O futebol é uma grande metáfora do mundo, e é possível que você se identifique, esportivamente ou não, com a ideia central deste texto. Saber a hora de “deixar ir” e encerrar relações nunca é fácil. Hulk e Atlético passam, neste momento, por esta fase tão difícil –entre a nostalgia por tudo o que já foi vivido e a expectativa por um incerto futuro.

O atacante tem contrato até 2026, mas vivenciou na temporada passada o início de um processo de perda de protagonismo. Foi reserva 11 vezes, contra 18 nos quatro primeiros anos no Galo (a maioria delas para ser poupado, não por opção técnica). Fez 21 gols, 12 de bola parada. No Campeonato Brasileiro chegou a passar mais de um ano sem marcar com bola rolando.

A queda natural de desempenho para um jogador de 39 anos gera dúvidas sobre o papel de Hulk no time. Jorge Sampaoli, adepto de um estilo mais intenso e rápido, não parece se esforçar para mudar suas convicções a fim de encaixar o jogador. No meio dessa situação entra o Fluminense com uma proposta de dois anos e instaura, assim, o pânico nos gestores do Atlético.

Ninguém quer sair na foto como o dirigente responsável por perder um grande ídolo. Se o Atlético tem dúvidas sobre a capacidade de rendimento de um atleta beirando os 40 anos, seus engravatados têm que tomar a difícil decisão de deixá-lo ou não sair. Quem está pressionado normalmente pensa de maneira pior. E o Atlético ofereceu mais um ano de contrato para um jogador de 39 anos que ainda tinha uma temporada de vínculo a cumprir.

Hulk se sentiu desprestigiado esportivamente e sem acreditar no projeto do clube. Como não foi liberado, disse que fica. Não por bem, mas porque não pôde ir embora.

Depois de ter feito quase 300 jogos e de ter tirado o Atlético de uma fila de cinco décadas no Brasileiro, Hulk merece tudo do Galo. Merece uma estátua, um documentário, e toda homenagem que vier será pouca.

Mas, enquanto joga, precisa ser tratado como um jogador. Ninguém deve ter seu contrato renovado pelo que já fez, mas sim pelo que ainda pode fazer. Renovações por gratidão costumam ser caras demais aos cofres do clube e à história do atleta.

Foi por agir assim que o Barcelona extrapolou os limites com Gerard Piqué, Jordi Alba, Sergi Roberto, Sergio Busquets e outros. E foi por não atuar dessa maneira que o Real Madrid perdeu Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo, mas também não se perdeu técnica ou financeiramente.

A melhor coisa que o Atlético poderia ter feito para não arranhar a linda história era deixá-lo ir. Hulk tem que poder tudo, inclusive ir embora quando quiser. Assim são as relações que extrapolam a frieza corporativa. “Hulk, queremos você aqui em 2026, mas, se você quer ir, entendemos e lhe desejamos o melhor”. Uma vez no Fluminense, tapete estendido a cada vez que voltar como rival a BH. Aplaudido antes e depois dos jogos, nunca vaiado durante as partidas. A partir daí, quando o atacante encerrar sua carreira, virão as homenagens mais que merecidas.

Sem saber como (e se é tempo de) acabar a relação, o Atlético ofereceu mais um ano e também muita desconfiança ao seu grande ídolo. E Hulk ficou, ao menos por enquanto, porque não conseguiu sair. Com o tempo, vai sobrar o amor, mas hoje a relação tem um cheiro mais tóxico do que deveria.


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