O “Dr. Google” ganhou um concorrente de peso e, ao que parece, muito mais falador. Segundo dados revelados num novo relatório da OpenAI, o ChatGPT está a tornar-se a primeira linha de apoio para uma quantidade impressionante de pessoas em busca de respostas sobre saúde. A empresa afirma que, dos 800 milhões de utilizadores regulares da plataforma, cerca de 40 milhões recorrem ao chatbot diariamente para colocar questões médicas. Numa escala semanal, este número dispara para os 200 milhões de utilizadores.

A análise aos dados anónimos das conversas mostra que mais de metade destas interacções serve para verificar ou explorar sintomas. No entanto, a utilidade da ferramenta não se fica pelo autodiagnóstico. Muitos utilizadores procuram “traduzir” o complexo calão médico para uma linguagem que consigam compreender ou obter detalhes sobre opções de tratamento.

Há, ainda, quase dois milhões de mensagens semanais focadas na burocracia, pedindo ajuda à inteligência artificial para comparar planos de seguro de saúde ou gerir reclamações e facturas, uma realidade muito específica do complexo sistema norte-americano.


Preencher as falhas do sistema

Estes números não surgem por acaso. O relatório da OpenAI sugere que o uso intensivo da ferramenta é um reflexo directo das fragilidades do sistema de saúde nos Estados Unidos, onde os custos elevados são uma barreira constante. A própria empresa notou que três em cada cinco norte-americanos consideram o sistema actual “estragado”, apontando os custos hospitalares como a principal dor de cabeça.

Curiosamente, a tecnologia parece estar a cobrir horários e locais onde os médicos humanos não chegam. O estudo indica que sete em cada dez conversas sobre saúde acontecem fora do horário normal de funcionamento das clínicas. Além disso, uma média superior a 580 mil consultas digitais tem origem nos chamados “desertos hospitalares” — zonas nos Estados Unidos que ficam a mais de 30 minutos de carro de um hospital geral ou pediátrico.

Mas não são apenas os pacientes que estão a aderir à tecnologia. O relatório cita dados da associação médica americana para referir que 46 por cento dos enfermeiros nos EUA já utilizam inteligência artificial semanalmente no exercício das funções. É um sinal claro de que a adopção destas ferramentas está a crescer em ambos os lados do estetoscópio. A OpenAI está a apostar forte neste sector, com Fidji Simo, executiva da empresa, a declarar-se entusiasmada com os avanços que a IA poderá gerar na saúde.

O risco das alucinações

Apesar do entusiasmo das tecnológicas, convém manter os pés assentes na terra e lembrar que os grandes modelos de linguagem têm um defeito conhecido: as “alucinações”. Em linguagem corrente, isto significa que o chatbot pode inventar factos com total confiança. Se num trabalho escolar isso é um problema, na saúde pode ser uma questão de vida ou de morte.

Os riscos não são teóricos. Em Agosto de 2025 soube-se que um homem de 60 anos, sem historial psiquiátrico ou médico relevante, acabou hospitalizado com envenenamento por brometo. O motivo? Seguiu uma recomendação do ChatGPT para tomar um suplemento específico. Este exemplo serve de aviso sério: a tecnologia, no estado actual, não deve ser usada para autodiagnóstico ou tratamento sem supervisão profissional.