O ayatollah Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica do Irão, terá um plano engendrado para fugir do país se as suas forças de segurança não conseguirem reprimir os protestos, escreve a edição desta segunda-feira do The Times, citando um relatório de inteligência a que teve acesso.
De acordo com o jornal britânico, o líder político e religioso de 86 anos terá planeada a saída do Irão em conjunto com o seu círculo próximo — composto por cerca de 20 assessores e familiares —, na eventualidade de o exército e forças policiais serem incapazes de conter os protestos ou até de começarem a desertar.
O relatório dá conta de que Khamenei continua a ter a maior parte dos militares do país do seu lado, visto que controla as nomeações em cargos de importância política e na área da segurança nacional desde que herdou o cargo de líder supremo do seu antecessor, Khomeini, em 1989.
No entanto, o mesmo documento dá conta de que Khamenei se encontra neste momento “mais fraco, tanto mental quanto fisicamente” desde a guerra de 12 dias com Israel no ano passado e que representou um duro golpe para o Irão. Durante esse conflito, a avaliação feita pelo relatório revela que o ayatollah se manteve escondido num bunker, alimentando a sua “obsessão pela sobrevivência”.
É por essa “paranóia”, como descreve o relatório citado pelo The Times, que Khamenei terá planeado a sua fuga. “Por um lado, ele é muito motivado ideologicamente, mas, por outro, é pragmático no que vê: ele vê o compromisso tático como uma causa maior a longo prazo. Ele é um pensador de longo prazo”, refere-se.
Uma das fontes entrevistadas pelo The Times, Beni Sabti, afirma que Moscovo é o único lugar para onde Khamenei e o seu séquito podem fugir dada a aliança que a Rússia mantém com o Irão, um ator regional extremamente poderoso no Médio Oriente mas politicamente isolado no panorama internacional.
De resto, este plano de fuga é inspirado na operação levada a cabo pelo seu aliado Bashar al-Assad. O ex-presidente da Síria conseguiu fugir de Damasco a bordo de um avião com destino a Moscovo para se juntar à sua família antes que as forças da oposição invadissem a capital em dezembro de 2024.
“Eles traçaram uma rota de saída de Teerão caso sintam a necessidade de fugir”, afirmou uma fonte ao The Times, sendo que isso implica “reunir bens, propriedades no estrangeiro e dinheiro para facilitar a sua passagem segura”. Khamenei, como a Reuters revelou numa investigação datada de 2013, terá ao seu dispor uma enorme rede de ativos, com uma larga quantidade de propriedades e empresas de valor estimado em 95 mil milhões de dólares (aproximadamente 81 mil milhões de euros).
Os movimentos de protesto, inicialmente relacionados com o agravamento da situação económica no país, começaram a 28 de dezembro do ano passado em Teerão e alargaram-se a várias cidades do Irão para incluir outras reivindicações políticas.
Desde então, os confrontos violentos entre as forças de segurança e os manifestantes já causaram vários mortos. O grupo de direitos humanos Hengaw, de origem curda, informou a Reuters de que pelo menos 17 pessoas foram mortas desde o início dos protestos. Já a HRANA, uma rede de ativistas de direitos humanos, fala em pelo menos 16 pessoas vítimas mortais, além de 582 detenções.
Segundo a agência France-Presse, os protestos ocorreram em, pelo menos, 45 cidades, principalmente de pequena e média dimensão localizadas sobretudo no oeste do Irão. E, pelo menos, 25 das 31 províncias do Irão foram afetadas pelos protestos.
Esta segunda-feira, o chefe do poder judicial do Irão ordenou uma atuação firme contra os “manifestantes violentos”, no nono dia de protestos no país, embora tenha reconhecido o direito legítimo de manifestação por reivindicações económicas.
Gholamhossein Mohseni Ejei, citado pelas agências oficiais, ordenou ao Procurador-Geral que atue de acordo com a lei e com determinação contra aqueles que classificou como manifestantes violentos. O mesmo responsável acrescentou que os “arruaceiros violentos” não devem ser confundidos com os manifestantes que se comportam no quadro da lei.