O RQ-170 Sentinel fotografado sobre o deserto da Califórnia em 2021

O drone “invisível” RQ-170 Sentinel é crucial para operações de vigilância e captura de alvos de alto valor em cenários de conflito, como a missão que resultou na detenção de Maduro e a que eliminou Osama Bin Laden.

Durante a madrugada da operação especial que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro e da sua esposa, um observador local em Porto Rico, perto da antiga base naval norte-americana de Roosevelt Roads, captou uma silhueta estranha a regressar silenciosamente à base.

A forma inconfundível, semelhante a um boomerang ou a uma raia, era a do mítico RQ-170 “Sentinel”, um dos segredos mais bem guardados da Força Aérea dos EUA.

A fotografia confirmou o que agora sabemos com certeza: pelo menos um ou dois destes aparelhos voaram nessa noite para fornecer os “olhos invisíveis” que guiaram as forças especiais norte-americanas até ao seu objetivo.

Sem o Sentinel, não teria sido possível apanhar o ditador — tal como aconteceu em maio de 2011 na missão que pôs fim a Osama Bin Laden, diz o El Confidencial.

Para perceber porque é que o RQ-170 foi a peça-chave deste puzzle, é preciso primeiro compreender o conceito de “padrões de vida”, uma expressão do jargão militar que significa que, antes de qualquer elemento das forças especiais pôr um pé em terra, a inteligência militar precisa de saber tudo: a que horas o alvo come, quando dorme, quem o visita e até quanto tempo demora no WC.

O RQ-170 foi desenhado especificamente pela lendária divisão Skunk Works da Lockheed Martin, os mesmos criadores dos míticos aviões-espiões U-2 e SR-71 Blackbird, para esta função: infiltrar-se em espaços aéreos hostis e permanecer lá, a observar sem ser detetado, durante longos períodos de tempo.

Como funciona o RQ-170

Os segredos da sua capacidade operacional residem na sua “invisibilidade” e no conjunto de sensores que transporta. O RQ-170 não é invisível ao olho humano, mas é praticamente indetetável por radar.

O seu design de asa voadora sem cauda e os materiais especiais dispersam as ondas de radar em vez de as refletirem na direção do inimigo, permitindo-lhe operar naquilo a que os militares chamam “ambientes contestados”. O RQ-170 não transporta mísseis nem canhões: o seu poder está no design.

Enquanto sobrevoa de forma invisível e silenciosa a grande altitude, o Sentinel recorre a um radar de varrimento eletrónico ativo que lhe confere, basicamente, os “sentidos” de um morcego: o radar emite ondas de rádio invisíveis que, ao refletirem no solo, criam imagens de abertura sintética (SAR) com qualidade fotográfica, mesmo através das nuvens, e um sistema de deteção de alvos móveis terrestres (GMTI) capaz de destacar qualquer movimento.

Durante a operação contra Maduro, o RQ-170 tornou-se o maestro omnisciente. As suas câmaras eletro-óticas e infravermelhas transmitiram vídeo em direto, permitindo aos operadores detetar ameaças inesperadas antes de estas terem hipótese de reagir.

Esta capacidade de transmissão de dados em tempo real foi o que ligou a operação no terreno à Sala Oval da Casa Branca. Como confirmou o próprio presidente Donald Trump: “Pude ver tudo em tempo real e acompanhei cada detalhe do que se passava.” Sem esta ligação vital, teria sido praticamente impossível.

A estratégia usada para capturar Maduro, que incluiu a construção de uma réplica à escala real do seu esconderijo e a infiltração de uma equipa da CIA, é quase uma cópia da usada em 2011 na operação que eliminou com Osama Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. Nessa ocasião, tal como na Venezuela, um RQ-170 vigiava de cima, invisível e silencioso.

Joseph Trevithick / USAF / Wikipedia

Fotografia de um RQ-170 Sentinel na Base Aérea de Andersen, em Guam — a única fotografia oficial da “Besta de Kandahar”

Conhecido inicialmente como “A Besta de Kandahar” após ter sido avistado no Afeganistão, o drone também já monitorizou o programa nuclear do Irão — onde uma unidade foi perdida em 2011 — e operou perto do espaço aéreo da Coreia do Norte e, possivelmente, sobre o Mar Negro para vigiar as forças russas na Crimeia.

O RQ-170 é já um modelo veterano, com pelo menos duas décadas de serviço. Não é a tecnologia furtiva mais avançada do arsenal norte-americano, mas a sua fiabilidade mantém-no operacional.

A frota de Sentinels é diminuta, estimada entre apenas 20 a 30 unidades no total, operadas exclusivamente pelos Esquadrões de Reconhecimento 30 e 44 da Ala 432 na base aérea de Creech, no Nevada.

A captura de Maduro mostra que, por vezes, o sucesso de uma operação militar depende de uma simples  aeronave capaz de se infiltrar no quintal do inimigo e manter vigilância e recolher informação essencial — sem ser detetada.


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