O antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva diz-se “chocado” com a forma como o nome de Francisco Sá Carneiro tem sido invocado por vários candidatos às eleições presidenciais, considerando que existe uma tentativa de “apropriação” do seu legado político por figuras que representam projectos opostos ao do fundador do PSD.
Num texto de opinião divulgado no jornal Observador esta terça-feira, Cavaco Silva refere explicitamente André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo, defendendo que estes candidatos estão, “no plano ético, político, social e económico, quase nas antípodas daquilo que Francisco Sá Carneiro defendia”.
Recordando o período em que integrou o Governo liderado por Sá Carneiro como ministro das Finanças e do Plano, Cavaco Silva sublinha que o antigo primeiro-ministro era “um defensor da social-democracia moderna”, descrevendo-o como “um humanista, homem de princípios firmes”, distante “tanto do socialismo de Estado, como de uma sociedade dominada pela sacralização do mercado em nome da eficácia”.
Segundo o antigo chefe de Estado, Sá Carneiro pretendia construir em Portugal “uma democracia de tipo ocidental em que vigorasse o primado da dignidade e afirmação da pessoa humana, a solidariedade e a justiça social”. O desenvolvimento equilibrado do país e “o combate à pobreza” são apontados por Cavaco Silva como “dois dos seus grandes propósitos”.
No mesmo texto, Cavaco Silva lembra ainda que o fundador do PSD governou durante apenas onze meses, sublinhando que, “em virtude da sua trágica morte há 45 anos”, não teve tempo para concretizar “o seu projecto de desenvolvimento social e de reformas para a modernização do país e para a melhoria das condições de vida dos portugueses”.
É neste contexto que o antigo Presidente da República considera “intolerável” que, durante a actual campanha eleitoral, se procure “reescrever a história de um político de excepcional craveira”, alegadamente com o objectivo de atacar a candidatura de Luís Marques Mendes. Cavaco Silva sublinha ter tido “o privilégio de acompanhar de perto” a acção de Francisco Sá Carneiro enquanto primeiro-ministro, defendendo que o seu legado político não deve ser instrumentalizado no debate eleitoral.
Cavaco Silva declarou apoio a Luís Marques Mendes em Novembro, justificando a escolha com a “experiência política” e o “bom senso” do antigo ministro.