Com o início do ano, muitas pessoas curtem um período de férias regado a altas temperaturas e promessas de viagens em lugares paradisíacos e relaxantes. Esse período mais quente parece nos deixar mais “calorosos”, afinal de contas é tempo de festas, encontros e a alardeada, principalmente entre os mais jovens, “pegação”. Já cantava Pepeu Gomes na década de 1980, através da famosa parceria com Moraes Moreira e Fausto Nilo: “A flor do desejo e do maracujá/ Eu também quero beijar/ Haja fogo, haja guerra, haja guerra que há/ Eu também quero beijar”.

No entanto, como diria um autêntico estraga-prazeres, nem só de amor vive o homem. Infelizmente, o verão propicia, além de diversão, piscina e mergulhos no mar, algumas intercorrências que costumam se alastrar especialmente nesse período, como, por exemplo, a conhecida “doença do beijo”, nome popular para a mononucleose infecciosa. 

Transmitida sobretudo pela saliva, a enfermidade é causada pelo vírus Epstein-Barr e pode passar despercebida em situações que envolvam ambientes de contato próximo e intimidade. Os sintomas da mononucleose podem demorar de 4 a 8 semanas para aparecer depois do contato com o vírus. Esse é o tempo médio de incubação. Ou seja, quando febre alta, dor de garganta e cansaço extremo aparecem, a pessoa não faz a menor ideia de onde pode ter vindo a infecção. Durante esse período de incubação, o vírus já pode ser transmitido, mesmo sem sinais evidentes. A doença costuma ser confundida com amigdalite bacteriana, já que provoca dor intensa na garganta e ínguas no pescoço.

O infectologista Estevão Urbano explica que “como os sintomas são bem parecidos, a única forma real e conclusiva de se diferenciar a mononucleose das outras infecções de garganta é o exame sorológico”. “Então, a pessoa deve fazer exames de laboratório para saber se tem ou não a mononucleose”, aponta. O especialista informa que a transmissão da mononucleose infecciosa ocorre principalmente “durante aquele período em que a pessoa infectada ainda continua com sintomas, geralmente durando entre duas a quatro semanas”. “Mas, em algumas pessoas, essa transmissão pode continuar mesmo após a melhora dos sintomas e eventualmente durante até meses”, alerta. 

Consequências

Na maioria dos casos, a doença evolui bem, mas quando não é reconhecida ou tratada da forma correta, pode evoluir para quadros mais graves, como a ruptura do baço, meningite, encefalite e síndrome de Guillain-Barré, na qual o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, causando dormência, formigamento e fraqueza muscular progressiva, podendo, inclusive, evoluir para paralisia.

Estevão esclarece que as pessoas atingidas por um aumento do baço após um quadro de mononucleose, que estão longe de serem a maioria dos casos, devem tomar cuidado com “o risco de traumas, sobretudo através de atividades físicas, porque aumenta a chance de ruptura do baço e de uma consequente hemorragia”. “Nesse caso é fundamental evitar atividades de choque, até que o baço volte às dimensões normais”, orienta.  

O profissional também destaca que, mesmo após a melhora dos sintomas da garganta, é comum as pessoas apresentarem cansaço e fadiga que podem durar dias, semanas e até meses. “Embora reduza por um tempo a qualidade de vida da pessoa, isso é normal e esperado, e permanece após a cura dos sintomas da faringe”, pondera. Ao mesmo tempo, Estevão sustenta que a chamada reativação do vírus da mononucleose infecciosa “muito raramente acontece”, e normalmente está ligada a uma baixa da imunidade. 

“Aconteceu, por exemplo, com pessoas que tiveram quadros graves de Covid-19, e pode acontecer em circunstâncias pouco comuns em pacientes com doenças imuno-debilitantes”, observa. Ele complementa que “depois de uma baixa de anticorpos, possivelmente também por uma baixa de imunidade, uma pessoa pode adquirir um segundo episódio de mononucleose infecciosa”, ratificando que a condição é igualmente rara. “A pessoa pode contrair um novo vírus através de um novo contágio, mas isso é bem incomum, da mesma forma que é incomum a reativação daquele vírus que foi adquirido na infecção original”, confirma. 

Perigos

Apesar de se tratar de uma doença geralmente benigna, Estevão salienta que, em alguns casos, a mononucleose pode sim evoluir para quadros que demandam cuidado redobrado e que incluem alterações neurológicas, como encefalite e meningite. “Quaisquer alterações comportamentais podem indicar essa evolução”, pontua. Pode haver, por exemplo, um grande aumento de amígdalas, normalmente em pessoas mais jovens, o que costuma causar dificuldade respiratória pela obstrução da passagem do ar. “A pessoa começa a ter uma certa falta de ar, um esforço respiratório, com um sibilo mais forte”, detalha o infectologista. 

Quando o baço se rompe, a dor abdominal intensa deve levar à procura imediata de atendimento médico. Nos casos de hepatites severas, com inflamação do fígado, pode haver aumento da coloração amarelada dos olhos e da pele, conhecida como icterícia, acompanhada de dor na região do fígado. “São todos sinais de alerta que mostram que aquela infecção pode ter evoluído de forma mais severa”, afiança o entrevistado. Nesses casos, a pessoa também precisará modificar a dieta, evitando gorduras e frituras. “Em casos de baixa de plaquetas, que podem acontecer em alguns indivíduos pelo aumento de possibilidade de sangramentos, principalmente em pós-traumas, é importante evitar o uso de anti-inflamatórios”, afirma Estevão. 

Derrubando mitos

O infectologista Estevão Urbano deixa claro que encontros, festas e aglomerações de pessoas que facilitam a troca de saliva pelo beijo são a principal causa do contágio da mononucleose, que também pode ocorrer, indiretamente, através de copos, talheres e outros itens em que aconteça o contato com a saliva de outrem, facilitando a disseminação do vírus. Para ele, no entanto, convém lembrar que “essas doenças não são transmitidas pelo suor”, marcando uma diferenciação entre fluidos que podem ser trocados e derrubando um mito antigo relacionado à infecção. 

“Objetos relacionados ao suor, como toalhas e aparelhos de academia não transmitem a mononucleose, a não ser que hajam ali gotículas de saliva através da tosse ou do espirro. Ou no caso de esses instrumentos serem levados à boca. A transmissão se dá através de gotículas respiratórias apenas na fase da doença, e muito mais raramente depois que a pessoa se cura. Então é muito improvável que uma pessoa que já se curou, já está sem sintomas, possa transmitir a doença, embora essa não seja uma equação 100% exata. Existem casos raros onde isso pode acontecer”, arremata.