenegro e forçando um Conselho de Estado com o único propósito de ser ouvido e de se fazer ouvir a propósito da guerra na Ucrânia. De resto, a relação entre os dois foi tudo menos feliz: Marcelo apoucou Montenegro como líder da oposição, Montenegro ignorou sempre que pôde Marcelo como Presidente da República. Os últimos anos foram um penoso processo para ambos.

A partir de março de 2026, quando um novo Presidente tomar posse, abre-se um novo capítulo na relação entre Belém e São Bento. Mesmo descontando o clima de campanha presidencial e o facto de os dois estarem a disputar o eleitorado do PS, o que amplifica as críticas que podem fazer, mas ninguém na AD acredita que serão muito diferentes se vencerem as presidenciais, basta ver o que já disseram António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo sobre algumas das decisões do Governo (veja-se as críticas à reforma laboral ou sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde) para antecipar as dificuldades que Luís Montenegro terá se um deles vier a vencer,

Fundamentalmente, há um dado que podem introduzir no sistema e que Luís Montenegro dispensaria perfeitamente: imprevisibilidade. Henrique Gouveia e Melo é para todos, até para o primeiro-ministro em funções, um enigma difícil de resolver. Ainda para mais, surge nesta campanha rodeado de alguns dos principais adversários de Montenegro, como Rui Rio, por exemplo. Se eventualmente chegar à Presidência da República, ninguém no Governo sabe como seria a relação entre os dois. No papel, António José Seguro é mais previsível, mas não deixar de ter um entendimento diferente sobre o país, de ser e de pertencer a um partido — o PS — que procura recuperar o poder.

Luís Marques Mendes é o oposto disto tudo. Ninguém espera que o antigo líder social-democrata seja um mero notário no Palácio de Belém. Quererá, obviamente, deixar a sua impressão digital e influenciar a governação de Luís Montenegro — o que pode motivar algumas resistência junto de um primeiro-ministro que gosta pouco de partilhar o momento de decisão. Mas, apesar de tudo, a relação pessoal e política entre Luís Marques Mendes e Luís Montenegro tem quase 30 anos e muita história em comum. A cumplicidade não poderia ser maior.