Morreu esta segunda-feira na prisão federal de Cumberland, Maryland, Aldrich Ames, considerado o maior traidor da história da CIA. Entre 1985 e 1994, Aldrich Ames teve acesso à identidade de todos os agentes soviéticos recrutados pela CIA, bem como de americanos envolvidos em operações secretas. E foi durante esses nove anos, antes e depois do colapso da União Soviética, que entregou ao KGB todos esses nomes e informações sobre a realização de operações a troco de dinheiro.

De acordo com a informação revelada pelos serviços prisionais norte-americanos, Ames tinha 84 anos. Não foram reveladas as circunstâncias da morte do antigo agente dos serviços de informações dos Estados Unidos.

Segundo conta o Washington Post, a violação dos segredos da CIA por Ames terá levado à morte de pelo menos uma dezena de agentes recrutados pela agência ou por outros serviços secretos estrangeiros de países aliados. A duplicidade na sua atuação ter-lhe-á rendido mais de um milhão de dólares pagos em ‘dinheiro vivo’ pelos russos, além da promessa de outro milhão de dólares e de uma propriedade na Rússia.

“Problemas financeiros, imediatos e contínuos”, justificou Ames, quando confrontado com as razões para avançar com a partilha de informações secretas norte-americanas, até ter sido descoberto e preso em fevereiro de 1994, quando tinha 52 anos.

No entanto, a sua ligação à CIA começou décadas antes e tinha até origens familiares. O pai, Carleton Ames, chegou a trabalhar de forma clandestina para a agência.

Em 1957, com apenas 16 anos, Aldrich Ames teve um primeiro emprego de verão na CIA a classificar documentos para a agência. Voltaria para mais duas experiências similares, tentou formar-se em teatro, mas abandonou os estudos na Universidade de Chicago e regressou a Washington. Em 1967, entraria finalmente para o programa de formação da CIA e iniciou a sua carreira como agente.

Durante anos Aldrich Ames manteve uma atuação normal, mas o dinheiro e uma desilusão com a forma de atuação dos serviços de informação dos Estados Unidos abririam caminho à traição. Contudo, Ames explicou numa entrevista ao Post nove semanas depois de ser preso, que o desencanto que sentiu não tinha sido acompanhado de qualquer sentimento de admiração pelos soviéticos, aludindo simplesmente a uma “estranha transferência de lealdades”.

“Não era para o sistema soviético, que eu considerava um regime cruel, desumano e repugnante”, frisou Ames, que se gabou de ser no final dos anos 80 e início dos anos 90 “uma das pessoas mais bem informadas da comunidade de informações sobre o serviço de inteligência russo”.

“O meu acesso à informação e o meu conhecimento sobre os soviéticos eram tais que eu conseguia praticamente tudo o que queria”, acrescentou.

Ames sublinhou ainda que as décadas de trabalho na espionagem levaram-no a “compartimentar sentimentos e pensamentos”, desvalorizando as consequências da sua atuação e uma eventual culpabilização. “Sentia que, pelo menos da maneira como estou a trair estes agentes, estou a expor-me ao mesmo destino”, contou.

Ames acabou por ser condenado em 1994 a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional, após se declarar culpado, a fim de proteger também a mulher e o filho, então com cinco anos. Rosario Casas era acusada igualmente de ser cúmplice e acabou condenada a uma pena de cinco anos e três meses de prisão, mas foi libertada ao fim de quatro anos.