O fato de treino Nike usado por Nicolás Maduro não é a única peça de moda a concentrar e agitar atenções por estes dias. Depois de um momento viral envolvendo a chegada do Presidente da Venezuela aos EUA, onde aguardará julgamento, também a escolha de Delcy Rodríguez tem dado que falar. Para o dia em que foi empossada como Presidente interina do país, a advogada de 56 anos leal ao partido no poder elegeu um vestido verde num valor que dificilmente passaria despercebido, e imune ao escrutínio, num contexto de profunda crise económica e de tensão máxima. Para a ocasião, naquela que foi a primeira presença na Assembleia Nacional, Rodríguez surgiu com um look da marca italiana Chiara Boni, sendo possível encontrar um modelo idêntico na plataforma multimarca de luxo Farfetch, por um preço de saldo que mesmo assim se situa muito além do salário mínimo no país: o Le Petite Robe custava 665 euros e situa-se agora nos 547 euros. Bom, a não ser que seja uma imitação, já que abundam versões similares associadas à marca online.
Uma imagem de glamour e despesismo associados à cúpula chavista que, apontam os críticos, em tudo destoa da realidade económica da maioria dos venezuelanos. A escolha não se livrou no entanto da desinformação. Os primeiros laivos da controvérsia baseavam-se num valor ainda mais exorbitante, que no fim de contas não corresponde à verdade. Pelas redes sociais ainda é possível, contudo, encontrar vestígios de um vestido que supostamente ascendia aos 12 mil euros. Em solo latino-americano, um dos portais de eleição para a compra de peças de designers internacionais premium é o Porta Romana, onde é possível encontrar várias criações Chiara Boni. Mas segundo o site Cachicha, o vestido de Rodríguez terá sido adquirido na República Dominicana.
O dado mais precioso desta história talvez ainda esteja por referir. Em janeiro de 2020, estreva-se o filme Bobshell, o filme de Jay Roach que se centra nas acusações de assédio sexual no canal norte-americano Fox News, predileto de Donald Trump. Ao The Guardian, que analisava o guarda-roupa da longa-metragem e a estética muito própria das pivots da estação algumas das caras do canal contavam como a cadeia oferecia roupas como parte da sua mesada anual, de marcas como Diane von Fürstenberg, Milly, Chiara Boni e Karen Millen, pontas de lança na composição de uma imagem muito particular. “A mulher Fox News é profissional, sexy e a assistente do concurso”, descrevia então a apresentadora Courtney Friel. Os penteados louros, quase idênticos, combinados com vestidos curtos e estruturados pelas âncoras femininas do canal, são um eixo central de Bombshell.
Não é preciso passar pelo cinema para conferir a popularidade da marca criada por Chiara Boni, a designer florentina de 77 anos, fixada em Milão, que se estreou na moda em 1971. Para o Washington Post, em julho de 2020, a analista e vencedora de um Pulitzer Robin Ghivan frisava esse vínculo trumpiano à etiqueta. “Chiara Boni La Petite Robe pode ser melhor descrito como eficazmente feminino e abundantemente vestível, que é uma combinação rara na moda. Os vestidos, que viajam com facilidade, têm sido abraçados por apresentadoras de notícias e celebridades, mas eles são praticamente um uniforme entre impulsionadores Trump, que tendem a usá-los como armadura telegénica, com saltos altos imponentes e aprumo impecável.” Ghivan ia mais longe, notando como a marca em questão também não perdeu tempo a negar a ligação à entourage de Trump ou sequer a ignorá-la: pelo contrário, abraçou a realidade com entusiasmo nas redes sociais, sem temer implicações nas vendas ou polémica gratuita.
Robin descrevia ainda no mesmo artigo como a marca Chiara Boni ficava em evidência também graças a nomes como Anthony Vecchione, dono do showroom de vendas da etiqueta italiana em Nova York. “Ele é amigo de muitas das mulheres de alto nível que habitam Trump-ville — Jeanine Pirro, Lara Trump, Kimberly Guilfoyle — e regularmente posta fotos ao lado delas para evidenciar a marca que representa.” E poderíamos acrescentar Ivanka Trump e Tiffany Trump à carteira de clientes.
Em 2018, a revista de moda WWD escrevia sobre os convidados ilustres da primeira fila no desfile Chiara Boni La Petite Robe, que segundo aquela publicação “serviu de exemplo para uma visão privilegiada do funcionamento interno da Casa Branca”. Entre as caras conhecidas lá estava a nora do Presidente, Lara Trump, com um jumpsuit de ombro a descoberto e os seus inseparáveis Christian Louboutin. Na primeira tomada de posse de Trump, em janeiro de 2017, Lara voltava a confiar na marca.
Pelo conforto, praticalidade, e silhuetas que estilizam, a marca é preferida de figuras femininas de diferentes quadrantes, de Cindy Crawford a Emily Ratajkowski, de Paris Hilton a Lisa Vanderpump, de Niecy Nash a Oprah Winfrey. “A vida é tão complicada. Tento torná-la um pouco mais simples”, chegou a dizer Boni num artigo de 2017, talvez não imaginando a complexidade de decisões como esta que aqui nos traz.
Em janeiro de 2021, volvido o primeiro mandato de Trump (e único, acreditava o The New York Times) Vanessa Friedman sentenciou “o fim da estética de Trump”. “Eram encarnações das ideias do presidente sobre normas de género ultrapassadas e o que significava “vestir-se como uma mulher” — e como um homem, aliás — combinando vestidos envelope em tons vermelhos, brancos e azuis Chiara Boni,e pestanas falsas a bater contra suas bochechas”, sublinhava a especialista em Moda e estilo. Mas havia havia outro. Outro mandato. E ao segundo ensaio na presidência, o guarda-roupa Chiara “Trump” Boni até já hasteou uma bandeira em Caracas.