Um registro de vida quase apagado pelo tempo vai ganhar uma merecida luz para reavivar sua imagem. A pesquisadora, artista plástica, editora e professora Angela Almeida retoma a história de Helena Coelho Ferreira (1897-2001) em “Uma fotógrafa no sertão do século XX”, tida como a primeira mulher a atuar como fotógrafa profissional no Rio Grande do Norte. O material foi elaborado em forma de plaquete – um tipo de livro curto com produção artesanal – que, ainda em janeiro, estará disponível em algumas livrarias e sebos da cidade.

Segundo Angela, além de expor a história de uma personagem importante que está praticamente esquecida, a obra também tem a intenção de, futuramente, ajuda-la a mapear o que pode ter ficado de acervo da fotógrafa em álbuns de família do interior potiguar, chamando a atenção para familiares que possam ter, ainda hoje, fotos assinadas por Helena Coelho, e tenham interesse em ceder.

A plaquete, ilustrada e escrita por Angela, conta a trajetória de Helena Coelho Ferreira, nascida na Bahia em 1897, mas levada para o Rio Grande do Norte aos três anos de idade, após a morte da mãe. A baiana foi morar com os avós paternos em Açu. O pai, que era fotógrafo itinerante, introduz a filha às suas técnicas fotográficas em passagens temporárias pela cidade potiguar. Eventualmente, ela se torna assistente do pai.

Angela espera que livro a ajude a mapear acervo de Helena Coelho | Foto: Júnior Santos_Arquivo TN

Até que em 1924, Helena se muda com a família para Currais Novos. Em um nova cidade e com uma nova vida à frente, ela decide adotar de vez a profissão do pai – que a essa altura já havia falecido. “Assim, no começo do século XX, nasce a primeira mulher fotógrafa no exercício profissional no RN”, escreveu Angela. Segundo ela, não há registro de nenhuma outra mulher nessa função no estado, nessa mesma época. Foram mais de 40 anos nessa profissão.

Angela recorreu a parentes de Helena para obter informações, lembranças e descrições da fotógrafa. Ela não deixou herdeiros. As fotografias profissionais de Helena foram, em grande parte, produzidas em Currais Novos, entre os anos de 1930 e 1960. Segundo a autora, a maioria das fotos que ela teve acesso mostravam apenas encontros da família de Helena, já que as demais estão espalhadas pelos álbuns particulares de sua clientela da época. Além de Currais, ela também fez trabalhos sob encomenda em Cerro Corá.

A partir do que viu do trabalho de Helena, Angela Almeida observou que havia um estilo próprio, na forma como ela escolhia os enquadramentos. “Ela foi uma fotógrafa de registro, como grande parte que atuava em estúdio e mercado. Suas fotos se enquadram na singularidade dos registros técnicos. Todavia, seus retratos nos passam semblantes plácidos, como se não houvesse pressa, talvez o próprio ritmo da fotógrafa”, escreveu.

A pesquisadora ressaltou que as lentes de Helena passaram longe dos estereótipos do sertão. “Seus olhos estavam atentos a outras pessoas e outras paisagens ao redor”, disse. Após a década de 60, Helena se retirou voluntariamente do segmento. Quando veio morar em Natal, na década de 70, ela já não fotograva mais profissionalmente.

A ex-fotógrafa passou a cuidar dos afazeres da família, em sua casa no Tirol, cuidando de compras e pagamentos. Consta que percorria os bairros da Ribeira, Cidade Alta e Alecrim a pé para realizar essas funções. Morreu tranquilamente em casa, aos 104 anos, no dia 09 de julho de 2001. “O movimento silencioso de sua obra foi levado para o campo da invisibilidade, fazendo com que hoje pouco habitantes de Currais Novos tenham conhecimento dela”, ressaltou.

É a segunda vez que Angela Almeida traz à tona vida e obra de um fotógrafo potiguar esquecido pelo tempo. O primeiro foi José Ezelino, um filho de escravizados nascido em Caicó, que se tornou o primeiro fotógrafo negro do RN, no livro “Quando a pele incendeia a memória”, de 2017 – que também se tornou uma bela exposição. Por ocasião do novo trabalho, Angela também questionou sobre a invisibilidade de Helena Coelho: “Seria por ser mulher?”.