Aliados, incluindo França e Alemanha, estão a trabalhar em conjunto num plano de resposta caso os Estados Unidos concretizem a ameaça de se apoderarem da Gronelândia, enquanto a Europa procura lidar com as ambições do Presidente dos EUA, Donald Trump, na região.
Uma acção militar norte-americana para tomar a Gronelândia, território de um aliado de longa data, a Dinamarca, provocaria um choque na NATO e aprofundaria a divisão entre Trump e os líderes europeus.
O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noel Barrot, disse que o tema será abordado numa reunião com os homólogos da Alemanha e da Polónia ao final da tarde desta quarta-feira, dia 7 de Janeiro.
“Queremos agir, mas queremos fazê-lo em conjunto com os nossos parceiros europeus”, afirmou à rádio France Inter.
Uma fonte do Governo alemão indicou separadamente que a Alemanha está “a trabalhar de forma estreita com outros países europeus e com a Dinamarca sobre os próximos passos relativamente à Gronelândia”.
Um alto-responsável europeu disse que a Dinamarca deve liderar o esforço de coordenação de uma resposta, mas “os dinamarqueses ainda não comunicaram aos seus aliados europeus que tipo de apoio concreto desejam receber”, afirmou a fonte, sob anonimato.
Líderes das principais potências europeias e do Canadá manifestaram esta semana apoio à Gronelândia, afirmando que a ilha árctica pertence ao seu povo, depois de Trump ter renovado a ameaça de se apropriar do território.
Johannes Koskinen, presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento finlandês, apelou a que a questão fosse discutida na NATO.
Os aliados da NATO devem “analisar se é necessário agir e se os Estados Unidos devem ser enquadrados no sentido de não poderem ignorar planos acordados em conjunto para perseguir as suas próprias ambições de poder”, disse.
A próxima reunião do Conselho do Atlântico Norte está marcada para quinta-feira.
Trump revive plano de apropriação
Nos últimos dias, Trump reiterou o desejo de controlar a Gronelândia, ideia inicialmente defendida em 2019, durante a primeira presidência. Argumenta que a ilha é estratégica para a defesa militar dos EUA e acusa a Dinamarca de não a proteger adequadamente.
A Casa Branca afirmou na terça-feira que Trump discutia opções para adquirir a Gronelândia, incluindo o possível recurso a forças militares, numa tentativa de retomar a ambição de controlar a ilha estratégica, apesar das objecções europeias.
Barrot sugeriu que uma operação militar norte-americana tinha sido descartada pelo principal diplomata de Washington.
“Eu próprio falei ontem com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (…), que confirmou que este não é o caminho seguido… ele descartou a possibilidade de uma invasão [da Gronelândia]”, afirmou.
A operação militar dos EUA no fim-de-semana, que capturou o líder da Venezuela, reacendeu receios de que a Gronelândia pudesse enfrentar um cenário semelhante.
Um alto-responsável norte-americano, falando sob anonimato, afirmou nesta semana que Trump e os seus conselheiros discutiam várias formas de adquirir a Gronelândia, incluindo uma compra. A Dinamarca e a Gronelândia afirmam que a ilha não está à venda.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, e a sua homóloga da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, solicitaram uma reunião urgente com Rubio para discutir a situação.
“Gostaríamos de adicionar alguma nuance à conversa”, escreveu Rasmussen numa publicação nas redes sociais. “É necessário substituir os gritos por um diálogo mais sensato. Já.”
Dinamarca contesta presença russa e chinesa
A Gronelândia, a maior ilha do mundo, mas com apenas 57 mil habitantes, não é membro independente da NATO, mas integra a aliança através da Dinamarca.
A ilha situa-se estrategicamente entre a Europa e a América do Norte, sendo um ponto crítico para o sistema de defesa de mísseis balísticos dos EUA há décadas. A sua riqueza mineral também está alinhada com a ambição de Washington de reduzir a dependência da China.
Trump tem afirmado repetidamente que navios russos e chineses circulam nas águas da Gronelândia, algo que a Dinamarca contesta.
“A imagem de navios russos e chineses dentro do fiorde de Nuuk e de grandes investimentos chineses não corresponde à realidade”, disse Rasmussen aos jornalistas na terça-feira à noite.
Dados de rastreio de navios da MarineTraffic e da LSEG não indicam presença de embarcações chinesas ou russas perto da Gronelândia.
Os governos dinamarquês e gronelandês não responderam de imediato a pedidos de comentário por email e telefone na quarta-feira.