Poucos em Hollywood querem trabalhar com ele. John Carpenter disse que teve vontade de desistir da carreira após dirigir Chase. Em fevereiro, o comediante ficou de fora da lista de artistas do especial de 50 anos do “SNL”, mesmo tendo sido o primeiro apresentador do quadro “Weekend Update” do programa. Ele não participa de um sucesso desde 2014, quando foi retirado da comédia “Community”, da NBC.

Agora, um novo documentário apresenta Chase de forma honesta, por empática. “I’m Chevy Chase and you’re not” retrata o ator como um homem complexo, amado por fãs e pessoas próximas, independentemente de tudo — mesmo que, como ele diz à diretora do filme, Marina Zenovich, ela “não seja inteligente o suficiente” para compreender essa complexidade. (O filme está disponível nas plataformas da CNN nos EUA, sem previsão de lançamento no Brasil.)

O ator Chevy Chase — Foto: Blaise Cepis/The New York Times O ator Chevy Chase — Foto: Blaise Cepis/The New York Times

Zenovich tem um histórico de investigar a vida de homens complexos — Roman Polanski, Lance Armstrong e Robin Williams, entre outros — e ficou intrigada com as opiniões contraditórias de Chase. Ela queria entendê-lo melhor.

Chase, por outro lado, parecia confuso por ter criado essa reputação e ao mesmo tempo indiferente às críticas. Ele está casado há 43 anos com uma esposa que o ama, assim como suas três filhas. As pessoas ainda fazem fila para vê-lo. Ele ainda recebe uma boa quantidade de cartas de fãs. “Eu me sinto realizado”, diz ele no documentário.

Quando Zenovich encontrou Chase nos escritórios da CNN em Nova York para falar sobre o filme, no mês passado, parecia familiarizada com os modos cáusticos de Chase, mas também com a pessoa mais completa e sensível que havia por trás. Ele não pede desculpas pelo comportamento mais rude. Mas ficou claro que sua infância, durante a qual sofreu abusos físicos da mãe e do padrasto, contribuiu para muitas das escolhas que fez em sua carreira.

A animada discussão oscilou entre o absurdo e a reflexão, do engraçado ao doloroso. Estes são trechos editados da conversa.

Por que você quis participar deste filme?

CHEVY CHASE: Eu gostei muito. Não sabia se queria participar ou não. Só sabia que tinha visto o filme com o Armstrong. Achei muito bom. Tudo o que eu conseguia pensar enquanto filmávamos o meu era: Qual é o meu problema? Quem eu enganei? Refleti um pouco sobre a minha vida, o que costumo fazer, ao contrário de outras pessoas. Só pensava: “Não fiz nada de ruim que valha a pena filmar.”

Marina, por que você quis fazer este filme?

MARINA ZENOVICH: Quando me apresentaram a ideia, pensei: “Nossa, Chevy Chase — isso pode ser muito interessante.” Eu era fã. Mas o interessante é que, quando eu contava às pessoas que estava trabalhando no filme, elas não tinham muitas coisas boas a dizer sobre ele. Isso era meio que uma constante.

CHASE: Eu não tinha me dado conta.

ZENOVICH: Isso me intrigou, assim, por que as pessoas não gostam de você?

CHASE: Talvez elas pensassem que eu era convencido demais, ou, sabe, que eu me achava demais. Acho que as pessoas não gostam muito de um cara alto, bonito e engraçado, judeu, que não é judeu, mas é judeu. [Chase não é judeu.] Não queria te interromper. Queria de ouvir mais sobre isso.

ZENOVICH: Eu simplesmente não conseguia acreditar na consistência do ódio. Não ódio, mas… vamos lá, as pessoas acham que você é um babaca. E então eu percebi, enquanto fazia o filme, que havia três níveis. Chevy é muito amado e protegido por sua família e amigos. Esse é o Nível 1. O Nível 2 é Hollywood, onde ele tem uma reputação. Ele é incompreendido. O terceiro grupo é formado pelos fãs que não se importam com a reputação. Eles o amam muito, e eu realmente percebi isso quando viajamos com ele em 2023.

Mas quanto mais eu pesquisava, mais aprendia sobre a história do Chevy e o que ele passou quando criança. Não é uma desculpa, mas ajuda a colocar as coisas em perspectiva.

Você participou deste documentário para corrigir informações incorretas ou para explicar por que age de determinada maneira?

CHASE: Não tenho necessidade disso. Toda essa história de me acharem um idiota é besteira. Não me importo muito com isso. Tenho uma vida ótima, uma família maravilhosa.

Você se surpreendeu com alguma coisa no documentário?

ZENOVICH: Você não gostou da parte do Terry Sweeney.

Em meados da década de 80, Chevy Chase conheceu Terry Sweeney, o primeiro membro assumidamente gay do elenco do “SNL”, durante uma temporada como apresentador. Segundo o relato de Sweeney em “Live From New York”, uma história do “SNL”, Chase abordou Sweeney e disse: “Ah, você é o cara gay, né? Tenho uma ideia para um esquete. Que tal dizermos que você tem AIDS e te pesarmos toda semana?” (No documentário, Chase, visivelmente chateado, nega o ocorrido quando questionado sobre o assunto.)

CHASE: Ah, isso me surpreendeu, porque não me lembro de ter feito isso. Não é natural para mim, mas a gente sempre pode ser um babaca de vez em quando. Fiquei com pena do Terry Sweeney quando soube disso. Ele morreu?

ZENOVICH: Você poderia escrever um bilhete para ele.

CHASE: Por que eu escreveria um bilhete para ele?

ZENOVICH: Porque significaria muito.

CHASE: Por que ele se importaria comigo? Eu fui um idiota com ele.

ZENOVICH: Porque isso cura.

CHASE: Ok, vou escrever. [Risos.]

E sobre John Carpenter ter dito que você fez ele querer desistir da carreira? (Em 1992, Chase estrelou e produziu “Memórias de um Homem Invisível”, de John Carpenter , uma experiência que foi difícil para Carpenter.)

CHASE: Eu não sei o que isso significa, mas ele é um cara bem maluco.

Então, isso tem a ver com o comportamento dele, não com o seu?

CHASE: Ele disse que eu era um [palavrão]?

Ele disse que quis desistir da carreira por sua causa

CHASE: Ah, isso é melhor ainda. Se você analisar os filmes, vai ver que eles são de um cara assustado, inseguro. Acho que ele maltratou outras pessoas, e isso não é bom. E eu tento não maltratar outras pessoas, principalmente por ter fama, porque isso faz com que ela se sintiam mal. [Carpenter se recusou a comentar.]

Como você se sente em relação à forma como Marina retratou a situação em “Community”? (Chase participou de 4 temporadas da série “Community”. Foi uma experiência turbulenta, com conflitos frequentes com o produtor executivo Dan Harmon. Durante a produção da quarta temporada, Chase ficou frustrado com o crescente preconceito de seu personagem, em particular com uma esquete em que ele usava um fantoche com o rosto pintado de preto. O documentário relata alegações de que Chase, frustrado, perguntou se seu personagem seria obrigado a usar um termo racista em seguida e, supostamente, proferiu esse termo ao fazer a pergunta. Ele deixou a série abruptamente.)

CHASE: Eles também me odiavam?

CHASE: (risos) Será que ninguém gosta de mim?

Acho que sua família gosta de você.

Por que a sua família se sente tão diferente do resto do mundo?

CHASE: Eu expliquei isso em parte por causa da minha altura e beleza.

Mas existem outros atores altos e bonitos que não são retratados dessa forma.

CHASE: Eles não são tão bonitos. É como o Jon Hamm, que interpretou o “Fletch”. Eu o encontrei em um aeroporto e senti que era minha obrigação perguntar: “Você fez Fletch?”, porque ele fez. E conversei com ele, quase como um fã, porque era disso que ele precisava, então eu estava tentando ser gentil, basicamente. E no final da nossa conversa, ele se levantou e foi embora. (risos) “Preciso pegar meu avião.” Sem abraço, sem aperto de mão. E eu pensando: “O que eu fiz de errado na minha vida?” (risos)

Você tem algo a dizer sobre “Community”? Porque você não fala sobre isso no documentário.

CHASE: Não foi uma experiência ruim. Eu só não achei a série tão boa assim.

Mas você realmente gostava, no começo.

Sua filha (Caley Chase) diz no documentário o quanto você amava o roteiro.

CHASE: Que minha filha vá para o inferno. (risos)

Como você se sente em relação ao final do seu papel?

CHASE: Achei que terminou muito bem.

CHASE: Foi um grande mal-entendido sobre o que eu estava ou não dizendo. Havia pelo menos uma pessoa ou outra que, por algum motivo inexplicável, não me entendeu, não sabia quem eu era ou não percebeu por um segundo que eu não sou racista. Eram muito jovens para me conhecer. Então, houve algum tipo de reação visceral da parte delas.

Marina, o que mais te surpreendeu ao fazer este filme?

ZENOVICH: Eu ainda quero psicoanalisar o Chevy. Me perdoe se eu disser algo que te incomode, mas sinto que você tinha muito potencial, mas por causa da sua mãe e do seu padrasto, eles realmente te prejudicaram.

CHASE: Concordo plenamente. Quando você leva tapas com uma régua na bunda e na parte de trás das pernas até ficarem tão roxas que alguém percebe, aí a coisa muda de figura.

ZENOVICH: Ele se esforçava tanto. Tinha beleza e talento, e tinha uma chance. Tinha uma oportunidade. E aproveitou ao máximo o que pôde, mas acho que recorreu às drogas e à bebida para aliviar a dor.

CHASE: Todo mundo faz isso, em alguma medida — algo para nos ajudar a seguir em frente na vida. Então não é tão ruim assim. Não usamos drogas nem bebemos porque queremos machucar os outros. Na verdade, queremos ser amados por eles. Não vejo (os anos de drogas e álcool) como uma época ruim. Todo mundo fumava maconha. Todo mundo usava LSD. Eu usei uma vez. A cocaína acabou me causando um furo no septo nasal.

Quando você finalmente parou?

CHASE: Vamos ver. Quando me casei com a Jayni (em 1982) eu ainda usava cocaína.

ZENOVICH: Como você escondia isso dela?

CHASE: Não era muito difícil, na verdade. Quer dizer, eu tinha um pacote de cocaína no bolso.

ZENOVICH: Acho que muito do comportamento que as pessoas não gostam vem da época em que você usava drogas e você não se lembra disso.

CHASE: Eu não era lá essas coisas quando bebia e usava drogas?

ZENOVICH: Sua personalidade não era das melhores. Você era talentoso. Como qualquer pessoa, você não sabia como estava se comportando. Então, muitas das perguntas que me fizeram durante esse período foram sobre: ​​Como ele mantinha um trabalho?

CHASE: Essa é uma pegadinha, não é? Eu nunca tinha pensado nisso, então não sei dizer como eu consegui.

Você acha que sabotou sua carreira?

CHASE: Não acho que sabotei minha carreira. Acho que a gente tem altos e baixos, altos e baixos, altos e baixos. A gente comete erros. A gente comete erros. A gente não comete tantos erros assim. A gente aprende algo, e aí chega onde eu estou agora, onde acho que nada disso importa mais. Tudo o que importa é como eu me relaciono com as pessoas pelo resto da minha vida.

Você se sente em paz agora?

CHASE: Não sei dizer o quanto.

CHASE: Não! Eu ainda tenho crises de ansiedade. Tive uma hoje de manhã, mas isso foi em parte porque eu sabia que você e outras pessoas viriam. Você não imagina quantas vezes eu assoei o nariz e quantos lenços de papel foram usados ​​antes de eu chegar aqui.

Você quer falar sobre o especial de 50 anos do “SNL”? (Em 2025, o “Saturday Night Live” celebrou o 50º aniversário de sua temporada de estreia — a única temporada de Chase no elenco. Chase foi convidado para o especial de aniversário em fevereiro e apareceu no palco para a despedida do grupo. Mas, ao contrário dos outros membros vivos do elenco original, ele não foi convidado para se apresentar. Bill Murray, que substituiu Chase em 1977 — e se envolveu em uma briga nos bastidores com ele quando Chase voltou ao programa em 1978 — se apresentou. Ele zombou de Chase durante um segmento do “Weekend Update”, uma esquete co-criada por Chase.)

CHASE: Eles me odeiam também?

Fica claro no documentário que você ficou realmente chateado com a forma como foi tratado.

CHASE: Lorne (Lorne Michaels, o criador do programa) nunca me respondeu sobre isso. Mandei uma mensagem bem longa para ele sobre como me sentia. “Como você pôde me magoar assim?” Era o que eu sentia. Nunca recebi uma resposta. Eu adoro aquele cara. Acho que ele não fez por mal, mas doeu. Eu me colocaria no mesmo patamar que o Bill Murray. O Murray entrou para me substituir. Mas eu não sou substituível. Ele é o Bill Murray. Ele é ótimo. Ninguém pode me substituir.

No documentário, você se descreve como uma “criança raivosa”. Por que você sente raiva?

CHASE: Sinto raiva do que herdei dos meus pais. Sinto raiva por ter que passar por isso e continuar passando por isso todos os dias da minha vida, de alguma forma.

CHASE: Não, não passa. Eu não penso na parte física disso, mas é tudo uma mistura de medo. A maioria dos comediantes, eu acho, vem do medo.

CHASE: Claro. Foi inútil, na verdade. Fiz duas que achei boas, mas não por muito tempo. Depois de um tempo, foi tipo: “OK, chega”.

Marina, alguém que você tentou entrevistar para o documentário se recusou a falar?

CHASE: Bem, os que você conseguiu entrevistar foram preciosos para mim. Quer dizer, Goldie (Goldie Hawn, sua colega de elenco no filme “Jogo Sujo” de 1978).

ZENOVICH: Não, Christopher Guest. (Guest e Chase trabalharam juntos pela primeira vez no espetáculo teatral “National Lampoon: Lemmings”, de 1973, um spin-off da revista de humor que também trazia John Belushi.)

CHASE: Não guardo rancor do Chris nem por um segundo. É que ele é inteligente o suficiente para se manter afastado, tem a própria vida e está fazendo os próprios filmes.

Não falo muito com ele. Mas de vez em quando, ligo e deixo uma mensagem engraçada, e só. Ele não responde, aliás.