O corpo da escritora Nélida Piñon foi retirado do mausoléu da Academia Brasileira de Letras, onde tradicionalmente se enterram todos os seus integrantes, e foi transferido nesta terça para um jazigo ao ar livre no cemitério São João Batista, no centro do Rio de Janeiro.
Morta em dezembro de 2022, em Lisboa, aos 88 anos, a autora de “Vozes do Deserto” foi a primeira mulher a presidir a ABL, bem no ano em que a instituição completou seu centenário, em 1997.
Assistente da autora por mais de 15 anos, Karla Vasconcelos hoje cuida de seu patrimônio e foi a responsável pela mudança, prometida desde 2023. Já na época do velório da escritora, ela reclamava do estado em que se encontrava o túmulo que guardaria o corpo da amiga.
Vasconcelos lamentou que o sepultamento da autora tenha sido feito enquanto a lápide ainda trazia o nome de Lêda Boechat Rodrigues, viúva do acadêmico José Honório Rodrigues. Chamou o caso de “um desrespeito” e disse que e escritora “foi atirada ao limbo e está numa vala como uma indigente”.
Agora, ela reitera as acusações. “Se alguém quer conhecer a ABL, vá ao mausoléu, ali está a face exposta da Academia e quem ela é na atualidade. As pessoas anseiam para ingressar na instituição com a promessa da ‘imortalidade’, mas na verdade estão condenadas à invisibilidade e indigência.”
Em nota enviada à reportagem, a Academia afirma que Nélida Piñon é “uma das maiores escritoras brasileiras”, “admirada e respeitada por todos”, além de “uma das figuras mais notáveis da ABL”. Desde a morte da autora, segundo a instituição, sua assistente “conversou várias vezes com a ABL e todos os pedidos dela foram atendidos”. “O que precisava foi restaurado.”
Vasconcelos afirma que, de fato, nunca pediu nada à Academia Brasileira de Letras “além de autorização para visitar Nélida no mausoléu”. “Precisa de uma obra estrutural muito grande. Não adianta fazer maquiagem.”
Há três anos, uma reportagem mostrou infiltrações, paredes descascando e túmulos sem lápide no mausoléu da Academia, onde estão enterrados nomes como Machado de Assis, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa. As condições do espaço, naquele momento, foram alvo de críticas de outros pesquisadores e acadêmicos.
“O mausoléu da ABL é uma obra de 1958, abriga 40 jazigos e é um bem tombado pelo Iphan”, diz a nota enviada pela Academia nesta terça. “A manutenção do local com limpeza, capinagem, pintura, é feita mensalmente. O mausoléu está sendo reformado aos poucos conforme as necessidades e uma obra mais profunda necessita da aprovação do Iphan, o que demanda muitos recursos e tempo.”
Vasconcelos, que é neuropsicóloga e conheceu Nélida Piñon nos anos 1990 após enviar uma carta confessando sua admiração pela escritora, fez um vídeo emocionado nesta terça para divulgar o novo jazigo, no mesmo cemitério João Batista onde fica o mausoléu. Na gravação, ela mesma narra uma mensagem à amiga.
“Recordo o canto 24 da ‘Ilíada’, onde Príamo suplica a Aquiles pelo corpo de seu filho Heitor, para que possa realizar um honrado funeral. Não sou Príamo, mas aguardei três amargos anos para recolher seus despojos e te conduzir a um lugar digno da tua humanidade.”
O novo jazigo ao ar livre tem uma foto da escritora em preto e branco, sorrindo, e citações de sua autoria. Em destaque na lápide, está a frase “o amor é e será sempre teu melhor gesto na terra”.
“Para mim é um alívio”, diz Vasconcelos sobre a transferência do corpo. “A única coisa que me prendia à ABL era a Nélida. Agora ela está livre, e eu também.”