Esta terça-feira, Paris foi a sede de um encontro que se revelou decisivo para definir as garantias de segurança após um cessar-fogo na Ucrânia. Líderes ucranianos, norte-americanos e dos países da chamada Coligação das Vontades concluíram a “Declaração de Paris” que estabeleceu vários consensos entre as três partes e criou uma “célula de coordenação”, sediada na capital francesa.

A grande novidade nesta reunião foi mesmo a presença dos Estados Unidos. Ao contrário das outras, os EUA fizeram-se representar com a dupla de enviados que tem representado o Presidente Donald Trump, Steve Witkoff e o genro do presidente Jared Kushner. Apesar de não serem parte da coligação, os EUA assumiram, pela primeira vez, um apoio ao conjunto de países ainda que com um papel diferente: o de “mediar e ajudar no processo de paz“, como explicou Witkoff após a reunião.

A “Declaração de Paris”, que sai do seio da coligação, espelha o comprometimento dos Estados Unidos com os objetivos assumidos pela Ucrânia e aliados, nomeadamente com o fornecimento de “garantias de segurança robustas”. O texto abre com um “compromisso para uma paz justa e duradoura na Ucrânia em linha com a Carta das Nações Unidas”, assumido por “todos” os que se reuniram na capital francesa.

A declaração divide-se em cinco traves mestras descritas como “componentes” de um “sistema de garantias vinculativas política e legalmente”. Em primeiro lugar, os países da coligação das vontades comprometem-se a participar num “mecanismo de monitorização e verificação do cessar-fogo“. Este mecanismo “contínuo” e “fiável” será liderado pelos Estados Unidos, que farão parte da Comissão Especial que averiguará qualquer quebra ou ameaça ao cessar-fogo.

Depois, os aliados prometem continuar a apoiar militarmente as Forças Armadas da Ucrânia, através do fornecimento de “armamento a longo prazo”, para garantir a “capacidade sustentada” das forças ucranianas para resistirem a eventuais quebras de um cessar-fogo. Entre os outros tipos de apoio descritos, lê-se, inclui o financiamento, o acesso a reservas de defesa, o apoio técnico e cooperação no orçamento nacional ucraniano.

Em terceiro lugar, os estados da coligação das vontades comprometem-se a construir, com as contribuições dos membros, uma “Força Multinacional para a Ucrânia”. Esta força servirá para apoiar a “reconstrução das forças armadas ucranianas e apoiar a dissuasão” a uma eventual quebra, quer seja pelo “ar, em terra ou no mar”.

O quarto ponto estabelece uma intenção de estabelecer um “compromisso vinculativo” dos declarantes em apoiar a Ucrânia em caso de novo ataque. Este apoio pode ser com o uso de capacidades militares ou através de medidas diplomáticas ou sanções económicas, lê-se. Por fim, em quinto lugar, os países comprometem-se a desenvolver uma cooperação mútua e benéfica com a Ucrânia no âmbito da defesa.

Após a reunião, o Presidente francês Emmanuel Macron classificou a declaração como um “passo significativo”, que avançou também a “convergência operacional” entre os membros da coligação das vontades.

“Esta declaração da coligação dos voluntários reconhece, pela primeira vez, a convergência operacional entre os 35 países que compõem a coligação dos voluntários, a Ucrânia e os Estados Unidos da América. Estamos a falar de garantias de segurança sólidas”, destacou ainda o Presidente.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, realçou que os compromissos não são “apenas palavras”, trazendo “documentos substanciais” com “conteúdo concreto” e que demonstram o compromisso para “uma segurança real”.

“Já foi definido quais os países que estão prontos para assumir a liderança nos elementos de garantia de segurança em terra, no ar, no mar e na reconstrução” da Ucrânia, lembrou o ucraniano, que acrescentou ser importante determinar “a força e o tamanho adequados do Exército ucraniano” e como “serão apoiados e financiados” pelos aliados de Kiev.

Zelensky apontou ainda “progressos significativos” com os negociadores norte-americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner, com quem estão em curso discussões sobre garantias de segurança bilaterais, para além das garantias coletivas, bem como mecanismos para monitorizar as “violações da paz” em caso de acordo com Moscovo. Porém, apesar de considerar o resultado da cimeira de Paris como “um grande passo em frente”, lembrou que “ainda não é suficiente”.

De igual modo falou o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Apesar de considerar que a declaração da coligação das vontades colocou o objetivo da paz “mais próximo que nunca”, o chefe do Governo do Reino Unido avisou que falta percorrer “o caminho mais difícil” deste processo.

Para Starmer, Putin ainda não está “pronto para a paz”, tendo continuado os “ataques horríveis” à Ucrânia que cortaram a energia a “milhões de pessoa no meio do inverno”.

Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, citado pela Sky News, sublinhou o “sucesso partilhado” pelo “triângulo de Europeus, Ucrânia e Estados Unidos”, construindo o progresso atingido no ano anterior.

“Hoje, focámo-nos na contribuição que a Europa e os seus parceiros podem ter para a Ucrânia após um cessar-fogo”, continuou Merz, que avançou ainda a possibilidade de uma presença de forças alemãs num país da NATO na fronteira com a Ucrânia. “Diria que, neste momento, nada está excluído”, acrescentou.