Há mais de duas décadas, cientistas desenterraram no norte de Chade fósseis que podem ser de um dos mais antigos ancestrais humanos conhecidos. Foram encontrados um crânio, um fêmur e alguns ossos do braço. Estima-se que tenham 7 milhões de anos.

Desde a descoberta, cientistas têm tentado juntar as peças desse quebra-cabeça para responder a uma questão: esse hominínio da espécie Sahelanthropus tchadensis caminhava ereto, como os humanos modernos fazem?

Uma nova análise oferece evidências de que, sim, elefoi nosso primeiro ancestral conhecido a se locomover regularmente sobre dois pés, um sinal de que o bipedalismo evoluiu cedo em nossa linhagem e constitui uma marca evolutiva característica de nossa espécie. A interpretação, se confirmada, recuaria a data em que os primeiros hominínios se ergueram em aproximadamente um milhão de anos.

No entanto, o novo estudo provavelmente não encerrará o debate de longa data sobre se o Sahelanthropus tchadensis caminhava ou não. E isso mostra quão pouco os cientistas ainda sabem sobre a evolução humana, com apenas um punhado de ossos fossilizados de hominínios já descobertos após décadas de escavações.

“Estou bastante convencido de que essa criatura era bípede”, disse o morfologista evolutivo Scott Williams, da Universidade de Nova York (Estados Unidos). Autor principal do estudo publicado na última sexta (2) na revista Science Advances, ele acrescentou que “seria tolo em pensar que isso resolveria a questão”.

Uma equipe liderada pelo paleoantropólogo francês Michel Brunet descobriu os fósseis no início dos anos 2000 no deserto de Djurab, no Chade. O crânio parecia pertencer a um macho adulto com um cérebro do tamanho de um chimpanzé, mas com face semelhante à humana. A posição da abertura na base do crânio, por onde passava a medula espinhal, sugeria uma postura mais ereta. O indivíduo foi apelidado de Toumaï, que significa “esperança de vida” em um dos idiomas nativos do Chade.

Porém, outros cientistas questionaram essa interpretação inicial da abertura do crânio. E uma análise inicial do fêmur indicou que seu formato se parecia com o de chimpanzés e bonobos, sugerindo algo que se locomovia de quatro.

Para o estudo mais recente, os pesquisadores realizaram uma análise detalhada dos ossos do Sahelanthropus tchadensis. No fêmur, eles identificaram uma torção natural, semelhante à dos humanos, que aponta os pés para frente e auxilia na caminhada. Também encontraram uma protuberância no osso da perna —novamente, semelhante à nossa— onde o fêmur está ligado aos músculos glúteos, o que é fundamental para ficar em pé e correr.

Mas a característica que “comprovou o caso do bipedalismo”, segundo Williams, foi a presença de algo chamado tubérculo femoral. Esse é o local onde um ligamento que conecta a pelve ao fêmur está fixado. O ligamento é o mais forte do corpo humano e é fundamental para evitar que o tronco tombe para trás quando nos levantamos.

“É uma característica sutil, por isso não foi reconhecida pelos outros grupos”, afirmou o pesquisador.

Em agosto de 2022, os pesquisadores Franck Guy e Guillaume Daver, da Universidade de Poitiers (França), já haviam sugerido em um artigo publicado na Nature que o Sahelanthropus era bípede. Ao ver a nova pesquisa, eles disseram ter ficado satisfeitos com a confirmação do seu achado.

O novo estudo “não apenas confirma nossas interpretações iniciais das adaptações e locomoção do hominínio Sahelanthropus, mas apresenta novos argumentos que apoiam seu bipedalismo”, afirmam eles em um comunicado.

Já o paleoantropólogo Roberto Macchiarelli, que argumentou que os fósseis não vieram de um bípede, afirmou que o fêmur foi muito deformado e danificado pelo tempo para mostrar a torção e o tubérculo que provariam que o Sahelanthropus se locomovia regularmente sobre duas pernas.

“As proporções corporais do Sahelanthropus são 100% semelhantes às de um símio, certamente não são ‘intermediárias’ entre um símio e um hominínio”, disse Macchiarelli.

O paleoantropólogo também observou que os pesquisadores se basearam em um molde, não no espécime original, para sua análise do fêmur. Williams disse que confirmou a presença do tubérculo femoral no fóssil real com pesquisadores franceses.

Guy e Daver concordaram que o artigo não resolverá a controvérsia. “De fato, para encerrar o debate seria necessária a descoberta de novos fósseis”, afirmaram. Para isso, eles planejam retornar ao deserto no Chade neste ano.