Urgência geral do Hospital Amadora-Sintra funcionou, durante várias horas na madrugada do dia 3, apenas com um médico escalado para a área ambulatória, “uma situação de extrema gravidade” que levou à demissão da chefe e da subchefe da equipa, denuncia o Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS). Ministra reconhece situação “muito crítica” nos hospitais e não antecipa melhorias nos tempos de espera nas urgências esta semana.
Na noite de 2 para 3 de janeiro, a urgência geral do Hospital Amadora-Sintra funcionou, durante várias horas, apenas com um médico escalado para a área ambulatória, “uma situação de extrema gravidade” que levou à demissão da chefe e subchefe da equipa, denuncia o Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS) e a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) em comunicado.
O episódio, ocorrido numa altura de grande pressão nas urgências, “colocou em causa a segurança dos doentes, médicos e profissionais de saúde”, apontam as estruturas sindicais, considerando a equipa escalada para aquela noite “manifestamente insuficiente para a dimensão da afluência e da gravidade clínica existentes”.
“Até à meia noite de 2 de janeiro a escala incluía um chefe de equipa, quatro médicos no serviço de observação e dois médicos na área ambulatória. A partir dessa hora e até às 8h00 de 3 de janeiro, permaneceu apenas um médico para todos os doentes da área ambulatória, uma situação absolutamente inaceitável do ponto de vista clínico e organizacional”, critica-se.
Nessa noite, acrescentam, encontravam-se 179 doentes em circulação na urgência, com mais de 60 doentes internados no serviço de observação, e os tempos de espera atingiam “níveis inaceitáveis” – “os doentes triados como laranja aguardavam mais de 6 horas pela primeira observação médica e os doentes amarelos ultrapassavam as 20 horas de espera, numa situação claramente incompatível com cuidados de saúde seguros e atempados.”
O SZMS e a FNAM acrescentam que o conselho de administração da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra tinha conhecimento da realidade descrita, concluindo, assim, que “não se tratou de uma falha imprevista”, mas sim da escala “previamente definida, sem que tenha sido tomada qualquer medida para prevenir ou corrigir uma situação anunciada, mesmo num contexto de pico sazonal da gripe”.
Para os sindicatos, “esta inação traduz uma grave incapacidade de gestão e um desrespeito pelos profissionais e pelos utentes”, tendo sido a “gravidade e repetição” deste tipo de situações a ditar a demissão das duas responsáveis da equipa de urgência geral, numa decisão “que reflete o limite ético e profissional atingido”.
Queixando-se de “abandono político”, as duas estruturas apontam responsabilidades ao conselho de administração do hospital pela sua “incompetência” na resolução do problema, mas lembra que esta administração está demissionária desde o início de novembro último. E não tendo ainda sido substituída, na prática, a tutela deixa “uma das maiores unidades hospitalares do país sem liderança efetiva”.
Paralelamente, criticam também, o Governo e a ministra “têm optado por manter as urgências hospitalares sem capacidade de resposta, falhando na adoção de medidas eficazes de fixação de médicos no SNS”. No caso concreto do Amadora Sintra, o anúncio de reforço das equipas pela Comissão Executiva do SNS “também não parece produzir efeitos visíveis”.
Há um mês, trinta médicos da urgência geral do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora–Sintra) enviaram uma carta à Ordem dos Médicos denunciando escalas médicas deficitárias, que não cumprem os rácios de segurança definidos. Uma situação que, de acordo com o Sindicato dos Médicos da Zona Sul, tem sido “recorrente” e “tem motivado o envio de muitas escusas de responsabilidade”.
Situação “muito crítica” nos hospitais
Esta segunda-feira, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que a situação nos hospitais é “muito crítica”, prevendo que a situação nas urgências não deverá melhorar no decorrer desta semana.
“Esta semana é uma situação que é muito crítica, porque é o final das festas e das férias e das tolerâncias de ponto. Se, por um lado, vamos ter os nossos profissionais que estavam de férias a voltar, por outro lado também temos muito mais doentes, a verdade é esta, nomeadamente em algumas regiões do país, a entrar nas nossas urgências”, explicou, em declarações aos jornalistas.
A governante não espera que os tempos de espera nas urgências “possam melhorar significativamente”, durante esta semana, concretamente nos hospitais Amadora-Sintra, Beatriz Ângelo (Loures) e, em Lisboa “o próprio Santa Maria, que está também com muitas dificuldades”.
Ana Paula Martins vincou que Portugal está “ainda, no meio de uma epidemia de gripe”, num inverno mais severo do que o do ano passado e com vírus mais agressivos em circulação, embora ainda não haja dados concretos sobre se o pico da doença já foi atingido este ano.
“Os nossos virologistas dizem que, possivelmente, estamos mesmo a atingir o pico, mas só saberemos daqui a mais alguns dias, se começarmos a ver o número de infeções, através da rede Sentinela, a baixar”, explicou a ministra.