A detenção de Nicolas Maduro a 3 de fevereiro de 2026 não é um episódio isolado. É um catalisador geopolítico que dificilmente deixará Rússia e China imóveis. Não apenas por afinidade ideológica, mas também por cálculo estratégico.

A Venezuela é petróleo. E o petróleo continua a ser poder. Para Pequim, assegurar acesso estável a recursos energéticos é um pilar central da sua política externa. Para Moscovo, apoiar Caracas é uma forma de confrontar diretamente a projeção de poder dos Estados Unidos na América Latina. Ambos veem na Venezuela uma peça-chave na erosão da hegemonia unipolar dos Estados Unidos.

A reação foi rápida. A Rússia ofereceu “total cooperação” face ao bloqueio imposto por Washington a navios venezuelanos, enquanto Vladimir Putin reiterou que os seus aliados apoiam um mundo multipolar. A China, por seu lado, voltou a condenar sanções unilaterais e qualquer intervenção externa sem mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Este alinhamento não surge no vazio. O bloco BRICS (agora com dez membros) representa cerca de 50% da população mundial, mais de 40% do PIB global, em paridade de poder de compra, e quase metade da produção mundial de petróleo. O lançamento da Unit, moeda ancorada em ouro e em divisas nacionais, é um passo concreto rumo à desdolarização, acelerado por anos de tensões e sanções promovidas pelos EUA.

A Venezuela encaixa perfeitamente nesta estratégia. Para Pequim, diversifica fornecedores energéticos e expande influência. Para Moscovo, reforça a contestação à ordem económica ocidental. Para Caracas, oferece proteção política e acesso a um eixo de poder alternativo.

O que está em causa não é apenas a sobrevivência de um regime, mas a arquitetura do sistema económico global. Cada ação unilateral dos Estados Unidos tende a reforçar a coesão dos que pretendem pôr fim à hegemonia americana.

Daqui a alguns anos, a detenção de Maduro poderá ser vista não como o fim de um ciclo, mas como mais um marco na transição para um mundo inequivocamente multipolar.

Professor associado e coordenador da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia