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Já lá vai o tempo em que escolher casa era, antes de
tudo, escolher distâncias. Quantos minutos até ao escritório? Quantas estações
de metro entre a casa e o trabalho? Hoje, essa lógica começa a parecer que
existiu numa outra vida.





O teletrabalho deixou de ser exceção para se tornar regra
para uma parte significativa dos portugueses. Cerca de 22% da população
empregada
trabalha atualmente à distância, total ou parcialmente, e essa
mudança está a redesenhar o mapa habitacional do país. A casa já não é apenas o
lugar para descansar. É também onde se trabalha, se estuda, se cria e se passa
mais tempo do que nunca.





Como resume Júlio Quintela, COO da Zome, “o teletrabalho transformou a casa. Já não se trata apenas de dormir e viver. Trata-se
também de trabalhar, de ter flexibilidade. Quem escolhe bem hoje pondera não só
a localização, mas a função da habitação”.





Quando o espaço vale mais do que a
centralidade


Com o portátil permanentemente aberto na sala ou num
quarto, o espaço passou a ser um bem essencial. Não surpreende, por isso, que a
tipologia T3 tenha ganhado protagonismo no pós-pandemia. Uma divisão
extra deixou de ser luxo: tornou-se necessidade.





Muitos portugueses trocaram a proximidade ao centro das
cidades pela possibilidade de ter um escritório em casa, de separar trabalho e
descanso e ganhar luz natural. Os T1, outrora símbolo da vida urbana moderna,
perderam atratividade face a T2 e T3 com divisões adaptadas a um uso
multifuncional.





A nova geografia de quem trabalha à
distância


À medida que o centro perde algum peso, as periferias
ganham vida. Concelhos como Amadora, Loures, Odivelas, Seixal, Sesimbra ou
Oeiras
destacam-se como exemplos de forte crescimento da procura.





Mais longe dos grandes eixos urbanos, o fenómeno é ainda
mais revelador. Fundão, Idanha-a-Nova ou Oliveira do Hospital ganharam novo
fôlego graças à conectividade e à procura de tranquilidade sem abdicar de
recursos digitais.





Os números confirmam a tendência. Em 2020, a região
Centro passou a representar mais de 21% das vendas de habitação
, segundo o
INE, refletindo uma procura crescente por regiões com melhor relação entre
custo, espaço e qualidade de vida.





Casas que já nascem a pensar no
trabalho


O mercado imobiliário percebeu rapidamente os sinais de
mudança. Já existem projetos com espaços comuns dedicados a coworking, salas
de reunião partilhadas e plantas flexíveis.





Projetos como o Docks, em Matosinhos, ou o Condomínio
Selva, em Lisboa
, antecipam um novo conceito de habitação: viver e
trabalhar no mesmo edifício, sem sacrificar conforto nem privacidade. “Num
conceito cada vez mais valorizado. Estas soluções, ainda recentes, alinham
Portugal com o que já se verifica em mercados como Boston ou Amesterdão, onde a
habitação é pensada para responder à vida urbana contemporânea, em que casa e
trabalho coexistem”, acrescenta o responsável da imobiliária 100% nacional.









C-Studio Júlio Quintela, Chefe de Operações Zome (1).jpg



Júlio Quintela, Chefe de Operações da Zome







Mais espaço, mais valor… e mais
pressão


Desde 2019, os preços das casas maiores cresceram
mais rapidamente do que os das tipologias pequenas, sobretudo em zonas
suburbanas. Em alguns mercados, a diferença entre arrendar um T1 no centro e um
T3 na periferia encurtou de forma surpreendente.





No segundo trimestre de 2025, o preço mediano da
habitação atingiu 2.065 €/m²
, segundo o INE. Ao mesmo tempo, o Banco de
Portugal alerta para taxas médias de esforço das famílias superiores a 35%
do rendimento disponível
em várias áreas urbanas.





Curiosamente, a conectividade digital tornou-se um
fator de valorização imobiliária tão importante como a proximidade a
transportes. Em alguns territórios rurais, os preços cresceram acima da média.





A casa como centro de tudo


“Estamos perante uma mudança
estrutural no modo como os portugueses encaram o ato de comprar casa. O fator
‘metro quadrado emocional’ ganhou relevo: não basta estar perto de tudo, é
preciso que a casa sirva todas as dimensões da vida moderna”, comenta Júlio Quintela.





Assim, mais do que uma tendência, estamos perante uma
mudança estrutural.





Talvez
o centro da cidade continue a seduzir. Mas, para muitos, o verdadeiro centro é
agora outro: aquele onde a vida acontece a tempo inteiro, entre reuniões
online, janelas abertas e um quarto a mais.




Este conteúdo foi produzido pela ZOME.