Há alguns anos, testar um aspirador robô era um exercício de paciência e gestão de expectativas. Passávamos mais tempo a libertá-lo de cabos, a desentupi-lo de meias perdidas ou a resgatá-lo debaixo do sofá do que a apreciar o chão limpo. Mas a evolução nesta categoria tem sido tão vertiginosa que, hoje, o problema já não é “será que funciona?”, mas sim “será que preciso de tudo isto?”. O novo Dreame X50 Ultra Complete chega ao mercado não apenas para limpar, mas para exibir força bruta, apresentando uma ficha técnica que parece ter sido escrita por um engenheiro em êxtase: 20.000 Pa de sucção, pernas que se elevam para ultrapassar desníveis e uma torre de navegação que se esconde para passar por baixo dos móveis.
Não passa despercebido
A primeira impressão ao retirar o X50 Ultra da caixa é a de que estamos perante um equipamento sério. A base de carregamento — ou melhor, a “garagem” multifunções — é imponente. Não tente escondê-la num canto discreto; ela ocupa espaço, e com razão. É aqui que o robô despeja o pó, reabastece a água limpa, despeja a água suja, lava as esfregonas com água a 80 graus Celsius e seca tudo com ar quente.
A instalação é surpreendentemente simples para uma máquina tão complexa. A aplicação da Dreame guia-nos pelo processo de ligação ao Wi-Fi e, em poucos minutos, o robô parte para o seu primeiro reconhecimento. E é aqui que notamos a primeira grande diferença para a concorrência. O sistema de navegação utiliza uma tecnologia híbrida de laser e câmaras (LDS e dToF). O mapeamento é rápido e preciso, criando uma planta da casa que distingue quartos, carpetes e tipos de piso, embora, em testes, tenha teimado em identificar os meus mosaicos da cozinha como alcatifa — um erro que a aplicação permitiu corrigir manualmente, mas que denota que o software ainda tem arestas por limar.
O ginasta do lar
Onde o X50 Ultra realmente brilha — e nos deixa de boca aberta na primeira utilização — é na sua capacidade física de superar obstáculos. A Dreame chama-lhe sistema “ProLeap”. A maioria dos robôs fica presa em soleiras de portas com mais de dois centímetros. O X50 Ultra, contudo, possui um chassis motorizado que lhe permite esticar as “pernas” e elevar o corpo para ultrapassar obstáculos até 4,2 cm de um só golpe, ou até uns impressionantes 6 cm se o desnível for em degrau duplo.
A base carrega a bateria do robô, lava as mopas, substitui a água suja por água limpa e despeja o lixo. Mas é grande, o que significa que rouba espaço à divisão onde fica instalada
DR
Na prática, isto resolve problemas práticos em algumas casas, sobretudo as mais antigas, onde é habitual existirem desníveis entre diferentes tipos de pisos no mesmo andar. Ver o robô parar, analisar o obstáculo, elevar-se e seguir caminho sem hesitação é um momento de triunfo tecnológico. Contudo, prepare-se para o barulho: quando ele desce do outro lado, ouve-se uma pancada audível, o que pode assustar animais de estimação mais sensíveis.
Outra inovação mecânica é o sistema “VersaLift”. O sensor LiDAR, aquela pequena torre que costuma estar no topo dos robôs e que os impede de entrar debaixo de móveis baixos, é aqui retráctil. Quando o robô detecta que vai entrar numa zona de tecto baixo (até 8,9 cm), a torre recolhe para dentro do corpo do aspirador. Testei isto com um aparador, que tem bloqueado vários aspiradores robóticos que já lá passaram. O X50 Ultra foi dos poucos a conseguir deslizar para a escuridão debaixo do móvel e a voltar triunfante, carregado de pó que ali ficou acumulado.
Potência bruta e braços extensíveis
No papel, os 20.000 Pa de potência de sucção são um número impressionante, duplicando o que víamos nos topos de gama do ano passado – um valor similar ao conseguido pelo Roborock Saros 10R. Na vida real, isto traduz-se numa limpeza de carpetes que roça a perfeição. O sistema de escova dupla, que a marca apelida de “HyperStream”, faz um excelente trabalho a evitar que cabelos fiquem emaranhados, enviando-os directamente para o depósito.
O desenho das escovas ajuda a evitar que os cabelos fiquem presos e resulta bem na limpeza de carpetes mais altas. As mopas sobem automaticamente quando não estão a ser usadas para evitar a transferência
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Para os cantos, a Dreame implementou o que chama de “MopExtend” e “SideReach”. Basicamente, o robô tem braços mecânicos. A escova lateral estica-se fisicamente para varrer rodapés e cantos difíceis, e a esfregona traseira projecta-se para fora do corpo do robô para lavar junto às paredes ou contornar pernas de cadeiras e mesas. O resultado é visivelmente superior aos robôs com braços estáticos, deixando muito poucas “zonas mortas” por limpar.
A lavagem é feita com duas mopas (esfregonas) rotativas que exercem pressão no chão. A capacidade de a base lavar estas mopas com água a 80 graus é um diferencial importante para quem tem animais ou crianças a gatinhar, garantindo uma higienização térmica que a água fria não consegue. No entanto, notei que em manchas de café seco, foi necessária uma segunda passagem para remover totalmente a sujidade, algo que a aplicação permite configurar com o modo “CleanGenius” que detecta a sujidade do chão.
O braço articulado permite que a escova chegue aos cantos. O mesmo acontece com uma das mopas
DR
Inteligência artificial e os seus limites
A navegação assistida por IA e câmaras RGB promete evitar até 200 tipos de obstáculos. Nos testes, desviou-se com elegância de ténis deixados no meio da sala e de um cabo de extensão. No entanto, o sistema não é infalível. Superfícies muito reflectoras ainda confundem os sensores, e tapetes pretos podem ser interpretados como abismos, fazendo o robô recusar-se a limpá-los — um problema clássico que a indústria ainda não resolveu totalmente.
A aplicação é completa, permitindo ver o vídeo da câmara do robô em tempo real (útil para vigiar a casa ou ver onde o gato se meteu) e configurar rotinas complexas. Contudo, a tradução para português ainda tem falhas e a interface pode ser um pouco densa para utilizadores menos experientes. Comparativamente, a app da sua rival Roborock continua a ser ligeiramente mais intuitiva e polida.
Veredicto
O Dreame X50 Ultra Complete é, sem dúvida, um dos robôs de limpeza mais avançados que o dinheiro pode comprar em 2026. A combinação de força bruta (20.000 Pa) com soluções mecânicas engenhosas para problemas reais — como o chassis que se eleva para subir degraus e o laser que se esconde para entrar debaixo de móveis — coloca-o num patamar de versatilidade difícil de igualar.
Não é, contudo, uma máquina perfeita. Tem uma dimensão considerável, o preço é proibitivo para a maioria das carteiras e o software, embora competente, por vezes tropeça na complexidade de tantas funcionalidades.
Se vive numa casa térrea, sem tapetes ou obstáculos complexos, este robô é um exagero; modelos que custam metade do preço farão um serviço semelhante. Mas se a sua casa é um percurso de obstáculos com soleiras altas, carpetes espessas, móveis baixos e animais de estimação, o X50 Ultra é o investimento que lhe devolve o tempo livre. Em comparação directa com o Roborock Saros 10R, o Dreame ganha na capacidade de transpor barreiras físicas, embora perca ligeiramente no mapeamento e no polimento da experiência de utilização da app. É a escolha certa para quem quer o “todo-o-terreno” dos aspiradores robô e não se importa de pagar o preço da inovação de ponta.
Tipo
Robô limpeza (aspiração e lavagem)
Potência de sucção
20.000 Pa
Navegação
LiDAR (LDS) com sistema retráctil, câmaras
Depósitos robô
Pó: 300ml
Água: 80 ml (Reabastecimento automático na base)
Depósitos base
Água limpa: 4,5 litros
Água suja: 4 litros
Saco de pó: 3,2 litros
Autonomia
Bateria de 6.400 mAh (até 220 minutos de funcionamento)
Dimensões
Robô: 350x350x89mm (111mm com torre elevada)
Base: 457x340x590mm
Preço
999,99 euros