A tese dos ovos e dos cestos versa sobre a vantagem em não ter os altos cargos políticos todos concentrados na mesma cor política. Mas esta segunda-feira, António José Seguro juntou um novo ovo ao cesto para encenar um risco ainda maior: o da extrema direita ganhar peso e com isso uma influência decisiva na agenda do PSD. E é aqui que entra a possibilidade de uma revisão constitucional exclusivamente à direita, a mais recente assombração deste candidato presidencial.

Começou ao almoço, no mercado da Vidigueira, e galgou uns níveis ao fim do dia, no comício no auditório do museu de Portimão. Com muita da estrutura socialista no terreno (diretores de campanha, mas também autarcas e dirigentes socialistas locais), o candidato assegura a mobilização necessária para compor as audiências e começar a afunilar a mensagem. O drama eleitoral que traz é antigo (e já trouxe frutos aos socialistas, basta recordar a maioria absoluta de 2022), passa por encostar o Chega ao PSD, na amalgama possível para concentrar a esquerda e tentar alargar ao centro moderado.

“Não estou seguro — desta vez não estou — de que não haja forças que não queiram adulterar a Constituição”. É a frase que esta noite deu corpo ao drama, que ao almoço já tinha sido usado pelo mesmo Seguro quando disse que o problema dos ovos todos no mesmo cesto “não é o PSD, mas o outro partido extremista que está a colonizar com as suas ideais e propostas essa mesma direita”.

Nunca refere o Chega pelo nome, mas a dada altura do discurso ainda fez um trocadilho com o nome do seu líder quando disse que um voto em si “não é em aventuras nem em Venturas. É um voto na certeza de alguém leal à Constituição”. Certo é que o líder da direita radical esteve em grande parte do seu discurso e foi até usado quando o socialista fez o repetido apelo ao voto útil da esquerda. Também neste cesto enfiou o ovo Chega, para contrariar o que disse o líder do PSD Luís Montenegro.

No fim de semana, Montenegro defendeu que votar em Seguro “não garante a possibilidade de se evitar que haja em Portugal uma segunda volta de umas eleições presidenciais onde possam estar simultaneamente dois populistas”. O socialista evitou reagir diretamente, durante a tarde numa arruada em Loulé, mas acabou por dar-lhe uma resposta indireta à noite, quando disse que é o voto nos candidatos a sua esquerda que pode dar gás aos extremismos.

“Há candidatos que não têm hipótese de passar à segunda volta” e um voto neles “pode contar para o campo político que vamos combater”, começou por dizer, para logo a seguir completar: “Acaba por ser meio voto, não ajuda o candidato da esquerda que está em condições de passar à segunda volta.”

Sobre a sua candidatura, o socialista vai garantindo que é “a única do centro esquerda que pode passar à segunda volta” e aquela em que “o voto conta para equilibrar o sistema político”.  Ainda assim, garante que se for eleito, a maioria que o permitir “vai extinguir-se no momento da eleição”, ou seja, e parafraseando Soares: “Ambiciono ser o Presidente de todos os portugueses”.