Outra dúvida é como serão divididos os ganhos dessa produção. Os EUA, prometeu Trump, vão “extrair enorme riqueza do solo” venezuelano. “Riqueza” que terá como destino “o povo da Venezuela” e todos os que tiveram de sair do país. Mas também os americanos vão receber alguns destes ganhos “como forma de reembolso pelos danos causados”, afirmou o Presidente americano.

“Os recursos de petróleo e gás de um país pertencem a esse país e ao povo desse país”, realça António Costa Silva. “O que Trump argumenta que a Venezuela roubou ou expropriou é no fundo uma falácia. Os recursos tem de ser desenvolvidos também em benefício dos países que os têm”, afirma.

Apesar das ressalvas, o ex-presidente da Partex vê também algum racional no interesse americano pelo petróleo venezuelano. O petróleo americano é muito leve, é bom para produzir gasolina, mas não é o mais adequado à configuração das refinarias americanas que foram formatadas para usarem crudes pesados e precisam de o misturar com o “óleo leve” que é produzido internamente.

O presidente dos Estados Unidos atribuiu às petrolíferas americanas um papel na reabilitação do setor petrolífero na Venezuela, através de investimentos de milhares de milhões de dólares. Mas o Presidente Trump “não manda nas companhias petrolíferas americanas, não manda no mercado mundial”, diz Costa Silva. Às vezes, a relação “é tensa”, apontando para a decisão tomada durante a primeira administração de Trump que abriu a reserva natural do Ártico à exploração petrolífera, mas quando o concurso foi lançado nenhuma empresa americana concorreu.

O antigo ministro da Economia diz que é preciso ter em atenção as reações das petrolíferas americanas, que têm sido prudentes.  É certo que estas empresas americanas conhecem bem a indústria venezuelana, mas nenhuma empresa vai prometer investimentos sem ter estabilidade política para operar e segurança jurídica para contratos e compromissos financeiros. São condições para as empresas investirem e a Venezuela tem um mau currículo nessa matéria.

Segundo escreve o Político, a administração Trump tem avisado os gestores das petrolíferas que perderam ativos nas nacionalizações na Venezuela que só podem esperar receber qualquer compensação se estiverem preparados para voltarem a investir em força no país.

“Mas no fundo não há nenhuma mudança de regime na Venezuela e a ditadura militar continua”. António Costa Silva ironiza a intenção manifestada por Donald Trump de “governar à distância” o país. “O que é isso de governar à distância? É uma nova invenção trumpiana? Governos teleguiados? Vai ser muito difícil”.

Para o ex-ministro da Economia, não se pode ignorar uma situação económica de uma país cujo PIB caiu 75% face a 2013 e que tem uma inflação na ordem dos 500%. Isto combinado com a segunda maior taxa de criminalidade do mundo e cartéis de droga ligados a milícias que foram armadas por Maduro, para além de 2.200 generais que apoiaram o regime e que Trump terá de afrontar. A Venezuela tem um “potencial de conflito interno enorme e a possibilidade de guerra civil não pode ser afastada”, avisa.

Se Costa Silva vê riscos políticos, económicos e sociais, há mais riscos que eventuais investidores vão ponderar. Mais do que o preço do petróleo atual — que, refere uma fonte do setor ao Observador, “é razoavelmente irrelevante” porque as empresas não fazem investimentos com base no preço de hoje, — há o risco operacional e de segurança de atuar na Venezuela. Mas também o risco ambiental. Dado o estado de degradação das infraestruturas, há risco de acidentes, mas também uma pesada herança ambiental de contaminação — as duas principais áreas de produção estão na bacia do rio Orinoco e num lago a norte do país — com a qual as grandes empresas não querem ser associadas.