Portugal já ultrapassou a média europeia de obesidade e “mais de metade da população em Portugal entre os 18 e os 74 anos tem excesso de peso ou obesidade”. Há consenso entre os especialistas: “Infelizmente, no nosso país não temos qualquer comparticipação dos fármacos para a obesidade, isso não é correto”. Comparticipar o tratamento (que nalguns casos pode durar para sempre) “traz poupanças financeiras para o Estado” e a taxa de sucesso “vai ser brutal”
São já mais de metade os portugueses que sofrem de obesidade ou excesso de peso em Portugal. É o que revelam os dados de 2022, respetivos à população adulta: 37,3% dos portugueses tinha excesso de peso e 15,9% cumpria os requisitos de um quadro de obesidade. Os sistemas de saúde deixaram há muito de estar indiferentes ao problema e, por isso, têm investido em soluções. Há, portanto, uma saída, que pode passar pela medicação.
O Ozempic, que é um dos nomes mais populares entre os medicamentos usados para o tratamento da obesidade, foi “desenhado e estudado para a diabetes”, mas a molécula que compõe este medicamento tornou-se um fenómeno para tratar o excesso de peso. O Ozempic tornou-se notícia por causa disso, mas também é notícia por causa de acontecimentos como o da endocrinologista Graça Vargas, que recentemente foi acusada em Portugal de ter receitado, de forma fraudulenta, medicamentos antidiabéticos no valor de mais de 9,7 milhões de euros, num esquema em que as receitas eram emitidas através do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para garantir a comparticipação estatal destes fármacos a utentes que na verdade queriam perder peso.
Para a também endocrinologista Maria João Oliveira, este caso pode ser reflexo de um problema maior. “Infelizmente, no nosso país não temos qualquer comparticipação dos fármacos para a obesidade, o que não está correto – temos obesidades gravíssimas em que a única solução possível acaba por ser a cirurgia”, afirma à CNN Portugal.
“Estamos perante uma situação complicada, porque estes fármacos custam imenso dinheiro”, sublinha Maria João Oliveira, lembrando que a obesidade deve receber atenção médica e tratamento adequado – é reconhecida como um problema de saúde pública. O problema, diz, é que os pacientes não conseguem suportar estes fármacos – que “custam 300 e tal euros por mês”.
“No Wegovy, um miligrama custa 153 euros; 1,7 miligramas custam à volta de 200 euros; e 2,4 miligramas custam 244 euros”, explica a presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas. O Mounjaro é mais caro: “Cinco miligramas custam 244 euros; dez miligramas custam 333 euros e 15 miligramas custam mais de 400 euros”.
E há uma diferença substancial entre o Ozempic e o Wegovy: o primeiro é comparticipado pelo Estado (mas para o tratamento da diabetes), ao contrário do segundo, que foi concebido para o tratamento da obesidade, mas não tem qualquer comparticipação. “Essa é uma das grandes diferenças que está na base de algumas polémicas que têm surgido nos últimos tempos”, diz João Jácome de Castro, endocrinologista e antigo presidente da SPEDM, que defende uma “visão mais à frente” relativamente à comparticipação das terapêuticas que combatem a obesidade.
“Nós, endocrinologistas e as sociedades científicas, temos vindo a lutar para que o Estado encontre uma forma de comparticipar a medicação para a obesidade. Sabemos que mais de metade da população em Portugal entre os 18 e os 74 anos tem excesso de peso ou obesidade e compreendemos que isso é um fardo económico muitíssimo pesado, mas as contas do tratamento já foram feitas e trazem benefícios”, sublinha João Jácome de Castro. O especialista refere-se a esta vantagem: se os níveis de excesso de peso e de obesidade caírem em Portugal, o Estado vai gastar posteriormente menos dinheiro no SNS no tratamento de pessoas com complicações de saúde derivadas precisamente do excesso de peso.
No que à obesidade diz respeito, pode dizer-se que Portugal já esteve pior, ocupando agora a 17ª posição entre os 26 países da União Europeia com taxas mais altas de obesidade, segundo o Pordata. Quando avaliados os níveis de excesso de peso da população, as percentagens colocam Portugal (52,3%) acima da média europeia que se fixa nos 50,6%, de acordo com os dados do Eurostat relativos a 2022.
A boa notícia é que a lista de soluções, outrora limitada aos fármacos injetáveis, acaba de ser alargada aos medicamentos de administração oral, que começam esta semana a ser vendidos nos EUA. O novo formato traz consigo pelo menos duas vantagens ao tornar o processo menos invasivo e mais barato para a carteira dos utentes. Apesar de ser expectável que a Agência Europeia do Medicamento (EMA) acabe por aprovar a comercialização do Wegovy em comprimido, ainda não há uma data para a chegada do fármaco ao mercado português.

Para João Jácome de Castro, a perda de peso converte-se num leque de melhorias, entre as quais o controlo da diabetes ou mesmo a remissão da doença, a reversão da hipertensão, o desenvolvimento de menos cancros e problemas osteoarticulares e ortopédicos, a diminuição de enfartes do miocárdio e de acidentes vasculares cerebrais, menos problemas do foro psicológico e consequentemente menos baixas. “Além do bem-estar que isto traz para os doentes, que é um valor inestimável, para nós médicos há toda uma poupança significativa para o Estado e para as entidades que comparticipam os medicamentos.”
A opinião é partilhada por Paula Freitas. “O tratamento da obesidade, seja ele farmacológico ou cirúrgico, é custo eficaz porque as pessoas não só não têm uma série de doenças metabólicas, mentais e mecânicas, mas também são mais produtivas para a sociedade. Se eu tiver uma pessoa que não trabalha, que não tem capacidade, essa pessoa tem custos porque eu não estou a tratar a obesidade, mas estou a tratar as 200 doenças associadas.” Paula Freitas lamenta o facto de nenhum fármaco para o tratamento da obesidade ser comparticipado no país, “apesar de Portugal há 21 anos ter sido pioneiro a considerar a obesidade uma doença”.
Como funcionamento o tratamento – que pode ser para sempre
Antes de prosseguir para qualquer abordagem com este tipo de medicação, o paciente que tem excesso de peso ou obesidade deve ser avaliado por um médico. “Na primeira parte de uma consulta de obesidade, o médico vai avaliar o que é que está nos genes e tentar perceber qual foi o fator precipitante daquele excesso de peso”, explica Paula Freitas.
Esta triagem é crucial, diz a especialista, porque “até 95% das pessoas têm aquilo a que nós chamamos ‘obesidade exógena’ [resultado dos hábitos de vida do paciente] e há 5% de pessoas que têm obesidades de causas tratáveis, isto é, têm doenças que causam obesidade – e se tratarmos a doença, tratamos a obesidade”.
O fármaco é administrado semanalmente através de canetas injetáveis e, no caso da obesidade, “como doença crónica que é, é expectável que o tratamento seja também ele crónico”, esclarece Paula Freitas. Ainda assim, há várias exceções e a médica ressalva a importância de se olhar para a “variabilidade da resposta” dos pacientes, que pode determinar o sucesso da terapia com semaglutido (substância ativa do Ozempic e do Wegovy). “Há doentes que respondem muito – os chamados bons respondedores -, outros que não respondem tão rápido. E há pessoas, por exemplo, que têm uma alteração no gene que regula o recetor do GLP-1 e não respondem de todo a este tipo de tratamento.” Se o tratamento envolver alguém “com muita idade”, que já fez múltiplos tratamentos e já com outras patologias instaladas, “essa pessoa também pode responder menos bem”.
As doses são articuladas consoante o perfil do paciente, de forma progressiva, para tentar minimizar os efeitos secundários. Quer isto dizer que os profissionais de saúde vão “titular a dose”, diz Paula Freitas. “Se eu quiser prescrever o Wegovy a uma pessoa com obesidade, tenho de usar 0,25 miligramas semanalmente durante um mês; no mês seguinte uso 0,5 miligramas e assim sucessivamente até ativar finalmente os 2,4 miligramas.”
Há pacientes que carecem de doses mais elevadas e, nesse caso, iniciam o tratamento com tirzepatida (substância ativa do Mounjaro), cuja dose máxima vai até aos 15 miligramas. “Se eu tiver um doente com uma grande obesidade, é expectável que aquele doente possa precisar de 15 miligramas, mas eu começo com 2,5 no primeiro mês, depois cinco, depois 7,5, até chegar aos 15”, diz Paula Freitas.
A data de fim do tratamento não é fixa e é ditada pela resposta do doente à terapia. “Eu tenho doentes que fizeram o tratamento, depois fizeram um desmame e ficaram bem com uma dose mínima. Tenho outros que fizeram o tratamento, pararam e não reganharam, ficaram bem e tenho doentes que pararam e reganharam tudo.”
Estudos recentes revelam que cerca de “um quarto ou um quinto dos doentes podem não reganhar peso depois de parar o medicamento”, aponta João Jácome de Castro, apesar de os resultados ainda não serem totalmente fiáveis. “Pensa-se que alguns doentes possam ter de fazer ciclos intermitentes, como é o caso de uma pessoa que perde 30 quilos durante um ano, depois para e ao fim de dois anos reganhe oito quilos – então fará mais três meses de tratamento.” O especialista diz que há situações em que é necessário que o paciente fique numa dose baixa de manutenção e outras em que o paciente faz tratamento em “alturas mais desafiantes”. “Depois há, naturalmente, pessoas que vão precisar de terapia com maior cronicidade.”

Mesmo que não seja possível definir com certezas o tempo de duração do tratamento, João Jácome de Castro garante que este é um ponto de viragem no combate à obesidade. “Estamos a chegar a percentagens de perda de peso que muitas vezes só conseguíamos quando os doentes eram operados”, sublinha, acrescentando que a taxa de sucesso vai ser “brutal”, já que “cada vez mais doentes vão poder perder peso num nível a que nós não estávamos habituados com medicamentos, sem terem de ser sujeitos a cirurgias que têm mortalidade associada”.
João Jácome de Castro explica que um tratamento por semaglutido atua sobretudo a dois níveis: na perda de apetite e no aumento da saciedade. Este fármaco é responsável por “diminuir o apetite através de uma ação direta nos centros do apetite na base do cérebro” e faz aumentar a saciedade por “ação indireta nos centros da saciedade”. Ou seja, a substância atua no estômago, tornando mais demorado o esvaziamento gástrico, que, ao ser atrasado, envia mediadores neuro-hormonais para esses centros da saciedade. A consequência final da conjugação destes mecanismos é a perda de peso, que costuma ser “muito significativa” na grande maioria dos doentes.
Em termos práticos, acontece isto: “Diminuir o apetite é uma pessoa ir a um jantar, ter um buffet fantástico e não lhe apetecer andar ali a picar as coisas. A saciedade é uma pessoa ter um prato à frente de que gosta e, em vez de comer muito, come um bocadinho e fica satisfeita”.
Paula Freitas sublinha o teor revolucionário destas terapias, que, além de combaterem a obesidade, também “reduzem a insulinorresistência, a pré-diabetes, a hipertensão, o perfil lipídico e contribuem para uma melhoria metabólica”.
Independentemente do tratamento, há algo que não pode falhar: alterações do estilo de vida do paciente, algo que inclui mudança de hábitos alimentares e combate ao sedentarismo através da atividade física, restabelecendo o equilíbrio entre a ingestão alimentar e o desempenho enérgico.
Efeitos adversos (e quem não pode tomar)
Os efeitos adversos, quando aparecem, são “habitualmente transitórios”, manifestando-se na maior parte dos casos numa fase inicial do tratamento, normalmente nas primeiras semanas. Variam de pessoa para pessoa, mas podem incluir má disposição, náuseas, vómitos e diarreia, indica Paula Freitas, que descarta quaisquer “riscos graves” associados à toma do medicamento.
João Jácome de Castro vai mais longe, garantindo que se trata de “medicamentos seguríssimos, muitos deles com efeitos protetores que vão além da perda de peso”: “Vieram trazer eficácia na perda de peso, potência terapêutica e segurança”.
Paula Freitas salvaguarda que o recurso ao semaglutido é contraindicado em dois casos: “Não se deve dar este fármaco a pessoas que tenham histórico pessoal ou familiar do carcinoma medular de tiroide, que é um cancro raríssimo; e também é de ponderar o benefício e o risco do tratamento com doentes que tenham tido pancreatites”.