A rotineira repressão de qualquer tipo de dissidência na Venezuela já tinha apertado após as eleições de julho de 2024. Um relatório da Human Rights Watch, publicado no ano passado, documenta as violações de direitos humanos cometidas contra manifestantes, dirigentes da oposição e críticos durante os protestos e nos meses seguintes. O relatório vincula as autoridades venezuelanas e grupos armados partidários do Governo, conhecidos como “colectivos”, com abusos generalizados de direitos humanos, que incluem assassínios, desaparecimentos forçados, detenções e processos penais arbitrários contra adolescentes, torturas e maus-tratos a pessoas detidas.
Nos últimos dias, a situação voltou a piorar, segundo relatos de alguns cidadãos ao jornal “Financial Times”. A mobilização das forças paramilitares em defesa da Presidente interina, Delcy Rodríguez, ordenada pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino, está a conseguir suprimir qualquer demonstração de apoio à remoção do líder autoritário.
Muitos analistas têm considerado que as ações dos Estados Unidos são contra a lei internacional, mas venezuelanos na diáspora não têm deixado de expressar a sua felicidade pela remoção de Nicolás Maduro da presidência – algo que não é possível neste momento na Venezuela, até porque o Governo madurista não caiu. Os seus principais apoiantes estão na liderança do país, ainda que Donald Trump garanta que são os Estados Unidos ao comando.
Paramilitares armados conhecidos como “colectivos” também foram convocados para as ruas de Caracas, quando está em vigor um estado de emergência. Operam sob a alçada do ministro do Interior, Diosdado Cabello, membro do núcleo de Maduro.
Sindicatos dos meios de comunicação social dizem que 14 jornalistas e trabalhadores da comunicação – 11 deles de meios de comunicação estrangeiros – estiveram detidos durante horas antes de serem libertados. A rede de televisão colombiana Caracol disse que um dos seus repórteres, Carlos Barragán, e a sua equipa tinham sido “detidos por funcionários da direção-geral de contrainteligência militar da Venezuela” e que foram interrogados durante horas.
A maioria das detenções de jornalistas ocorreu, conta o “Financial Times”, perto do edifício da Assembleia Nacional quando Rodríguez tomou posse formalmente, segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores de Imprensa da Venezuela. O decreto de estado de emergência, datado de 3 de janeiro, ordena às autoridades que “imediatamente empreendam a busca e detenção de qualquer pessoa envolvida na promoção ou apoio ao ataque armado pelos Estados Unidos contra o território da República”.
Nicolás Maduro e a sua mulher, Cilia Flores, algemados e escoltados por agentes federais enquanto se dirigem para um tribunal federal em Manhattan
XNY/Star Max
A porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani, disse na terça-feira estar “profundamente preocupada com a situação na Venezuela” e que o estado de emergência “levanta preocupações, pois autoriza restrições à livre circulação de pessoas, a apreensão de propriedade necessária para a defesa nacional e a suspensão do direito de reunião e de protesto, entre outras medidas”.
Um ativista dos direitos humanos em Caracas disse que a repressão escalou significativamente na segunda-feira, com as autoridades a parar pessoas para “verificar os telemóveis e ver se tinham algo que pudesse ser interpretado como apoio às ações dos Estados Unidos”.
A líder da oposição, María Corina Machado, descreveu a repressão como “realmente alarmante” numa entrevista à Fox News. “Delcy Rodríguez é uma das principais arquitetas da tortura, perseguição, corrupção, narcotráfico”, disse Machado. “Não podemos celebrar nada. Se celebrarmos, os colectivos podem matar-nos”, disse uma mulher a caminhar pelo bairro de Chacao no domingo à noite, que recusou dar o seu nome.