Um grupo de ativistas climáticos reivindicou o ataque, que deixou a capital alemã às escuras durante vários dias

No meio da forte queda de neve na capital alemã e das temperaturas a descerem abaixo de zero, quase 100 mil pessoas ficaram sem energia durante vários dias após um alegado ataque incendiário de esquerda contra a rede elétrica de Berlim no sábado, que causou um grande apagão.

O grupo ativista Vulkangruppe – ou Grupo Vulcão – reivindicou a autoria do ataque, citando o papel que os combustíveis fósseis e a inteligência artificial desempenham na aceleração da crise climática.

Aproximadamente 45 mil casas e mais de 2 mil empresas nos bairros nobres da zona sudoeste de Berlim foram afetadas pelo apagão, que durou mais de quatro dias.

Acredita-se que este tenha sido o apagão mais longo da história de Berlim no pós-guerra.

O que aconteceu exatamente?

O ataque ocorreu na madrugada de sábado, quando um incêndio deflagrou numa conduta de cabos sobre o Canal Teltow, que atravessa a zona sul da cidade. O fogo danificou vários cabos de alta tensão perto da central elétrica de Lichterfelde, em Berlim.

As autoridades extinguiram o incêndio, mas não sem antes a energia ser cortada por volta das 06:00. A interrupção afetou até 45 mil  casas e 2.200 empresas em quatro distritos da zona sul de Berlim, incluindo Nikolassee, Zehlendorf, Wannsee e Lichterfelde, de acordo com a Stromnetz Berlin, operadora da rede elétrica da cidade.

Consequentemente, várias pessoas ficaram sem energia e aquecimento numa altura em que as temperaturas rondavam os 10ºC negativos. Além disso, as linhas de comboio de superfície foram interrompidas e as ligações de telemóveis afetadas.

Algumas decorações natalícias a pilhas podem ser vistas nas janelas de um edifício residencial no bairro de Zehlendorf, na manhã de domingo, em pleno apagão. Ralf Hirschberger/AFP/Getty Images

O grupo Vulkangruppe reivindicou posteriormente a autoria do incêndio numa carta enviada à polícia. “Sabotámos com sucesso a central termoelétrica a gás em Berlin-Lichterfelde”, podia ler-se na carta, que circulou online.

Segundo o grupo, isto provocou apagões nos bairros “abastados” de Berlim.

Na carta, o Vulkangruppe pediu desculpa aos residentes menos favorecidos do sudoeste de Berlim, afirmando que o objetivo era atingir a indústria dos combustíveis fósseis e que a ação foi uma “medida necessária contra a expansão das centrais termoelétricas a combustíveis fósseis” na Alemanha.

“O objetivo da ação não era causar apagões, mas sim atingir a indústria dos combustíveis fósseis”, referiram, no comunicado.

“Sabemos que temos de parar com esta destruição. Sabemos que não estamos sozinhos. Não percam a esperança num mundo onde a vida tem espaço, e não a ganância pelo dinheiro, pelo poder e pela destruição”, podia ler-se ainda. “As pessoas chamam-nos ecoterroristas, mas nós respeitamos a vida. Chamam-nos irresponsáveis, mas nós assumimos a responsabilidade de acabar com este modo de vida imperial e destrutivo”.

O presidente da Câmara de Berlim, Kai Wegner, declarou aos jornalistas, esta quarta-feira, que o incidente “não foi um pequeno ataque incendiário, nem uma sabotagem, mas um ataque terrorista perpetrado por uma organização extremista de esquerda, com consequências enormes para o abastecimento de muitos berlinenses”.

A Procuradoria Federal alemã anunciou, esta quarta-feira, que abriu uma investigação ao incidente, com suspeitas de crimes relacionados com a participação numa organização terrorista, sabotagem anticonstitucional e incêndio criminoso.

Qual foi o impacto?

Uma mulher de 83 anos morreu durante os apagões, segundo o vice-chefe da polícia, Marco Langner. A mulher foi encontrada por um familiar, que chamou uma ambulância, mas os socorristas não conseguiram salvá-la, adiantou o responsável, esta quarta-feira, sem dar mais detalhes sobre as circunstâncias da sua morte.

Segundo Marco Langner, também houve relatos de roubos durante o apagão.

Além dos apagões em casas e empresas, o ataque obrigou à suspensão dos serviços de comboio em várias linhas do S-Bahn, o metro de superfície de Berlim.

As redes de telemóveis também foram afetadas. “A informação chegou muito tarde porque não havia sinal de telemóvel e não sabíamos se o apagão era em Berlim e em toda a Alemanha, ou mesmo em todo o mundo”, contou à CNN Thomas Ohm, residente em Nikolassee.

Cinco hospitais das regiões afetadas foram obrigados a utilizar geradores de emergência. A Stromnetz Berlin informou que, no domingo, a energia já tinha sido restabelecida nestes hospitais.

A empresa de eletricidade indicou que o restabelecimento gradual da energia para os clientes começou às 11:00 desta quarta-feira, mas alertou os residentes para que evitem o uso de aparelhos elétricos de alta potência imediatamente após o restabelecimento da energia.

Um residente de Berlim afetado pelo apagão, Thomas Dastig, descreveu à CNN que a experiência foi “assustadora”.

“A minha divisão mais fria chegou aos 4ºC e a mais quente aos 8ºC. Tinha medo que os meus canos congelassem”, contou.

Outro morador, Daniel Wöste, trabalhou com a irmã para organizar geradores para oito casas no seu bairro. “Cuidamos especialmente dos idosos”, observou.

Domenico Castronovo, proprietário de uma pequena pizzaria no bairro de Nikolassee, em Berlim, indicou à CNN que o apagão teve “graves consequências” para muitos negócios locais.

“Devido à interrupção no fornecimento de energia elétrica, fomos obrigados a encerrar temporariamente, o que resultou na perda de grandes quantidades de alimentos e de mantimentos armazenados”, apontou.

A poucos quilómetros das zonas afetadas, a vida continuava normalmente, com lojas e restaurantes abertos e outros berlinenses a oferecerem camas ou banhos às pessoas afetadas.

Os estudantes trabalham nos seus computadores portáteis num posto de atendimento no escritório distrital de Steglitz-Zehlendorf, em Berlim, na segunda-feira. Omer Messinger/Getty Images

Na sequência do ataque, centenas de polícias foram mobilizados nos bairros afetados pelos cortes de energia, iluminando as zonas após o anoitecer com postes de iluminação, além de instalarem postos móveis. A polícia criou também uma linha direta para os afetados.

Quem é o Grupo Vulkangruppe?

O Vulkangruppe é um grupo extremista de extrema-esquerda na Alemanha, motivado por ideologias anarquistas, anticapitalistas e ambientalistas radicais.

O grupo é conhecido por realizar ataques incendiários. De acordo com os serviços secretos alemães, o BfV, o grupo esteve por trás de vários ataques semelhantes contra infraestruturas críticas desde 2011.

Em março de 2024, o grupo reivindicou a responsabilidade por um grande ataque ao fornecimento de energia da Gigafábrica da Tesla, perto de Berlim, o que obrigou à paragem da produção durante vários dias. O grupo publicou uma carta online alegando ter incendiado um poste na fábrica de carros elétricos após o ataque.

 

Chris Stern, da CNN, contribuiu para esta reportagem.