Como se organizam o gás e a poeira que dão origem a planetas gigantes? Uma resposta começa a surgir com a observação de um dos maiores discos protoplanetários já registrados, revelado com notável clareza pelo radiotelescópio ALMA, segundo o Observatório Nacional de Radioastronomia. O sistema, conhecido como Hambúrguer de Gómez (GoHam), oferece uma oportunidade rara de estudar a origem dos planetas e a dinâmica desses ambientes em larga escala.
A pesquisa, apresentada em janeiro durante a reunião anual da Sociedade Astronômica Americana e ainda em processo de publicação, mostrou o potencial do ALMA para mapear camadas sobrepostas de gás e poeira que orbitam uma estrela jovem. Por estar quase de perfil em relação à Terra, o disco permitiu aos astrônomos localizar grãos de poeira milimétricos e diferentes moléculas de gás em níveis específicos, algo pouco comum em observações desse tipo.
No interior do GoHam, foram identificadas duas formas de monóxido de carbono e compostos de enxofre, como o monóxido de enxofre. O monóxido de carbono-12, mais leve, ocupa as regiões mais afastadas do plano central, enquanto o carbono-13 aparece em uma camada inferior. Já o monóxido de enxofre está concentrado ainda mais próximo do eixo do disco, onde a poeira forma uma faixa fina, em contraste com o gás, que se estende por centenas de unidades astronômicas acima e abaixo.
O tamanho do sistema impressiona. A emissão de monóxido de carbono-12 alcança quase mil unidades astronômicas de raio, com grande expansão vertical, colocando o GoHam entre as maiores regiões conhecidas onde a formação planetária pode ocorrer. A massa total de poeira, muito acima da média observada em sistemas semelhantes, reforça o potencial para o surgimento de planetas gigantes e até de um futuro sistema multiplanetário, de acordo com o Observatório Nacional de Radioastronomia.
As observações também revelaram assimetrias marcantes. Há um desequilíbrio norte-sul na emissão de poeira milimétrica, com um dos lados do disco mais brilhante e extenso, possivelmente associado a um vórtice que concentra material sólido e favorece a formação de planetas. No hemisfério norte, uma fraca emissão de monóxido de carbono em regiões externas é compatível com um vento gerado pela radiação da estrela, capaz de dispersar gás no espaço.
Outro destaque é a detecção de uma estrutura em arco de monóxido de enxofre em uma das bordas externas do disco, alinhada a um aglomerado denso conhecido como “GoHam b”. Esse objeto pode representar o núcleo de um planeta massivo em formação, oferecendo um raro vislumbre de estágios iniciais do nascimento planetário em regiões distantes da estrela central.
Para Charles Law, investigador principal do projeto e bolsista Sagan do NHFP na Universidade da Virgínia, o sistema se tornou um referencial. “GoHam nos proporciona uma perspectiva excepcional da estrutura vertical e radial de um disco em grande escala”, afirmou, segundo o Observatório Nacional de Radioastronomia, destacando o valor do objeto para testar simulações e teorias sobre a evolução de discos e a formação de planetas.
Instalado no deserto do Atacama, no Chile, o ALMA — uma colaboração internacional — foi essencial para a obtenção de dados de alta resolução. A combinação entre o tamanho do disco, as assimetrias detectadas e os indícios de formação planetária faz do Hambúrguer de Gómez um laboratório natural para compreender como planetas gigantes surgem e remodelam o ambiente ao seu redor nas regiões mais externas de seus sistemas.