Um conjunto inédito de análises ósseas sugere que um dos mais antigos ancestrais associados à linhagem humana já era capaz de se locomover sobre duas pernas há cerca de 7 milhões de anos. A conclusão reforça a hipótese de que o bipedalismo surgiu muito antes do que apontavam modelos tradicionais da evolução humana.

Os resultados fazem parte de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Nova York, que aplicaram tecnologia de reconstrução em 3D a fósseis atribuídos ao Sahelanthropus tchadensis. A pesquisa foi publicada na revista Science Advances e reacende o debate sobre quando a postura ereta passou a integrar o repertório locomotor dos primeiros hominídeos.

Encontrado no início dos anos 2000 no deserto de Djurab, no Chade, o Sahelanthropus é conhecido principalmente por um crânio relativamente bem preservado. No entanto, a escassez de análises detalhadas de ossos pós-cranianos sempre dificultou a compreensão sobre como a espécie se deslocava no ambiente em que vivia.

Evidências ósseas

A nova investigação analisou fêmures e ulnas associados à espécie e os comparou com ossos de primatas atuais e de outros hominídeos fósseis, como o Australopithecus. Entre os principais indícios está a identificação do tubérculo femoral, estrutura ligada à fixação do ligamento iliofemoral, essencial para sustentar o tronco em posição ereta durante a marcha.

Além disso, os pesquisadores observaram sinais de anteversão femoral, uma torção do osso que direciona os joelhos para a frente e facilita a locomoção bípede. Esse conjunto de características é considerado típico de espécies adaptadas ao deslocamento sobre duas pernas.

Mudança gradual

Outro aspecto relevante foi a proporção entre os membros. Enquanto grandes macacos apresentam braços mais longos que as pernas, o Sahelanthropus possuía um fêmur relativamente longo em relação à ulna, padrão mais próximo ao observado em hominídeos primitivos.

De acordo com informações repercutidas pela revista Galileu, a análise também indica uma reorganização progressiva do complexo glúteo, fundamental para a estabilidade do quadril ao caminhar. Esse padrão sugere que a adaptação ao bipedalismo ocorreu de forma gradual, ao longo de milhões de anos.

Para os autores, as evidências apontam que a locomoção bípede já fazia parte da trajetória evolutiva muito antes do surgimento do gênero Homo, possivelmente quando esses ancestrais ainda mantinham forte proximidade anatômica com chimpanzés e bonobos atuais.