A China deu mais um passo no agravamento da crise diplomática com o Japão e proibiu na terça-feira a exportação de bens de dupla utilização para o país, para “salvaguardar a segurança e os interesses” da China.
Pequim justifica a decisão com o facto de a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, ter anunciado que o país irá rever neste ano os seus três principais documentos de segurança nacional.
Takaichi fez essa afirmação em Outubro, no discurso da tomada de posse, prometendo um reforço do investimento militar face à necessidade de o país “reforçar drasticamente as suas capacidades de defesa”.
A líder do Governo japonês também admitiu a possibilidade de uma intervenção militar japonesa em Taiwan, na eventualidade de um ataque chinês contra o território que Pequim reivindica como província da República Popular da China, se estivesse em causa uma “ameaça à sobrevivência” do Japão — afirmações consideradas “provocatórias” pela China.
Depois disso, em Outubro, o ministro da Defesa japonês confirmou planos para instalar mísseis terra-ar na ilha de Yonaguni, a cem quilómetros de Taiwan, levando as autoridades chinesas a acusarem o Japão de querer provocar um conflito militar.
Passados dois meses, Pequim volta a pegar nas declarações de Takaichi dizendo que reflectem a “tendência perigosa do Japão de se ‘remilitarizar’ o mais rapidamente, o que certamente prejudicará a paz e a estabilidade regional”.
Pequim não especifica quais são os bens, tecnologias ou serviços que podem ter aplicação em fins civis ou militares e “contribuir para um aumento no potencial militar” ou “produção de armas de destruição em massa”, mas uma porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, citada pela agência noticiosa Xinhua, diz que “a comunidade internacional deve permanecer em alerta máximo” perante as intenções japonesas.
O Japan Times dá conta nesta quarta-feira que as restrições à exportação impostas pela China “podem colocar em risco” os fluxos comerciais entre os dois países, porque a lista de produtos de dupla utilização potencialmente abrangidos pela proibição é “ampla e diversificada”.
O jornal refere que esta medida se segue a outras como a suspensão de importações de marisco japonês ou o apelo aos cidadãos chineses para evitarem viagens para o Japão desde as declarações de Takaichi no ano passado sobre Taiwan, em que a chefe de Governo sugeriu que uma resposta militar poderia ser justificada se a ilha fosse atacada pela China.
A lista de controlo de bens de dupla utilização da China abrange mais de 800 itens em dez categorias que incluem “componentes e tecnologias essenciais com utilizações e aplicações militares óbvias, como produtos químicos, minerais, electrónica, sensores, sistemas de navegação, software e tecnologias aeroespaciais”, mas também vários outros produtos de bens de consumo, “incluindo câmaras de alta velocidade”, refere o Japan Times.
Um economista da Fundação Tóquio ouvido pelo jornal frisou que “se a China for longe demais [na restrição de exportações], as suas próprias empresas sofrerão um duro golpe”, mas também admitiu “o risco de um impacto generalizado nas indústrias automóvel e electrónica do Japão” no caso da falta de componentes e materiais, como as terras raras, em que a China é líder mundial.
A Reuters também noticiou nesta quarta-feira que o Ministério do Comércio da China anunciou uma investigação anti-dumping sobre as importações japonesas de diclorossilano, um composto químico utilizado principalmente na indústria de semicondutores.
A China afirmou que a investigação foi iniciada a pedido dos seus produtores nacionais de diclorossilano, que alegaram que os volumes importados do Japão apresentaram uma tendência geral de aumento entre 2022 e 2024, enquanto os preços caíram 31%, causando prejuízos à produção e ao funcionamento da indústria local.
No comunicado de terça-feira, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês também acusou a líder japonesa de ter feito “declarações enganadoras em relação à região de Taiwan, na China, sugerindo uma possibilidade de intervenção militar [japonesa] no Estreito de Taiwan”.
Nos últimos dias de 2025, as Forças Armadas chinesas realizaram uma série de exercícios militares em redor de Taiwan, considerando-as um “aviso sério” às “forças separatistas” da ilha e uma “acção legítima e necessária para salvaguardar a soberania e a unidade nacional” da China.