É uma peça moderna, feita de ouro amarelo brilhante, e projetada com vários motivos florais. A tiara Naasut foi oferecida em 2012 à rainha Margarida pelo povo da Gronelândia, para assinalar os 40 da monarca no trono dinamarquês. 14 anos depois, a soberana já passou o testemunho ao filho Frederik X, depois de abdicar em janeiro de 2024, mas conserva um lugar especial para esta peça no seu guarda-joias — e nas aparições públicas e simbólicas. Num cenário de instabilidade, com Trump a ameaçar que “precisa” daquele território dinamarquês, o ano novo foi o momento mais recente para Margarida desempoeirar este acessório e, segundo as leituras mais atentas — para deixar uma mensagem política.
Para o banquete de receção a 2026, no palácio de Amalienborg, a antiga monarca surgiu mais uma vez com a Naasut, cujo material resulta de moedas derretidas, que haviam sido cunhadas para o Ano Polar Internacional, com o ouro extraído das minas Kirkespidalen. O conjunto, onde se inclui ainda um par de brincos, foi criado pelo ourives Nicolai Appel. Este pequeno modelo demi parure destaca-se ainda pelos diamantes e rubis espalhados entre as flores que compõem a peça. O nome da tiara, Naasut, em Kalaallisut, a língua oficial da Gronelândia, traduz-se aliás por “flores da Gronelândia”, um efeito para uma rainha também ela florida, original nas suas escolhas de estilo.

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Encantada com a oferta, em cuja confeção ela própria terá intervindo, a Rainha estreou a tiara no evento de ano novo que reuniu a corte dinamarquesa no ano seguinte, interrompendo o hábito de usar outras criações, como a tiara Pearl Poiré. A peça tem ainda outra particularidade: pode ser desmontada e dividida em cinco pregadeiras e ganchos de cabelo. Quanto ao look eleito, também uma repetição, Margarida escolheu um vestido encarnado da designer dinamarquesa Birgitte Thaulow. Ao peito, destaque ainda para o colar da ordem do Elefante.
Dedicado ao trabalho com o ouro desde 1989, Nicolai Appel é natural de Copenhaga e formado em design pelo Instituto de Metais Preciosos. Fixou-se em nome próprio em 1996, na capital dinamarquesa, e segundo o seu site deixou-se cativar pelo ouro da Gronelândia em 2004, quando o casal de príncipes herdeiros do trono teve as suas alianças de casamento feitas com esta proveniência. Appel passou a defender que este material nobre deveria estar ao alcance de todos, apostando assim em coleções mais democráticas.
Também conhecida como a Greenland Gold Tiara, esta joia, que põe em evidência 17 flores diferentes, é uma das que a antiga soberana pôde conservar depois da abdicação, com a maior parte da coleção a ter passado para as mãos da sua nora, a rainha Mary. No seu acervo pessoal destacam-se criações como a tiara Floral Aigrette mas a Naasut será uma das mais significativas em termos de tamanho. Margarida usou-a no banquete de Estado que ofereceu em Amalienborg ao chefe de estado islandês em 2017. No ano seguinte, voltou a preferir esta peça para o jantar de gala que celebrou os 50 anos do seu filho, o príncipe Frederik, em Christianborg, e a conjugá-la com a pregadeira diamantes de Josefina da Suécia e Noruega, uma joia herdada pela sua neta, a princesa Lovisa da Suécia, e que passaria para a Família Real Dinamarquesa.
Em 21 de junho de 2023, a rainha dinamarquesa participou da abertura da exposição “Kalaalit Nunaat Rocks – Pedras da Gronelândia” no Museu do Design em Copenhaga. A exposição, inaugurada no dia nacional da Gronelândia, celebrado nesse dia do ano, contou entre os destaques com esta tiara.
Ao longo do seu reinado de meio século, não faltaram intervenções mais contundentes em tempos críticos. Em março de 2022, a Casa Real Dinamarquesa divulgava um comunicado em nome da Rainha onde se lia: “Há guerra na Europa novamente. Fico imensamente triste por testemunhar o que está agora a acontecer na Ucrânia. O progresso e a esperança que floresceram na Europa após a queda do Muro de Berlim desfaz-se agora perante os nossos olhos”. A mensagem terminou com a linha, “que esta guerra sem sentido seja levada ao fim o mais rápido possível”. A família real dinamarquesa doava ainda um milhão de coroas dinamarquesas às vítimas ucranianas do conflito, proveniente da Fundação da Rainha Margarida e do Príncipe Henrik e da Fundação do Príncipe Frederik e da Princesa Mary. Margarida tinha cinco anos quando a Dinamarca foi libertada da ocupação nazi em 1945. Em 2020, partilhou memórias da noite em que o seu país foi finalmente libertado dos militares alemães.
Embora os monarcas não interfiram diretamente nos assuntos políticos, alguns tópicos da atualidade foram dominando as intervenções de ano novo, um dos momentos marcantes do calendário, quando o soberano se dirige diretamente ao povo dinamarquês. A tradição da mensagem foi encetada no final do século XIX, então apenas dirigida ao círculo restrito da corte, passou a ser transmitida na rádio em 1941, e chegou à TV em 1958. Em 2023, o discurso de Margarida acabaria por viralizar no país, desde logo pelo anúncio da sua retirada mas também pelos temas aflorados. Na despedida, a monarca aludiu à crise climática, aos perigos da inteligência artificial, e também deixou um apelo a propósito do conflito no Médio Oriente. “A guerra está a fazer o anti-semitismo espalhar-se novamente. É lamentável e vergonhoso. Esta noite farei um apelo inequívoco para que todos nós, na Dinamarca, nos tratemos mutuamente com respeito. Temos de nos aproximar uns dos outros, não nos distanciarmos uns dos outros. Devemos lembrar que somos todos humanos. Isto aplica-se tanto aos judeus como aos palestinianos.”
Chegados à entrada de 2026, a segunda mensagem de ano novo do reinado e Frederik X exprimiu o contraste de sentimentos numa época especialmente turbulenta e de desfecho imprevisível. “A alegria e a tristeza andam de mãos dadas. Alguns dias se sentem pesados e se arrastam, outros se sentem leves e fáceis e passaram, quase antes de começarem. A natureza e o ritmo da vida flutuam para cima e para baixo. A mudança da vida é o destino da vida. Todos nós experimentamos isso com o passar do tempo – também este ano.”, afirmou o Rei, que lembrou o crescimento dos filhos, o desafio da paternidade, e ainda a guerra entre Rússia e Ucrânia. “A caminho do mundo. Um mundo de oportunidades – mas também de desafios. Alguns são maiores do que gostamos.”