O tráfego aéreo no principal aeroporto da ilha de Socotorá, localizada a mais de 300 quilómetros do território continental do Iémen, mas até ao final de 2025 sob influência dos Emirados Árabes Unidos, foi interrompido e centenas de turistas ainda não sabem quando poderão regressar a casa. A agência Reuters fala em cerca de 600 pessoas, enquanto a AFP contabiliza mais de 400 turistas nesta situação.
“Ninguém tem qualquer informação e todos só querem voltar às suas vidas normais”, lamenta Aurelija Krikstaponiene, turista da Lituânia, que viajou para Socotorá na véspera do Ano Novo, em declarações à agência de notícias. Deveria ter regressado a Abu Dhabi no domingo, mas agora poderá ter que fazer escala em Jeddah, na Arábia Saudita, à medida que o controlo dos Emirados sobre a ilha diminui.
“Temos uma quantidade limitada de dinheiro, que para a maioria das pessoas dará apenas para dois ou três dias”, alerta Maciej, um turista polaco que faz parte de um grupo de 100 pessoas, à Reuters. “Não há terminais de pagamento nem caixas de multibanco aqui, e as transferências bancárias também não funcionam. Tudo depende de dinheiro”, acrescenta, afirmando não ter sido avisado sobre a probabilidade de conflitos [devido à guerra civil] quando reservou a viagem.
De acordo com a AFP, os turistas poderão começar a deixar a ilha nesta quarta-feira, em voos da Yemenia Airways para a cidade de Aden e, posteriormente, para Jeddah, na Arábia Saudita, segundo fonte anónima. Os bilhetes custam 700 dólares (quase 600 euros), especifica a embaixada russa no Iémen numa publicação no Facebook. “Estão previstos voos regulares para o futuro, mas, por enquanto, não estão disponíveis informações precisas”, acrescenta. Entre os turistas retidos na ilha estarão cerca de 60 pessoas de nacionalidade russa.
Apesar de fazer parte do território do Iémen, o controlo efectivo da remota Socotorá, principal ilha do arquipélago homónimo, Património Mundial da UNESCO, passou para as mãos dos Emirados Árabes Unidos em 2018, quando aviões militares daquela potência do Golfo aterraram pela primeira vez na ilha, com tanques e tropas, numa acção integrada na estratégia dos Emirados Árabes Unidos para estender a sua influência sobre a região.
“Socotorá funciona como um porta-aviões inafundável situado no coração do sistema Bab al-Mandab, no meio do corredor comercial que liga Europa, Ásia e África”, aponta Andreas Krieg, professor associado do King’s College London, à agência Reuters. “Mesmo sem disparar um tiro, um actor com acesso fiável à ilha obtém uma importante vantagem: observar, potencialmente interceptar e projectar influência.”
A manobra dos Emirados Árabes Unidos não foi bem recebida pelo governo iemenita, apoiado pela Arábia Saudita na sangrenta guerra civil que assola o país há mais de uma década, mas Abu Dhabi acabou por manter-se em Socotorá através do apoio ao Conselho de Transição do Sul, o grupo separatista que ainda controla a ilha e que, nas últimas semanas, lançou uma ofensiva contra as forças governamentais no Iémen continental, provocando uma resposta por parte do Governo iemenita e da Arábia Saudita.
Com o escalar da crise entre as duas facções, as tropas dos Emirados Árabes Unidos terão deixado o Iémen, e Socotorá, no final de 2025, cumprindo o prazo imposto pela Arábia Saudita, e já não controlam o aeroporto da ilha, que se mantém encerrado desde então, de acordo com duas fontes aeroportuárias ouvidas pela Reuters. Entretanto, na noite desta segunda-feira, a companhia aérea de bandeira do Iémen anunciou o voo para Jeddah, num sinal claro que o aeroporto terá mudado de mãos.
“Numa ilha onde o acesso aéreo se torna muitas vezes a porta de entrada decisiva, a influência sobre a conectividade traduz-se em influência sobre tudo o resto, incluindo a presença de segurança, a governação local e a vida comercial”, aponta Krieg.
Até aqui, a ilha era acessível sobretudo por via aérea através dos Emirados Árabes Unidos, que tinham apostado na renovação e ampliação do aeroporto principal de Socotorá, entre outros projectos de infra-estruturas. A ilha tornou-se destino turístico de nicho, onde os viajantes em busca de locais fora dos roteiros tradicionais podiam reservar pacotes exclusivamente através de Abu Dhabi e conhecer as praias paradisíacas, vida selvagem e flora singular, como o afamado dragoeiro, espécie nativa de Socotorá.
Apesar da incerteza, Bianca Cus diz querer aproveitar o destino turístico até que chegue um voo. “Estou a aproveitar cada dia na ilha, tal como fazia antes de descobrirmos que ficaríamos mais tempo”, reage a turista romena à Reuters.