A partir da sua mansão em Mar-a-Lago, Donald Trump deu a luz verde. Depois, sentou-se na companhia de altos cargos da Defesa norte-americana e “como se estivesse a ver uma série de televisão”, acompanhou tudo o que aconteceu em solo venezuelano. O ataque em Caracas e a captura de Nicolás Maduro durou pouco mais de duas horas, mas por trás está uma preparação minuciosa de meio ano que permitiu saber que o Presidente da Venezuela vivia em oito casas, tinha uma guarda formada por cubanos e até que tinha animais de estimação que era preciso levar à rua.
Antes ainda de ser bombardeada a primeira embarcação numa sequência de ataques a alvos identificados por narcotráfico, os EUA já estavam infiltrados na Venezuela com uma equipa discreta da CIA. Os agentes participavam numa missão que tinha ainda mais risco do que as operações normais em que se vêm envolvidos: desta vez, não teriam cobertura diplomática da embaixada, que está encerrada.
Maduro até poderia não saber que estava prestes a ser capturado pelos norte-americanos, mas tinha consciência que tinha que agir com discrição. Isso explica que nos últimos tempos, segundo informação agora revelada pela imprensa dos EUA, tenha alternado diariamente entre oito habitações diferentes — seis delas eram as mais repetidas.
A rotina, os hábitos e a segurança do líder da Venezuela (que não era reconhecido por muitos países, entre eles os EUA e a UE) eram do conhecimento do restrito grupo de norte-americanos que estavam diretamente envolvidos na “Operação Resolução Absoluta”. Mesmo tendo violado regras fulcrais do Direito Internacional, a ação exaltada por Trump reflete o poder dos norte-americanos que conseguiram sair de Caracas com o Presidente do país sul-americano e a sua mulher algemados e acusados de vários crimes relacionados com o narcotráfico.

Captura de ecrã de vídeo em direto que mostra a chegada de Maduro
Ainda em agosto, a equipa da CIA chegou a Caracas para seguir, tão perto quanto possível, os movimentos de Nicolás Maduro. Mas não era perto suficiente. Por isso, os EUA contavam com uma pessoa muito próxima do regime e pessoalmente próxima de Maduro — conhecedora das suas rotinas e tendências.
Foi com esta missão apertada de vigilância que os americanos perceberam que tinham de alargar o cerco: afinal, o Presidente dividia a sua semana por oito casas diferentes, evitando ter rotinas detetadas pelos serviços de informação que o quisessem capturar.
Mas não teve sucesso. Os americanos, desvenda o New York Times, tinham mapeado uma rotina com detalhes de minuto em minuto da vida de Maduro. No sábado, o General Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto do EUA admitiu que os EUA sabiam o que o venezuelano “comia”, por onde “se movia”, onde “vivia e viajava”, o “que vestia” e “quais eram os seus animais de estimação”.
Descodificada a rotina e identificado o alvo, era necessário os norte-americanos treinarem com rigor como seria a missão de captura. A secretíssima Delta Force, tinha um bunker falso na base de operações em Kentucky. Tratava-se de uma réplica exata do “forte” onde se escondia Maduro.
O exercício foi repetido, e cronometrado, vezes sem conta para garantir que o Presidente da Venezuela era encontrado, apanhado e retirado de casa em tempo recorde. Tinham menos de dois minutos para explodir com a porta e surpreender o casal sem que este tivesse tempo de alcançar um abrigo de aço, para o qual mesmo assim tinham ferramentas para arrombar e retirar a tempo de os levar da Venezuela.
O plano era levar a cabo a missão no período entre o Natal e o Ano Novo, aproveitando o facto de muitos responsáveis do Governo venezuelano estarem de férias e de outros tantos militares estarem ausentes do trabalho. No entanto, e como acabou por admitir a Casa Branca, não foi possível realizar a ação militar a 30 ou 31 de dezembro devido à má visibilidade fruto do mau tempo que impedia manobras aéreas seguras.
Mas pouco depois o plano foi colocado em prática. Maduro não se pode queixar de falta de aviso. Segundo a imprensa norte-americana, o Presidente da Venezuela recebeu uma chamada de um funcionário da Casa Branca a 23 de dezembro a propor uma retirada para o exílio na Turquia. Recusou e ditou a sentença que chegaria nos primeiros dias de 2026.

AFP via Getty Images
O plano estava traçado e não haveria mau tempo para travar a intenção de Donald Trump. Uns dias depois do programado, os americanos perceberam que estavam finalmente reunidas as condições para avançar com uma missão coordenada por um comandante que fala castelhano.
Eram 23h46 na Venezuela (menos uma hora na Florida) quando Trump deu luz verde à missão que começou com astúcia tecnológica dos norte-americanos (que já antes servira, via satélite, para identificar os pontos-chave de Caracas). Em poucos minutos, lançaram um ciberataque que deixou a capital da Venezuela às escuras. Em simultâneo, os céus encheram-se com drones e aviões (mais de 150 aeronaves) a atacar os os sistemas de defesa antiaérea da Venezuela e outros pontos militares. De seguida, entraram os helicópteros com os militares da Delta Force — um deles foi atingido, mas sem baixas.
Os militares seguiram a toda a velocidade para a casa onde sabiam estar Nicolas Maduro e Cilia Flores, a primeira-dama. Passava um minuto da 1h00 quando fora capturados numa das oito casas seguras, transformada em bunker. Menos de cinco minutos depois de terem entrado, os militares avisaram que já tinham o casal sob custódia e retiraram Maduro e Cilia de helicóptero para o Iwo Jima, um grande navio que estava a 160 km da costa venezuelana (muitos outros estavam nas redondezas).
Segundo o relato da imprensa norte-americana, foi a explosão que os militares provocaram para destruir a porta que acordou o casal, que foi surpreendido com as armas e as lanternas dos agentes da Delta Force e não conseguiu chegar ao quarto blindado. “Ele estava a tentar chegar a um local seguro [quando as forças americanas o viram], mas não conseguiu. Chegou à porta, mas não conseguiu fechá-la”, acabaria por descrever Trump. O treino na réplica em Kentucky deu frutos. Mas se não tivesse resultado, havia alternativa. Os americanos tinham armas para derrubar a porta de aço em pouco minutos um negociador do FBI para se fosse preciso convencer Maduro a entregar-se, o que acabou por não ser necessário.
Algumas fontes envolvidas na missão dizem que Maduro resistiu e que teve que ser arrastado do seu quarto, provocando ferimentos na perna esquerda. A mulher também terá ficado com lesões. Foi já no helicóptero a caminho do navio que os agentes da FBI e da DEA leram brevemente as acusações de tráfico de droga contra o casal venezuelano, quando já estavam algemados.
Trump acompanhou tudo graças a uma câmara colocada na parte frontal de um dos helicópteros que captou, em direto o que aconteceu. A aviação venezuelana (composta por velhos F-16 vendidos pelos EUA e SU-27 russos) não chegou a descolar e os EUA, com apoio dos Night Stalkers (uma unidade militar da Força Aérea focada em incursões noturnas, o regimento 160, a mesma que levou os Navy Seal até ao reduto de Bin Laden em Abotabad) levou vantagem no desenrolar da operação.
No início, os militares dos EUA perceberam que tinham conseguido manter minimamente o efeito surpresa e que Maduro não sabia que a captura estava a começar. A resistência foi mínima. Trump disse que um dos helicópteros foi atingido e um dois dos tripulantes ficaram feridos.
O New York Times chegou a avançar que o número de vítimas do ataque chegava a 80 pessoas, citando um responsável sénior venezuelano. O Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, assumiu num gesto raro que tropas cubanas estavam na Venezuela durante o ataque norte-americano e que 32 dos seus militares morreram na sequência da operação militar. “Os nossos compatriotas cumpriram o seu dever com dignidade e heroísmo e tombaram, após resistência feroz, em combate direto com os atacantes ou na sequência dos bombardeamentos”, afirmou. “Muitos cubanos morreram ontem [sábado] a proteger Maduro”, disse Trump, a caminho da Casa Branca. Faziam todos parte da guarda pretoriana de Maduro, comando cubanos treinados na ilha e conhecidos como ‘Vespas Negras’.
A “Operação Resolução Absoluta” contemplava uma segunda vaga de ataques que acabou por não ser necessária, admitiu o Presidente dos EUA.