O instante final de “Valor Sentimental”, quando parentes até então antagônicos se aproximam lentamente após a filmagem de uma cena importante num set, é um dos mais belos momentos do cinema em 2025. A câmera se afasta e vemos a casa montada em estúdio e todos os técnicos se movimentando após o “corta!” proferido pelo diretor. Nada é dito. Apenas ouvimos a voz forte e melancólica de Terry Callier na música “Dancing Girl”. que fecha o filme já em cartaz nos cinemas.
A emoção da gravação se soma a tantos sentimentos expostos na narrativa. O diretor norueguês Joachim Trier realiza uma brilhante costura entre relações familiares carregadas de mágoas e desentendimentos e os bastidores do cinema, em torno de um veterano diretor que sente estar próximo de sua obra-prima. O reencontro de Gustav Borg com as duas filhas, após a morte da ex-esposa, acontece justamente quando ele se prepara para realizar um filme sobre a própria mãe, que se suicidou por enforcamento.
É uma história sobre retornos e acertos de contas com o passado. Vivido por Stellan Skarsgård (ator sueco de “Gênio Indomável”), Borg ficou anos sem ver as filhas, mostrando pouco interesse pela vida delas. Um hiato que também representa sua ausência das telas, sendo lembrado principalmente por retrospectivas. A volta para Oslo tem como marco a casa da família, que tem sua história contada já nos primeiros minutos.
Ela possui uma extensa rachadura interna, representativa das fissuras que se acumularam ao longo do tempo. “Valor Sentimental” tem muitos simbolismos e paralelismos, mas Trier é cuidadoso ao expô-los: o espectador os reconhece, mas não de uma forma que nos reconforte, como se a história seguisse um caminho redentor. O realizador está mais interessado nas frestas e percepções que moldam uma vida inteira.
Nora, a filha interpretada por Renate Reinsve (protagonista de “A Pior Pessoa do Mundo”, filme anterior de Trier), é o pilar desta construção. Ela mostra ao sobrinho um cômodo da casa onde há um compartimento que permite ouvir, em detalhes, tudo o que é falado numa sala do andar de baixo. Essa conexão enviesada da casa é exemplar para evidenciar os pensamentos, as soluções e as atitudes que estão intrinsecamente ligados à vivência naquele lugar.
Em determinada sequência, os rostos de Gustav e das filhas se sobrepõem, remetendo-nos a “Persona” (1966), de Ingmar Bergman, diretor sueco que melhor filmou as conturbadas relações humanas. O sentido é o mesmo, de convergência, mas não chega a borrar os limites entre o “eu” e o “outro”, como Bergman fez. Nos dois filmes, há outra cena parecida, quando Nora, assim como a personagem Elisabeth (Liv Ullmann) em “Persona”, sofre uma crise de ansiedade antes de entrar no palco na montagem de um clássico.
Apesar de os conflitos familiares pautarem as ações de “Valor Sentimental”, alguns de seus pontos altos envolvem a relação do pai com o mundo do cinema, quando se discute as mudanças sofridas nos últimos anos, como as imposições das plataformas de streaming, e a maneira como a câmera consegue extrair beleza de um instante e torná-lo eterno, assim como a sensação de êxtase após ler um roteiro bem escrito e que, a despeito de qualquer obstáculo, precisa ser filmado.