Ponto 1. O regime ditatorial corrupto de Maduro mereceu cair.
Ponto 2. A intervenção militar das forças especiais dos Estados Unidos da América, que resultou na detenção de Nicolás Maduro e da sua mulher constituiu uma violação grosseira do direito internacional.
Ponto 3. Dois males não fazem um bem!
Não considero que nenhum dos pontos elencados seja particularmente controverso. É evidente que o regime de Maduro, descendente do projeto Chavista e da revolução bolivariana, com um modelo estatizante, centralizador da economia e das instituições, caminhou paulatinamente para um buraco negro de repressão dos direitos civis, do qual Maduro é a cabeça e, por inerência, o principal culpado. Quanto mais depressa se limparem as últimas remelas do período pusilânime do Madurismo na Venezuela, mais fácil será abrir a porta a uma transição democrática, livre e com as veias do sistema partidário livres da ameaça jugular de potências externas e dos caciques do atual aparelho estatal.
Também me parece relativamente intuitivo que, uma intervenção militar num território soberano que recorre ao uso deliberado da força, com vítimas mortais, não respeita a carta das Nações Unidas, o Direito Internacional, ou qualquer preceito reminiscente do mundo livre que as instituições multilaterais procuraram consolidar no pós-II Guerra Mundial. Aliás, habilita-se a abrir um precedente que nos remete para a gunboat diplomacy das superpotências, o faroeste em que o premir do gatilho ecoa antes e mais alto do que qualquer ameaça.
Por isto, o entusiasmo pela queda do regime de Maduro não se pode sobrepor ao período de extrema instabilidade política e bélica no qual a América Latina pode mergulhar nos próximos meses e anos, caso atividades como a desencadeada na madrugada de sexta-feira passem a ser prática comum da materialização e materialismo da nova doutrina Donroe.
Enquanto ações norte-americanas nesta esfera regional de influência, nos anos 70 e 80, representavam a expansão de um ideal liberal, de um mundo novo que estava a colher os seus cacos para estabelecer um bonito ornamento ideológico de desenvolvimento mutualista em todo o hemisfério ocidental. A queda de Allende, no Chile, de Goulart, no Brasil, ou de Torrijos no Panamá (e de Noriega quando deixou de ser conveniente aos interesses da CIA), foram alguns dos exemplos práticos dessa tentativa de impor a ordem que conduziria ao definitivo fim da história, o sistema político que encontraria o derradeiro equilíbrio entre liberdades individuais e coletivas (entretanto, já desmentido pelo autor do conceito).
A realidade agora é bem diferente, estas intervenções ou ameaças de intervenções futuras – no caso da Colômbia, Cuba, México e até na Gronelândia – são o oposto deste ornamento, são uma tentativa desesperada de negar o declínio americano na liderança dessa mesma ordem. Mais uma vez, Donald Trump, entre perder a hegemonia segundo as regras do jogo ou rebentar com o tabuleiro, optou pela segunda. Cansou-se de ameaçar e virou o tabuleiro, em fúria, do monopólio do mercado energético e petrolífero chinês.
Aqui reside o cerne deste artigo, estamos a assistir a um jogo de sombras, em que a cartada do narcotráfico e da administração Trump como portadora da democracia, esconde as verdadeiras intenções extrativas das administrações norte-americanas (o pós-11 de setembro foi frutífero nessas intervenções, o Médio Oriente que o diga). Este argumento baseia-se na ideia de que a narrativa que legitima esta intervenção não condiz com a realidade no terreno, nem com a retórica trumpiana, dias depois da intervenção que prometia deixar todos os venezuelanos mais ricos.
A nomeação de Delcy Rodriguez (uma das figuras mais proeminentes do Chavismo) para presidente interina, numa manobra de escapismo diplomático que Rubio intitulou de colaboração coerciva entre americanos e chavistas é sintomático da falácia do combate ao narcotráfico e da implementação da democracia na Venezuela – as duas maiores bandeiras de legitimação da intervenção americana nos territórios adjacentes ou vizinhais.
Julgar Maduro por atividades ligadas ao narcotráfico ou atentados à democracia enquanto se deixa a número dois do regime no poder, cujo irmão, Jorge Rodriguez, continua à frente da Assembleia Nacional, demonstra falta de interesse ou amadorismo em limpar o Madurismo da Venezuela. Esta intervenção de choque teria sido o momento perfeito para deixar cair qualquer resquício de chavismo ou dos cartéis que se acoplaram à liderança política. Manter a estrutura de Maduro, sem Maduro, com prazos opacos em relação ao futuro do sistema político venezuelano, clarifica as verdadeiras intenções desta administração Trump.
Por outro lado, não abre as portas ao líder democraticamente eleito em 2024, segundo os observadores internacionais, Edmundo Gonzalez, ou à vencedora do Prémio Nobel da Paz, Maria Corina Machado, que se ofereceu de imediato para assumir a vice-presidência. Nem sequer se vislumbra a possibilidade de termos um novo sufrágio num curto espaço de tempo. Então para que serviram todas estas manobras circenses de ilusionismo democrático? Não serviram para impor um modelo político diferente, nem sequer para desenhar um plano imberbe de direitos e garantias sociais, económicas e políticas para o povo venezuelano. No entanto, voltou a colocar o eleitorado latino do lado de Trump, passou a mensagem ao Congresso que os checks and balances não são freio suficiente para travar a ambição do presidente norte-americano e, no plano macro, talvez tenha feito a Rússia e a China repensarem o seu investimento no mercado petrolífero da América do Sul.
No que toca ao futuro da Venezuela, uma administração Trump, com Marco Rubio à cabeça, num sistema de poder baseado na pressão económica e política traz-nos laivos de memória do Iraque ou Afeganistão. Esta intervenção arrisca-se a repetir os mesmos erros, com o mesmo desfecho: não permitir o amadurecimento de um sistema político democrático fora da égide dos EUA e reiterar o amadorismo retórico da “transição democrática” ad eternum, vazio de capacitação institucional para o futuro. Enquanto isso, os dividendos da exploração dos recursos naturais alimentam o setor energético norte-americano, com poucas ou nenhumas melhorias na qualidade de vida da população. Para além disto, o risco de contágio por proximidade é real.