O Presidente dos EUA quer o petróleo da Venezuela — “roubado” às empresas americanas, diz Donald Trump, referindo-se à nacionalização da indústria petrolífera venezuelana em 1976 e que nada teve que ver com o chavismo ou com Nicolás Maduro.

Caso o plano de Trump avance e todas as reservas petrolíferas da Venezuela voltem a ser exploradas, o impacto que isso teria sobre o clima seria trágico, porque este petróleo é dos mais sujos do planeta.

Quanto petróleo tem a Venezuela?

A Venezuela tem as maiores reservas conhecidas de petróleo, que chegam a 300 mil milhões de barris. Como termo de comparação, o Iraque está em quarto lugar, com 145 mil milhões —​ menos de metade. Ao ritmo actual de produção na Venezuela, estas reservas poderiam garantir produção para 238 anos, segundo números citados pelo site Orinoco Sustenible.

Mas há um grande grau de incerteza quanto a estes dados, sendo possível tratar-se de muito mais —​ até 511 mil milhões de barris de petróleo.

A maior parte do petróleo fica na Faixa Petrolífera do Orinoco, no Leste do país, na bacia do rio Orinoco e seus tributários.

Que tipo de petróleo é este?

O petróleo aos pés da Venezuela é o tipo de petróleo mais poluente que existe, com uma grande intensidade carbónica. “Este petróleo extraordinariamente pesado é viscoso e espesso, e tem uma quantidade de enxofre e de carbono maior do que o crude convencional”, explicou ao New York Times Clayton Seigle, especialista em energia e geopolítica do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington.

A exploração deste tipo de petróleo produziria uma grande quantidade de emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás com efeito de estufa, mas também metano, um gás que é menos abundante na atmosfera, mas que pode ter um efeito de absorção do calor do Sol 28 a 86 vezes maior do que o do CO2. O metano é, contudo, menos perene, sobrevivendo apenas dez a 12 anos na atmosfera, cerca de 80 vezes menos que o CO2.

Que consequências ambientais pode ter?

Se a política “drill, baby, drill” que Donald Trump quer aplicar nos EUA for posta em prática na Venezuela, as consequências serão devastadoras, calcula Paasha Mahdavi, professor na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, nos EUA.




A Venezuela é responsável porcerca de 40% dos “flares” de gás na exploração de petróleo, aqui em instalações no Lago Maracaibo, em Cabimas
Isaac Urrutia/REUTERS

“Se se aumentar a produção para 1,5 milhões de barris de petróleo por dia, a partir do milhão actual, estaríamos a emitir 550 milhões de toneladas de CO2 por ano quando esse combustível fosse queimado. Isto é mais poluição de carbono do que a aquela que é emitida anualmente por grandes economias como o Brasil ou o Reino Unido”, diz o especialista no impacto da exploração de combustíveis fósseis na governação e nas políticas ambientais, citado pelo jornal The Guardian.

É também mais difícil extrair este petróleo, sendo preciso usar mais energia e tecnologias mais avançadas, e tudo isto gera mais emissões de CO2. Se a Venezuela hoje é responsável por 0,4% das emissões de CO2, a produção de petróleos mais pesados, como os venezuelanos, pode gerar três a quatro vezes mais gases de estufa que o convencional, diz o New York Times.

Na Faixa Petrolífera do Orinoco, existem ainda vários ecossistemas prioritários, como praias, bosques ribeirinhos e palmares de pântano. Muitas espécies carismáticas e em risco, como tartarugas, o caimão do Orinoco, papagaios, diversos peixes e mamíferos como toninhas e peixes-bois, são outros dos habitantes daquela zona ecológica que sofreriam com a intensificação da exploração petrolífera.

É possível quantificar esse impacto nas alterações climáticas?

Sim, é possível fazer estimativas. Cada barril de petróleo produz cerca de meia tonelada equivalente de dióxido de carbono (0,5 tCO2e). Esta é a medida através da qual se convertem quantidades de outros gases que também aprisionam radiação solar na atmosfera terrestre, para além do CO2.

Considerando as reservas venezuelanas, se todo esse petróleo fosse explorado, seriam emitidas pelo menos 150 mil milhões de toneladas de GtCO2e, de acordo com cálculos de Tasso Azevedo, criador do Seeg, um sistema de estimativas de emissões de gases de efeito estufa do Observatório do Clima, uma rede que agrega várias outras associações e organizações brasileiras que actuam na área do clima e ambiente.

Os dados mais recentes indicam que o mundo está a emitir 58 GtCO2e/ano, considerando todas as fontes de emissões de gases com efeito de estufa (energia, agricultura, desflorestação e outras). As emissões relativas ao petróleo são na ordem dos 14 a 15 mil milhões de toneladas por ano, portanto extrair todo o petróleo venezuelano, como Trump parece querer, faria, só por si, subir essa quantidade dez vezes.

Apesar de a indústria petrolífera venezuelana estar em declínio, a quantidade de metano libertada nas suas refinarias — nos chamados “flares” de gás — torna-a um dos principais emissores de metano para a atmosfera. No ano passado, relata o New York Times, libertou 40% do seu gás desta forma, em vez de o reutilizar. “O que é uma loucura”, comenta Jason Bordoff, director do Centro de Política Energética Global, na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque.

Um Governo democrático na Venezuela poderia atrair investimento internacional que melhoraria a sua indústria e seria benéfico para o ambiente, apesar de o seu petróleo ser sempre mais pesado, frisa Jason Bordoff. Mas não é isso que parece estar nos planos de Washington.

É possível cumprir o Acordo de Paris com este aumento da exploração de petróleo?

O valor estimado do “orçamento de carbono” do planeta é de 500 GTCO2e, e já emitimos até 2025 cerca de metade desse valor, salienta a Folha de São Paulo.

O “orçamento de carbono” diz-nos qual a quantidade de CO2 que o mundo pode emitir (após o ano base de 2020) para haver pelo menos 66% de hipóteses de cumprir o objectivo do Acordo de Paris, que é evitar que o aquecimento global não exceda 1,5 graus acima dos valores pré-Revolução Industrial.

Como as reservas mundiais de petróleo, contabilizando todos os valores conhecidos, são de 1,6 a 1,5 biliões (milhões de milhões) de barris, se extraíssemos e usássemos tudo, produziríamos 800 a 900 GtCO2e de emissões. Para cumprir o Acordo de Paris, 69% a 83% das reservas globais — ou o equivalente a quatro ou cinco Venezuelas — terão de permanecer inexploradas.




Protesto frente à embaixada dos EUA em Buenos Aires
Pedro Lazaro Fernandez/REUTERS

Portanto, não basta deixar o petróleo venezuelano em paz, mas isso já ajudaria muito a preservar o nosso planeta dos efeitos das alterações climáticas, que já estamos a sentir, sob a forma de fenómenos meteorológicos extremos, como grandes tempestades, secas, inundações, doenças.

É viável aumentar a exploração do petróleo venezuelano?

“As petrolíferas vão entrar, vão gastar dinheiro, vamos recuperar o petróleo e, francamente, já o devíamos ter recuperado há muito tempo”, disse o Presidente dos EUA, no sábado, ao anunciar a captura do Presidente venezuelano Nicolás Maduro. “Vai sair muito dinheiro da terra e vamos ser reembolsados por tudo o que gastarmos.”

Este é o momento de fazer uma ligação à Terra, deixando os castelos no ar. Hoje, o petróleo venezuelano representa apenas 1% do petróleo consumido a nível mundial, contabiliza a Folha de São Paulo. Donald Trump quer que as empresas norte-americanas, que ele considera que foram “roubadas” pela nacionalização do sector petrolífero na década de 1970, voltem para explorar o que o Presidente norte-americano acha que é “propriedade” do seu país em território venezuelano.

Só que isso é mais fácil de dizer do que fazer.

As petrolíferas norte-americanas estão disponíveis para entrar em força na Venezuela?

Longe vão os tempos em que a Venezuela arrancava da terra 3,7 milhões de barris de petróleo por dia, mais do triplo da quantidade de hoje, em que a indústria é afectada, entre outros problemas, por uma má gestão que multiplica os problemas. Seriam necessários muitos anos e muitos milhões de dólares para que a indústria petrolífera venezuelana regressasse ao nível que já teve, sublinham vários especialistas ouvidos pelo New York Times.

A Chevron é a única das grandes petrolíferas norte-americanas que se manteve na Venezuela, mas nem esta nem a Exxon se pronunciaram ainda sobre as suas intenções. O que isto transparece é uma falta de entusiasmo com a ideia de Trump, por várias razões, enumera a CNN: a situação incerta no terreno, o mau estado da infra-estrutura industrial venezuelana, o historial de nacionalização dos bens de empresas petrolíferas estrangeiras por Caracas.

“O apetite por saltar a pés juntos para a Venezuela é muito baixo. O desejo do Presidente é muito diferente do da indústria. A Casa Branca saberia isso, se tivesse comunicado com a indústria antes da operação de sábado”, disse uma fonte do sector do petróleo à televisão norte-americana.

“As petrolíferas podem não estar muito entusiasmadas com a perspectiva de investir na Venezuela, porque [recuperar a indústria petrolífera] vai demorar muito mais tempo do que os três anos de mandato que restam a Donald Trump”, comenta John Sterman, especialista em clima e economia do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, ao Guardian​. “É um risco muito grande.”

Aumentar em meio milhão de barris diários a produção de petróleo na Venezuela representaria um custo de dez mil milhões de dólares durante dois anos, segundo estimativas da consultora Energy Aspects, citadas pelo diário britânico. Para chegar até 2,5 milhões de barris por dia, seria preciso evoluir ao longo de uma década, usando reservas médias. Para voltar aos níveis máximos de extracção, seria preciso desenvolver a Faixa Petrolífera do Orinoco, com o tal petróleo muito pesado, difícil e caro de extrair e de refinar e com grande impacto ambiental.

Os EUA são já o maior produtor e exportador de combustíveis fósseis do mundo. Vender esta ideia de pesados e duradouros investimentos às petrolíferas norte-americanas dificilmente será um sucesso. “O crude pesado venezuelano que seria refinado nas instalações da costa do golfo dos EUA provavelmente prejudicaria os produtores nacionais, que, até Trump ter raptado Nicolás Maduro, apoiavam activamente a imposição de sanções contra o petróleo venezuelano”, explicou ao Guardian Patrick Galey, responsável pelas investigações sobre combustíveis fósseis na organização não-governamental Global Witness.