Como explicar vestígios tão claros de água em um planeta que, ao que tudo indica, sempre foi frio? Um estudo da Universidade Rice, no Texas, publicado neste mês de janeiro na revista AGU Advances, propõe uma resposta: pequenos lagos podem ter persistido como água líquida em Marte antigo, protegidos por uma fina camada de gelo sazonal, mesmo sob baixas temperaturas atmosféricas.

A pesquisa ajuda a resolver uma contradição antiga entre modelos climáticos, que apontam para um Marte predominantemente frio, e evidências geológicas de atividade hídrica prolongada, como sedimentos estratificados e antigos litorais. Segundo os autores, esses lagos não exigiriam um período globalmente quente para existir e poderiam ter durado décadas.

Um novo modelo para um velho enigma

A autora principal do estudo, Eleanor Moreland, estudante de pós-graduação da Rice, afirma que a ausência de sinais claros de gelo espesso nas bacias marcianas foi um ponto de partida. “Observar antigas bacias lacustres em Marte sem evidências de gelo duradouro me fez questionar se esses lagos poderiam ter retido água por mais de uma estação em um clima frio”, explicou.

Para testar a hipótese, a equipe adaptou um modelo climático originalmente desenvolvido para a Terra pela climatologista Sylvia Dee. Embora Marte não tenha registros naturais como anéis de árvores ou núcleos de gelo, os pesquisadores usaram dados coletados por robôs, interpretando informações de rochas e minerais como arquivos indiretos do clima antigo.

Após anos de ajustes, o modelo — batizado de LakeM2ARS — simulou condições de cerca de 3,6 bilhões de anos atrás, considerando menor radiação solar, maiores concentrações de dióxido de carbono e padrões sazonais distintos dos terrestres. Foram realizadas 64 simulações com base em dados reais do rover Curiosity, da Nasa, na Cratera Gale.

Os resultados mostraram que, em vários cenários, a água poderia permanecer líquida sob uma fina camada de gelo, que funcionaria como um isolante térmico. “Essa camada de gelo sazonal age como um cobertor natural para o lago”, disse Kirsten Siebach, professora associada da Rice e coautora do estudo. Segundo ela, o gelo reduziria a evaporação no inverno e permitiria derretimento parcial no verão, deixando poucos vestígios permanentes.

Além de explicar a preservação excepcional de antigos leitos lacustres, a pesquisa sugere que a ausência de geleiras visíveis não exclui a existência desses lagos. Publicado na AGU Advances, o trabalho representa um avanço na simulação de ambientes extraterrestres e reforça a ideia de que Marte pode ter sido mais hidrologicamente ativo do que se imaginava — mesmo sem nunca ter sido, de fato, um planeta quente.