A tentativa de entrar nesse campo tem sido clara nestes primeiros dias de campanha, com o candidato a repetir a cada canto que visita — e de forma mais vincada no dia em que a sondagem da CNN Portugal o colocou na frente — que é o único à esquerda como hipóteses: “Só há um candidato do centro-esquerda e da esquerda que pode passar à segunda volta.” A ideia de que pode chegar lá dá um empurrão grande a esta linha de argumentação.

“Vamos lá ver: os dados são muito simples, só há um candidato do centro-esquerda e da esquerda que pode passar à segunda volta. Essa é uma realidade. É um facto. E, portanto, aquilo que eu apelo é a todos os portugueses que queiram ter esse candidato na segunda volta, que votem em Seguro”, disse o próprio sobre si mesmo. E descreve este voto precisamente dentro das linhas que agradam à esquerda, ou seja, é aquele que “garante que quem defende a dignidade, quem defende o Estado Social, quem defende a nossa Constituição, esteja na segunda volta.”

Já quando os jornalistas lhe perguntam se tem afinado esta linha porque ainda acredita na desistência de alguma candidatura à sua esquerda a seu favor, o socialista desvia-se: “Não, eu dirijo-me aos eleitores e aos portugueses e dou-lhes razões para votarem na minha candidatura. A minha candidatura é a candidatura que conta.”

Na terça-feira, no debate televisivo com todos os candidatos, na RTP, Seguro jurou que não tentou acordos à esquerda, com a desistência de algum dos candidatos em vista, e que é assim que vai manter-se até ao fim da campanha. Anda assim foi com indisfarçável agrado que ouviu Jorge Pinto declarar a dada altura: “Não será por mim que António José Seguro não será Presidente de Portugal”.

A poucos dias do voto antecipado, esta abertura da porta de saída da corrida por parte do candidato apoiado pelo Livre parece confirmar a expectativa de alguns socialistas, que já punham fichas nesta desistência. Já quanto à de António Filipe ou a de Catarina Martins, ninguém acredita que possa vir a ser uma realidade.

A confirmar-se, a saídade de cena de Jorge Pinto seria um importante empurrão para Seguro nesta altura. E vai colocar uma pressão adicional sobre a restante esquerda, a quem o candidato tem deixado alguns avisos nos últimos dias. E até já deixou uma espécie de lição, quando ouviu Catarina Martins lembrar que, em 2012, Seguro ajudou a “viabilizar cortes contra a Constituição” e recusou responder-lhe: “Eu não me engano nos meus adversários.”

“Concentrar os votos”. É a expressão que mais tem usado nestes dias e que repetiu a cada esquina em Grândola, terra de esquerda, certo, mas que nas últimas autárquicas caiu do PCP para o lado do PS. Nesse périplo pelas ruas da “vila morena” chegou mesmo a juntar-se a três apoiantes alentejanos que, na esquina do museu, cantavam o hino da esquerda que foi uma das senhas usadas para o início da Revolução de 1974. Proclamou-se como “o candidato da liberdade” e seguiu caminho nessa tentativa de concentrar assim os votos da esquerda.

No dia anterior tinha usado ainda outro argumento para tentar puxar para si os que pensam votar em António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto. Disse que votar neles seria “meio voto” no partido que quer combater, o Chega, e “não ajuda o candidato da esquerda que está em condições de passar à segunda volta”. É argumento que serve na pressão à esquerda, mas simultaneamente na tentativa de tornar esta campanha numa luta entre duas frentes: a do populista influente sobre o PSD e o único que à esquerda pode passar.

Qualquer candidato sabe que se concorresse contra Ventura numa primeira volta, a Presidência ficaria automaticamente a um pequeno passo. No caso de Seguro, o candidato ainda sabe que a estratégia de amalgamar a direita sob o mesmo chapéu do populismo tem funcionado para a congregação da esquerda — que o diga António Costa e a sua maioria absoluta de 2022. Já funcionou uma vez, será que voltará a funcionar?