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O novo chanceler da Alemanha, Friedrich Merz
O antigo presidente russo Dmitry Medvedev diz ser possível imaginar operações de rapto contra outros líderes mundiais, semelhantes à detenção de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos na Venezuela, apontando o chanceler alemão Friedrich Merz como um dos alvos potenciais.
O ataque dos EUA deste sábado a Caracas e subsequente detenção de Nicolás Maduro, presidente em exercício, mesmo que ilegítimo, de um país soberano e independente, abriu, como seria de esperar, uma Caixa de Pandora.
Uma das primeiras vozes a clarificar que essa caixa está escancarada foi a do antigo presidente russo Dmitry Medvedev, que considerou este domingo ser imaginável, num mundo pós-Caracas, que a Rússia entrasse em Berlim para raptar o chanceler alemão, Friedrich Merz.
“O rapto do neo-nazi Merz seria uma reviravolta interessante neste carnaval de acontecimentos”, declarou Medvedev, atualmente vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, citado pela agência estatal TASS.
Medvedev acrescentou ainda que tal cenário não era irrealista. “Há até fundamentos para o processar na Alemanha, pelo que não seria grande perda, sobretudo tendo em conta que os cidadãos estão a sofrer desnecessariamente”, afirmou.
Medvedev, que foi presidente da Rússia entre 2008 e 2012, tornou-se, nos últimos anos, uma das vozes mais radicais do Kremlin, com frequentes ataques retóricos agressivos contra a Ucrânia e o Ocidente.
O ex-presidente russo questionou ainda as alegações do governo Trump, segundo as quais Maduro seria um presidente ilegítimo — alegações que, diz Medvedev, não resistiam a qualquer análise.
E, aproveitando uma vez mais o embalo do ataque norte-americano a Caracas, Medvedev dirigiu-se a Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, salientando que o seu mandato já expirou há muito.
Moscovo tem sustentado que Zelensky é um líder ilegítimo devido à ausência de eleições. No entanto, Zelensky mantém-se em funções ao abrigo da constituição ucraniana, que permite a extensão do mandato presidencial em tempo de guerra.
Mas o que impede então agora a Rússia de, seguindo o exemplo dos EUA, e usando os mesmos argumentos subjetivos de Donald Trump, atacar Berlim e raptar Friedrich Merz?
Provavelmente, apenas uma coisa: ao contrário da Venezuela, cujo poderio militar é desproporcionadamente inferior ao dos EUA, a Alemanha não está propriamente indefesa; tem um exército poderoso e faz parte da NATO, que provavelmente, se ainda existir, não assistirá de braços cruzados a um ataque contra um país membro.
Na narrativa com que justificou o ataque à Venezuela e a detenção de Maduro, Trump apresentou três argumentos: a auto-defesa contra um “narco-estado” que ameaçava a segurança dos norte-americanos, a “libertação do povo venezuelano” de um ditador sanguinário, e, de forma muito transparente, a “recuperação do petróleo que o regime socialista roubou” aos EUA, “como se fossem bebés”.
Nicolás Maduro é um ditador, um presidente ilegítimo que falseou os resultados eleitorais da últimas presidenciais, que se manteve no poder em 2017 depois de o Supremo venezuelano ter anulado um ato eleitoral para o Parlamento que tinha dado maioria qualificada à oposição, e ter assumido as funções do Congresso.
No sábado, o Mundo livrou-se de um ditador. Segundo Donald Trump, outros ditadores, em Cuba e na Colômbia, têm agora “razões para se preocupar”. Mas, estranhamente, não há qualquer indício de que Trump esteja igualmente determinado a livrar o planeta dos ditadores que realmente importam.
O que impede então os EUA de “intervirem” na Rússia, na China, na Coreia do Norte, para “libertarem” os russos, os chineses, os norte-coreanos, e nos livrarem a todos dos ditadores Vladimir Putin, Xi Jinping e Kim Jong-un? Provavelmente, uma vez mais, apenas uma coisa: ao contrário da Venezuela, os três países não estão propriamente indefesos.
No dia em que se livrou do ditador de um país, o Mundo assistiu na poltrona à entronização de um ditador à escala global, que ignora o Direito Internacional e apenas respeita a Lei do Mais Forte — contra os fracos.
Nesse dia, o Mundo assistiu também à legitimação da invasão da Ucrânia pela Rússia, sob o falso pretexto de “libertar os cidadãos russos” dos neo-nazis ucranianos, e da agora mais do que provável anexação de Taiwan pela China. E, ao mesmo tempo, ao preâmbulo de um Tratado de Tordesilhas a três no século XXI.
E os chefes de estado de todo o Mundo que, aplaudindo ou não o fim do regime sanguinário de Maduro, não consideraram o ataque à Venezuela uma violação do Direito Internacional, não perceberam que passaram a ser alvos legítimos de qualquer ditador que tenham incomodado ou enervado.
Afinal, porque não?