As notícias sucedem-se: morte de reclusos, problemas de salubridade e guardas prisionais violentos. É assim que é descrito, quase como uma masmorra, o Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn (MDC, na sigla original), em Nova Iorque, onde Nicolás Maduro aguarda julgamento e imita o percurso de alguns dos criminosos mais célebres das últimas décadas nos EUA, como Sean “Diddy” Combs, Joaquin “El Chapo’’ Guzman, Ghislaine Maxwell ou Luigi Mangione.
Existe uma ala dedicada a estes arguidos de alto perfil, que exigem uma maior protecção, refere a revista Time, a propósito da primeira audiência do Presidente venezuelano extraído do seu país pelas forças norte-americanas, nesta segunda-feira, perante o juiz Alvin Hellerstein, que acompanha a investigação contra o narcotráfico na Venezuela há 15 anos.
Maduro, que foi capturado no sábado, num ataque conduzido pelos EUA, poderá ter oportunidade de ver alguns dos seus co-arguidos que estão no mesmo estabelecimento prisional, como Hugo Carvajal, o antigo chefe espião da Venezuela, ou Anderson Zambrano-Pacheco, que faz parte de um gangue de narcotráfico venezuelano.
Mas não o fará por enquanto, já que tanto o Presidente como a mulher, Cilia Flores, estarão em confinamento em celas solitárias, avança a Reuters, permanecendo fechados durante 23 horas por dia, com refeições entregues à porta e uma hora reservada para exercício numa pequena área cercada. Quanto à higiene pessoal, terão acesso ao duche apenas três vezes por semana.
Nicolas Maduro e Cilia Flores
EPA/RAYNER PENA R.
E, de resto, não estarão em particularmente boas condições. O edifício do MDC foi inaugurado em 1994, com capacidade para entre 1300 e 1600 reclusos, enumera o The New York Times (NYT). E o histórico de problemas de violência, suicídios e insalubridade soma-se quase desde o início, segundo testemunhos corroborados por vários reclusos nas últimas décadas.
Em 2007, um grupo de guardas prisionais foi condenado por agredir reclusos e, uma década depois, outros foram julgados por abusar sexualmente de prisioneiras. Anos depois, em 2020, o escândalo alastrou-se quando dois reclusos morreram na prisão, depois de um episódio de violência com os guardas, que agrediram uma das vítimas com gás pimenta, conta o diário nova-iorquino.
O MDC também fez manchetes em 2019 quando uma falha de energia deixou sem luz e aquecimento as instalações durante uma semana inteira. As temperaturas chegaram aos 2ºC negativos no interior da prisão, descreve o mesmo jornal. Só 2023 é que o estabelecimento chegou a acordo com os mais de mil reclusos que apresentaram reclamações — 69 deles sofreram problemas de saúde decorrentes do frio, que não foram tratados, e receberam uma compensação de 17.500 dólares (cerca de 15 mil euros).
Sean Diddy Combs também esteve no MDC
Danny Moloshok/Reuters
“Condições bárbaras”
Em 2021, também Ghislaine Maxwell, a ex-namorada de Jeffrey Epstein condenada por tráfico sexual, que esteve presa no MDC enquanto aguardava pela sentença, descreveu um ambiente digno de inferno: derrames dos esgotos, falta de água para consumo e excrementos de ratos, além da “hipervigilância” por guardas extremamente autoritários.
Em 2024, o ambiente hostil agravou-se quando dois reclusos foram assassinados por outros companheiros — nesse mesmo ano, um guarda impediu um ataque com uma arma branca a “Diddy”, que dividia cela com outros reclusos enquanto aguardava pela sentença (quatro anos de prisão por transporte de ex-namoradas para prostituição).
Pouco depois do incidente com Sean Combs, dois guardas prisionais foram acusados judicialmente de aceitar subornos e fornecer contrabando. A sentença do caso levou o juiz Gary J Brown a confessar que até hesitava em enviar reclusos para as instalações pelas “condições perigosas e bárbaras”. E reiterou, citado pelo NYT: “As alegações de supervisão inadequada, agressões desenfreadas e falta de cuidados médicos suficientes são apoiadas por um conjunto crescente de provas, com certos casos que são irrefutáveis. Reina o caos, juntamente com a violência descontrolada.”
O MDC de Brooklyn
REUTERS/Eduardo Munoz
Em resultado do acumular de polémicas, o Departamento Federal de Prisões tem tentado melhorar as condições do MDC, através do reforço de guardas prisionais e da melhoria da rede eléctrica, de aquecimento e de canalização, reduzindo em simultâneo o número de reclusos nas instalações — agora são 1300, em vez de 1600. “Em suma, o MDC de Brooklyn é seguro para os reclusos e funcionários”, prometeu o Governo norte-americano em Setembro.
Contudo, nesse mesmo mês, soube-se que o Departamento de Justiça tinha acusado 25 pessoas de violência e contrabando no MDC — num dos casos, um dos guardas transportava sacos selados a vácuo com droga e cigarros debaixo do colete de protecção para fornecer a reclusos.
Resta saber quanto tempo Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores, vão aguardar julgamento em Brooklyn, ao lado de outros reclusos célebres, como Ismael “El Mayo” Zambada Garcia, co-fundador do Cartel de Sinaloa, no México; ou Luigi Mangione, acusado formalmente há um ano de matar o CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson.