O antigo responsável máximo pelos destinos da Stellantis considera que 2026 pode marcar o “fim da ingenuidade” da União Europeia. Conheça as previsões deste e de outros protagonistas para o que irá marcar 2026.

Carlos Tavares, Gestor, empresário, ex-CEO da Stellantis

2026 será o ano do fim da ingenuidade da UE, ano decisivo para escolher entre realismo face as rivalidades mundiais musculadas e a miragem do estado social. A UE e o fusível escolhido pelos EUA, a Rússia e a China neste contexto de agressões de varias naturezas. Mais do que nunca a dimensão transacional vai impor-se nas relações internacionais. Será o momento da necessidade de diversificar os parceiros comerciais para limitar riscos ligados a tensões geopolíticas. Teremos que aceitar competir frente a frente com a Ásia e diferenciarmos dos outros países europeus para podermos fazê-lo. Mais do que nunca teremos que aceitar não sermos mais um país subsídio dependente de Bruxelas para criarmos valor por nos próprios. Trabalhar mais trabalhando melhor e a única opção para ganhar! Para a frente!

 

Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Fórum para a Competitividade

Prioridades de ação para Portugal em 2026
1 – definir objetivos estratégicos nacionais, independentemente da desorientação europeia, que aliás não influenciamos
2 – orientar a economia e a politica comercial externa para beneficiar das novas oportunidades
3 – aumentar a capacidade e velocidade de reação das empresas
4 – criar um ambiente empresarial mais motivador em termos de salários, bônus e lucros
Tudo isto só pode ser alcançável com a legitimidade de ouvir e respeitar os resultados eleitorais. 70% dos eleitores deixaram de votar à esquerda mas o bloco central continua a defender todos os obstáculos que herdamos de uma revolução comunista há 50 anos.

 

Carlos Lobo, Professor da Faculdade de Direito UL, Advogado

Portugal entra em 2026 num paradoxo incómodo. Os indicadores macroeconómicos são positivos: crescimento acima da média europeia, inflação controlada, salários nominais em alta e uma carga fiscal ligeiramente descendente. O país voltou a merecer elogios externos. Isto prova que o pacto de regime, ainda que tácito, sobre estabilidade das Finanças Publicas compensa… E, no entanto, a perceção dominante é de mal-estar económico. Isto não é uma contradição, é antes e só a nossa estrutura. Os ganhos de rendimento são absorvidos onde a substituição é impossível: habitação, alimentação e serviços essenciais. Para a classe média, o aumento salarial existe, mas não a liberta. Acresce a comparação permanente com padrões de vida externos que expõem uma verdade simples: Portugal continua a crescer abaixo do seu potencial. O problema não é ideológico, mas unicamente operacional. O país não sofre de falta de talento ou de estabilidade, sofre de desorganização, burocracia e incapacidade de execução. Vivemos num Estado corporativo, onde interesses organizados funcionam melhor do que o consumidor individual e onde se responde a cada falha com mais regulação, num Estado que já falha no básico. 2026 não precisa de novos diagnósticos. Precisa de uma simplificação radical, de menos custos de contexto e de mais rendimento líquido nas mãos das pessoas. Estamos melhor do que estávamos, mas perigosamente longe do que podíamos ser. É essa frustração quanto ao potencial — e não a pobreza absoluta — que hoje define o país.

 

Eduardo Catroga, economista

A economia portuguesa em 2026 vai ter um crescimento positivo face a UE mas em ligeira desaceleração relativamente a 2025. Uma taxa de crescimento à volta mas inferior a 2%. A produtividade não cresce pois ainda não estão criadas condições estruturais para tanto. E o emprego vai diminuir. As tentativas de ações estruturais necessárias para a melhoria da produtividade vão esbarrar ou ser esbatidas na falta de uma maioria política parlamentar estável e coerente. A UE ainda não vai dar passos significativos na direção estratégica das medidas de política preconizadas no relatório Draghi por falta de uma vontade política mais agregadora de sinergias a nível europeu. A guerra na Ucrânia ainda não vai ter uma solução duradoura . E a nível global o perfil psicológico de Trump não vai restabelecer a confiança perdida pelos parceiros dos EUA. Enfim, 2026 vai ser um ano de transição.

 

Vitor Escária, director do ISG

2026 é mais um ano que se inicia com grande incerteza. A resiliência do mercado de trabalho, aumento dos rendimentos e conclusão de importantes projetos deverá alimentar a procura interna e o crescimento económico. Nas exportações, as de turismo deverão continuar dinâmicas (é fundamental eliminar os problemas registados nos últimos dias) e registar-se-ão comportamentos díspares em diferentes setores (menor dinâmica em setores maduros e aumentos em setores como a indústria farmacêutica) fruto da procura interna dos principais mercados e das alterações das cadeias globais de abastecimento. Os riscos parecem equilibrados e deverão permitir uma ligeira aceleração do crescimento face a 2025.

 

Miguel Farinha, Country Managing Partner da EY Portuguese Cluster

Na EY produzimos anualmente um Global Outlook para o ano seguinte e a nossa expectativa para 2026 é que o mesmo, globalmente, será marcado por um crescimento mais moderado face a 2025, mas com sinais claros de resiliência. Neste estudo identificamos cinco forças que vão moldar o cenário económico em 2026, nomeadamente as tensões comerciais, a aceleração da IA, a volatilidade nos mercados, as pressões fiscais e as mudanças demográficas. Estes temas exigirão das empresas uma capacidade acrescida de adaptação e acredito que quem investir em tecnologia, diversificar cadeias de fornecimento e adotar modelos de gestão mais ágeis estará mais bem preparado para enfrentar custos crescentes e a incerteza geopolítica, mantendo competitividade num cenário em rápida transformação.

 

Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal:

A Liga Portugal prepara-se para, em 2026, continuar a dar passos firmes e concretos na condução da centralização dos direitos audiovisuais do futebol profissional, fundamental para a transformação do seu tecido socioeconómico, com impacto na fórmula de receitas e na atração de investimento. Vamos, a par desse processo, atuar em áreas como as infraestruturas desportivas, a experiência do adepto, o combate à pirataria, compliance e, no plano futebolístico, através do programa Meta 2028, serão trabalhadas medidas, com as sociedades desportivas, que melhorem a qualidade do jogo e aumentem o seu tempo útil. O objetivo é a maior capacitação dos planteis, nomeadamente em espaço competitivo internacional, e a reconquista do sexto lugar no ranking UEFA até 2028.

 

Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da APED

Em 2026, o retalho continuará a operar num contexto económico exigente, marcado pela instabilidade geopolítica, pela urgência de pôr fim à guerra na Ucrânia e pela necessidade de a Europa recuperar competitividade através de uma agenda clara de crescimento e desregulamentação. A pressão dos custos ao longo de toda a cadeia — salários, transportes, energia, logística e um enquadramento regulatório ambiental cada vez mais pesado — continuará a penalizar as empresas, com impacto direto nos preços e na capacidade de investimento. O setor enfrentará ainda um período intenso de adaptação operacional, com a entrada em funcionamento do Sistema de Depósito e Reembolso, já em abril, a preparação da aplicação do regulamento EUDR em 2027 e exigências crescentes na gestão de resíduos em múltiplos fluxos, dos equipamentos elétricos e eletrónicos aos têxteis e resíduos orgânicos. Neste contexto, a competitividade do retalho e da economia exige reformas estruturais claras: uma reforma laboral feita com coragem e esclarecimento, que promova flexibilidade e produtividade, e uma reforma fiscal que reduza a carga sobre o trabalho e as empresas, tornando Portugal mais atrativo ao investimento e ao crescimento sustentável.

 

Jorge Henriques, presidente da FIPA

Espero que em 2026, que vai ser um ano desafiante no contexto externo, se consiga criar o enquadramento certo para que a indústria portuguesa agroalimentar seja reconhecida como um pilar do desenvolvimento económico nacional. Acredito que a aposta no conhecimento, na expansão internacional e na valorização do que é produzido em Portugal será decisiva para esse percurso. Um ambiente político estável e regras claras serão, na minha opinião, fundamentais para estimular o investimento, melhorar o desempenho produtivo e reforçar a presença externa. É essencial que o setor seja visto como um parceiro estratégico na transição digital, no incremento de práticas sustentáveis e no reforço da segurança alimentar. Com maior articulação ao longo da cadeia e uma aposta contínua na qualidade, o agroalimentar poderá gerar ainda mais emprego, fortalecer o interior e aumentar a robustez da nossa economia. A reindustrialização na Europa, e em Portugal em particular, tem de passar das palavras aos atos. No sector Agroalimentar português já começámos a arregaçar as mangas.

 

Rafael Campos Pereira, vice-Presidente Executivo da AIMMAP e membro da Comissão Executiva da CIP

Mais do que nunca, a economia portuguesa será em 2026 fortemente condicionada pelo contexto internacional. Os constrangimentos gerados pelas políticas protecionistas dos EUA, continuarão a fazer estreitar o mercado mais apetecível da indústria exportadora portuguesa. Mais grave ainda, as iniciativas restritivas e contraditórias da Comissão Europeia, taxando a importação de matérias-primas e facilitando a entrada no mercado europeu de produtos acabados, irão reduzir ainda mais a competitividade das exportações nacionais. A exemplo do que sucedeu no segundo semestre de 2025, o crescimento económico em Portugal será essencialmente impulsionado pelo consumo interno pelo turismo. Infelizmente, o peso das exportações no PIB nacional continuará a cair. A única excepção de resiliência às adversidades e barreiras será protagonizada pelo METAL PORTUGAL, cuja trajetória exportadora em 2025 foi crescente ao contrário da generalidade dos restantes sectores. Estou convicto de que essa tendência positiva se manterá em 2026.

 

Jorge Camarneiro, Vice-presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas, e Médias Empresas (CPPME)

O ano de 2026 será novamente um ano muito complexo para as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME). O Orçamento do Estado aprovado não acolheu nenhuma das propostas concretas mais significativas, apresentadas pela CPPME, com vista à redução dos custos fixos e contextuais das empresas, assim como ao reforço da sua autonomia financeira. Num quadro económico marcado por incertezas, o desempenho da CPPME continuará a ser guiado pela defesa intransigente dos interesses das MPME, e a sua ação voluntária e dedicada sustentará a capacidade reivindicativa do sector, enquanto pilar fundamental da economia e sociedade portuguesa.

 

António Garção Cabeças, Professor Associado da Universidade Autónoma de Lisboa

No ano de 2026, continuará a recuperação da economia nacional, com crescimento moderado, sustentado pelo consumo interno e pelo investimento, apesar da incerteza geopolítica internacional. O aumento das taxas de juro afetará o crédito e os financiamentos, exigindo grande rigor financeiro nas empresas e na gestão das contas públicas. A competitividade dependerá de três transições interligadas: a digital (com uso de inteligência artificial), a energética e a criação de competências. O sucesso empresarial dependerá da inovação, da adaptação contínua, de investimentos estratégicos e de uma gestão disciplinada, recorrendo a instrumentos como o PRR. Também será fundamental o aumento da produtividade, área em que o nosso país se encontra abaixo da média dos países da União Europeia (UE).

 

Pedro Coelho, CEO e fundador da Square Asset Management

Apesar da incerteza global, Portugal continuará a ser um país atrativo para os investidores, pela qualidade de vida, pela mão de obra qualificada e pelas boas oportunidades de negócio, também no mercado imobiliário. Para os fundos de investimento imobiliário, cujo foco são os ativos comerciais, antecipa-se como provável que as rentabilidades se mantenham entre os 3% e os 7%, tendo em conta o aumento das rendas de 2,25% com a consequente valorização dos imóveis, pelo que continuaremos focados na máxima rentabilização para os investidores com o mínimo risco possível.

 

José Macário Correia, Presidente da Assembleia Municipal de Faro
Teremos um ano de 2026 que a partir de fevereiro será tranquilo. Janeiro e principio de fevereiro terão agitação com as presidenciais, depois entraremos em acalmia politica e em termos económicos teremos um bom ano turístico com água no Algarve e no resto do pais e teremos condições de novos investimentos. Contamos com a paz em Gaza e na Ucrânia para normalizar o Mundo. Poderemos ter algo de novo na Venezuela, a caminho da democracia. Esperamos que o Verão seja calmo em termos de incêndios e com transparência no uso dos meios e na sua contratação. E com menos bebés a nascerem em ambulâncias. O novo aeroporto de Lisboa e a nova ponte do Tejo, além do Hospital Central do Algarve têm que dar passos concretos.

 

José Maria Ferreira, Fundador e CEO da Havelar

2026 será um ano decisivo para a Havelar e para a própria transformação do setor da construção. Após uma fase de forte investimento em tecnologia, engenharia e validação do modelo de impressão 3D, entramos no ano da afirmação industrial. O objetivo é claro: construir cerca de 300 casas, demonstrando que é possível responder à crise da habitação com escala, rapidez e sustentabilidade. Num contexto económico ainda desafiante, acreditamos que as empresas capazes de executar, industrializar e inovar serão as que liderarão o futuro. Para a Havelar, 2026 marca esse ponto de viragem.

 

Miguel Aguiar, Diretor Executivo da Startup Portugal

Em 2026, o empreendedorismo português entra numa fase de superação. Depois da consolidação, com números recorde de startups, o foco passa a ser escalar melhor: mais scaleups, mais ambição global e maior impacto económico em áreas como defesa e IA. Temos de apostar na qualidade, facilitando acesso a capital late-stage, conectando startups a corporate ventures, além de atrair mais talento especializado. Portugal tem vantagem competitiva clara – agora temos de nos assumir como motor europeu de inovação.