O presidente do INEM recusa que tenha havido falhas do instituto e do novo modelo de prioridades para accionamento de meios, implementado no início do ano, no caso do homem que morreu depois de ter esperado três horas por socorro. Luís Cabral atribui responsabilidades aos hospitais da Margem Sul do Tejo pela retenção das macas das ambulâncias. Segundo o dirigente, a triagem e o accionamento funcionaram, mas não havia meios disponíveis.

Na passada terça-feira, um homem de 78 anos ligou para o INEM, às 11h23, depois de ter caído em casa, no Seixal. A situação foi classificada como prioridade três (urgente), que prevê o accionamento de meios até 60 minutos, mas a viatura médica só foi enviada quase três horas depois, às 14h09, quando a vítima já se encontrava em paragem cardiorrespiratória. O socorro já não foi a tempo de evitar o desfecho fatal.

A Inspecção- Geral das Actividades em Saúde (IGAS) já abriu um inquérito ao caso para “investigar a qualidade do serviço na perspectiva da prontidão, designadamente por parte do INEM”.

“Fizemos uma tentativa de activação ao fim de 15 minutos, mas infelizmente por falta de meios disponíveis, não foi possível darmos esta resposta”, afirmou Luís Cabral, em declarações aos jornalistas na sede do INEM, em Lisboa.

O presidente do instituto, que tomou posse em Novembro, garante que tem os meios suficientes para as necessidades, tendo havido um reforço de seis ambulâncias na Margem Sul para o acréscimo da procura neste Inverno. As centrais do INEM recebem em média 4500 chamadas por dia, mas desde a época festiva a média de atendimentos por dia está nos 5500, adiantou Luís Cabral. Ainda assim, assegurou, o INEM tem conseguido responder, mas “os meios são finitos” e não podem ficar retidos nos hospitais à espera que sejam devolvidas as macas em que os doentes foram transportados.

“Infelizmente, e como tem sido notícia em todos os órgãos de comunicação social do país, há uma limitação muito significativa de ambulâncias, principalmente na margem sul, por via da retenção dessas ambulâncias nas unidades de saúde”, afirmou. Sublinhando que “se todos os meios que o INEM tem à sua disposição fossem capazes de chegar aos hospitais, entregar os doentes e ficarem imediatamente disponíveis, não haveria qualquer limitação”.

O INEM abriu uma auditoria ao caso, estando a tentar perceber quantas ambulâncias o CODU tentou accionar, quer junto dos bombeiros quer do próprio INEM, para responder ao pedido de socorro e as razões para a sua indisponibilidade.

Luís Cabral rejeita qualquer ligação entre o atraso no socorro e o novo modelo de prioridades implementado no dia 2 de Janeiro nos centros de orientação de doentes urgentes do INEM, alegando que a prioridade que foi definida para o doente foi “exactamente a mesma prioridade que teria sido definida no sistema de prioridades anterior, ou seja, a prioridade urgente”. O dirigente acrescentou que os fluxogramas que estão a ser usados são os mesmos e os técnicos que estão a atender as chamadas e a definir o desfecho das situações também são os mesmos. E explicou que os accionamentos dos meios são feitos “sempre que é possível e de imediato”, não ficando as ocorrências retidas à espera que sejam atingidos os tempos- alvo de resposta.

O presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, Rui Lázaro, admitiu esta quarta-feira que o novo sistema possa ter contribuído para o desfecho fatal.

“Provavelmente contribuiu porque, consoante a prioridade que lhe foi atribuída, poderia ser enviado o meio até 60 minutos. Por isso, até aí não me espanta que não tenha havido procura de meios para serem enviados”, afirmou o presidente do STEPH, Rui Lázaro.

Sindicato fala em várias denúncias de atrasos

O dirigente sindical disse ainda que “se o novo sistema não tivesse sido implementado, assim que a ocorrência foi criada, já se procuraria uma ambulância para ser enviada”.

Rui Lázaro adiantou que esta situação vem “confirmar o risco de deixar as pessoas à espera” e confirma que desde que o novo sistema de triagem do INEM começou a funcionar, o sindicato tem recebido diariamente denúncias de situações cujo tempo previsto nas prioridades foi ultrapassado sem que tivesse sido enviada qualquer ambulância.

Na sexta-feira, o INEM anunciou o início de um novo sistema de atendimento das chamadas recebidas nos CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes), que prevê cinco níveis de prioridade (emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente), à semelhança da triagem usada nos hospitais.

A classificação resulta da avaliação clínica que é realizada pelos profissionais do CODU, com base na informação recolhida durante a chamada.

A prioridade emergente, para situações de risco de vida iminente, implica uma resposta imediata, com o envio de meios de suporte básico de vida, articulados com suporte imediato ou avançado de vida. Para os casos muito urgentes, o novo sistema prevê a chegada do primeiro meio de socorro ao local até 18 minutos e nas situações urgentes, com risco de agravamento clínico, o tempo de resposta previsto é até 60 minutos. Já os pouco urgentes prevêem a chegada ao local de meios em 120 minutos. Os casos triados como não urgentes, são classificados como situações que não implicam o envio de meios de emergência, sendo a chamada transferida de imediato para a linha SNS 24, onde é garantido aconselhamento e encaminhamento adequados.

No final da chamada, o cidadão passa a ser informado sobre a prioridade atribuída, o tempo de resposta estimado e o encaminhamento definido, explicou o INEM em comunicado, acrescentando que se trata de uma aposta na “transparência e na gestão das expectativas de quem recorre ao 112”. Caso a vítima apresente uma alteração dos sinais relatados ou o aparecimento de um novo sintoma, será aconselhada a ligar de novo para o 112.

Nas declarações aos jornalistas a propósito do caso do Seixal, o presidente do INEM afirmou que o novo modelo está a ser monitorizado para que os resultados possam ser comparados a nível internacional.