O INEM fez o seu trabalho“. Foi desta forma que o presidente do INEM, Luís Mendes Cabral, reagiu esta quarta-feira ao caso de um utente que morreu após três horas de espera por uma ambulância no Seixal.

Em declarações aos jornalistas, Mendes Cabral apontou os constrangimentos do organismo na mobilização atempada de meios à retenção de ambulâncias nos hospitais. “O que foi definido no dia 2 de janeiro é que não é admissível que uma situação urgente esteja mais de 60 minutos à espera. O INEM fez o seu trabalho, fez uma triagem que está correta na nossa primeira avaliação”, disse, no Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) de Lisboa, continuando: “Estamos com um problema de constrangimento de ambulâncias, principalmente na margem sul do Tejo”.

Entretanto, a Inspeção-geral das Atividades em Saúde (IGAS) confirmou ao Observador a abertura de um inquérito ao caso da morte do utente após quase três horas de espera por uma ambulância. O INEM abriu também uma auditoria sobre esta situação, revelou Luís Mendes Cabral: “Esse primeiro passo foi determinado e essa auditoria à chamada está a ser feita”.

Luís Mendes Cabral saiu também em defesa do sistema de triagem recentemente implementado e que traçou a priorização das chamadas nos centros de atendimento urgentes (CODU).

Homem morreu no Seixal depois de quase três horas à espera do INEM

“O que tenho conhecimento é que habitualmente fazemos cerca de 4.500 atendimentos diários nestes centros de atendimento urgentes. Desde o final do período festivo estamos com uma média de 5.500 chamadas, estamos com mais mil chamadas em relação àquilo que é o nosso trabalho habitual. Conseguimos reforçar os meios, foram reforçados, por exemplo, na margem Sul com 6 ambulâncias para garantir que neste pico de gripe tínhamos uma resposta adequada. Se os nossos meios fossem capazes de chegar aos hospitais, entregar os doentes e ficar imediatamente disponíveis, não teríamos qualquer limitação”, acrescentou.

Segundo Luís Mendes Cabral, o “novo sistema está a correr exatamente como era previsto” e foi bem implementado “numa altura de procura muito significativa” dos serviços de emergência. “Não há diferença nenhuma no fluxograma. É inconsequente dizermos que há uma relação entre definição de tempos de resposta e aquilo que tínhamos anteriormente. [Antes] as chamadas não eram priorizadas. Tão depressa tratávamos um enfarte do miocárdio como uma entorse no tornozelo”, sublinhou.

Garantindo que o “sistema não falhou”, Luís Mendes Cabral enfatizou que o “INEM precisa de ter à sua disposição todos os meios que contratualizou” para socorrer a população.

“Se tivermos todos os meios contratualizados no circuito, não temos problemas de resposta”, referiu, lançando de imediato o aviso: “Se tivermos as ambulâncias retidas nos hospitais, não temos os meios que precisamos para socorrer os portugueses“.

O presidente do organismo assegurou ainda que tem de haver “uma articulação entre todos” os agentes, sobretudo numa fase de “procura muito significativa”, envolvendo a direção executiva dos serviços de urgência, que “estão a funcionar no limite das suas capacidades”. Porém, recusou traçar uma avaliação negativa do serviço. “Não podemos concluir que em dois dias com um fluxo muito grande de chamadas que estamos de uma forma corrente a falhar aos portugueses. Mesmo com este fluxo enorme, estamos a dar a resposta que é possível, mas os meios são finitos”, salientou.

Sobre o caso deste utente do Seixal, Luís Mendes Cabral reiterou que “não houve falhas do INEM” no atendimento e na triagem — onde a “identificação de prioridade não foi incorreta”, mas apenas uma “dificuldade para encontrar um meio para responder” a este caso: “O INEM não falhou no planeamento nem na avaliação dos meios. Não falhou naquilo que era a sua função. Fizemos o acionamento ao fim de 15 minutos que, para uma prioridade de 60 minutos, era razoável. O problema neste momento foi a falta de meios na Margem Sul.

Em paralelo, descartou a contratualização de mais meios. “Não posso estar a contratar uma infinidade de meios à espera que não estejam disponíveis. Tenho os meios necessários, fizemos um planeamento. Agora, se todas as ambulâncias do INEM não estiverem disponíveis, nem os bombeiros, nem a Cruz Vermelha conseguem inventar mais ambulâncias”, frisou.

Questionado sobre o seu futuro e sobre os esclarecimentos prestados ao Ministério da Saúde, Luís Mendes Cabral considerou estar “a fazer o trabalho que era preciso e que foi pedido pelo Governo para a refundação do INEM” e garantiu existir “uma comunicação institucional permanente” nesta fase de pico da gripe.

Os bombeiros mais próximos do socorro ao doente que morreu no Seixal receberam uma chamada do CODU às 13h15 a solicitar ambulância sem especificar a ocorrência nem o local, disse à Lusa o presidente dos Bombeiros do Seixal.

Segundo Bento Brázio Romeiro, na linha do tempo da ocorrência, entre as 11h20 e as 14h09, a Associação Humanitária de Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal, distrito de Setúbal, recebeu apenas esse contacto do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) tendo a corporação indicado que não tinha disponibilidade de ambulâncias.

Contudo, adiantou, neste contacto realizado às 13h15 não foi referido o motivo do pedido nem o local da ocorrência.

Um homem morreu na terça-feira no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM, confirmou o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, admitindo que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho.

A Lusa teve acesso à fita do tempo deste caso, que mostra que o homem, de 78 anos, ligou pela primeira vez a pedir socorro ao INEM pelas 11h20 de terça-feira, tendo esta situação sido classificada como prioridade 3 – que prevê o acionamento de meios em 60 minutos -, mas apenas foi enviada a viatura médica pelas 14h09, quase três horas depois.

A fita do tempo regista, pelas 11h23, que a vítima tinha dado uma queda, mostrando-se agitado, confuso, sonolento e prostrado.

Apesar de ter sido considerada uma situação de prioridade 3, mais de uma hora depois, pelas 12h48, a fita indica que a Cruz Vermelha do Seixal não tinha ambulância, que as ambulâncias de Almada e Seixal estavam ocupadas e, pelas 13h29, houve uma segunda chamada para o INEM a questionar a demora de meios.

Pelas 14h05 houve uma nova chamada e foi registado que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória e pelas 14h09 foi enviada a viatura médica de Almada, que entretanto ficou livre.