A tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela começou a aumentar neste segundo mandato de Donald Trump na presidência dos EUA, nomeadamente com ataques a embarcações venezuelanas tendo como justificação o combate ao tráfico de droga.

Com Joe Biden, os EUA já tinham exigido transparência nas últimas eleições presidenciais e reconhecido a vitória da oposição. Maduro declarou a vitória, mas a oposição alegou que o processo eleitoral foi fraudulento, tendo, defenderam, conquistado cerca de 70% dos votos.

Já no início de Dezembro, os EUA prometeram novas ofensivas aos navios venezuelanos que transportavam petróleo para países alvo de sanções norte-americanas. Maduro, em contrapartida, alegou que o reforço militar norte-americano na costa do país visava derrubá-lo e garantir o controlo dos recursos petrolíferos.

O Presidente venezuelano acabou por ser capturado no sábado durante um ataque militar levado a cabo por forças norte-americanas naquele país.

Ao longo dos últimos meses, foram muitas as declarações de Donald Trump sobre a Venezuela.

“Cada um destes barcos [interceptados pelos EUA] é responsável pela morte de 25 mil americanos e a destruição de famílias. [Os ataques dos EUA a estes barcos] salvaram provavelmente 100 mil vidas, vidas americanas”

A frase foi proferida por Trump em Outubro, mas já vários órgãos de comunicação social dedicados à verificação de factos desmentiram esta ideia. É o caso da CNN, que recorre a dados federais das mortes por overdose. Em 2024, foram 82 mil as pessoas que morreram por overdose nos Estados Unidos. Os números de Trump não fazem, por isso, sentido. Em apenas quatro ataques a barcos — os que até então se tinha verificado — não poderiam ter evitado quase um ano de mortes overdose de drogas, que têm proveniência de vários países.

Além disso, a Casa Branca não apresentou provas de que os barcos interceptados transportavam drogas, de uma forma geral, ou o fentanil, em particular. As Caraíbas ou a Venezuela também não fazem parte da rota de transporte do fentanil. Em suma, não existem provas para esta alegação.

“Maduro enviou gangs selvagens e assassinos, incluindo o sanguinário gangue prisional Tren de Aragua, para aterrorizar comunidades americanas em todo o país”

A declaração de Trump data da conferência de imprensa que deu no sábado, horas depois da captura de Madura. Mais uma vez, não existem evidências que sustentem esta alegação do presidente norte-americano. Pelo contrário, um relatório de Abril do Conselho Nacional de Inteligência contradiz Trump.

“Embora o ambiente permissivo da Venezuela permita que o Tren de Aragua [TDA] opere, o regime de Maduro provavelmente não tem uma política de cooperação com o TDA e não está a orientar os movimentos e operações do TDA nos Estados Unidos”, afirma o relatório, citado pelo site de verificação de factos PolitiFact.

“A Venezuela roubou petróleo americano no passado”

É mais uma frase da conferência. As reservas de petróleo sempre foram legalmente da Venezuela, apesar de a sua exploração ter sido concessionada antes a empresas como a Exxon e Mobil e a Gulf Oil. Em 1975, porém, a Venezuela decidiu nacionalizar a exploração e as empresas estrangeiras foram compensadas bem abaixo das perdas que tiveram mas a verdade é que não exigiram mais dinheiro na altura, segundo o jornal New York Times.

Esta alegação sobre a Venezuela ter “roubado” petróleo americano no passado é desmentida por vários jornais, desde os generalistas aos especializados em verificação de factos.

Venezuela tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com mais de 300 mil milhões de barris disponíveis — ainda mais do que a Arábia Saudita — e bem acima dos 46 mil milhões dos Estados Unidos.

No entanto, segundo a rádio alemã DW, hoje a Venezuela representa menos de 1% da produção global de petróleo, um número que era superior a 10% da produção global na década de 1960. A produção de petróleo bruto caiu mais de 70% desde o final da década de 1990, e o país ocupa agora o 21.º lugar na lista de produtores globais.