O Bella 1 aproximou-se da Venezuela no final de dezembro. Segundo o site especializado TankerTrackers, seguia sem qualquer mercadoria ou petróleo a bordo. Ao ser confrontado pelo bloqueio norte-americano, recusou ser abordado e continuou navegar. Ainda no Mar das Caraíbas, os sistemas de identificação foram desligados. Quando voltaram a ser ativados, a 1 de janeiro de 2026, o petroleiro ia já no Atlântico Norte. O nome tinha sido mudado para Marinera e a tripulação tinha pintado no casco uma bandeira russa, segundo informações de fonte aberta, compiladas pelo The Guardian. Agora, em vez de ser um navio apátrida, com bandeira da Guiana, era um navio russo.

Oleg Ignatov, analista especializado na Rússia no think tank Crisis Group, diz ao Observador não compreender o que levou Moscovo a reivindicar um navio da frota fantasma, mas apresenta uma possibilidade: “Eles estavam a tentar prevenir isto que aconteceu”. Porque, ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, um navio com bandeira nacional fica protegido de ser abordado, explicou o almirante Fred Kenney, antigo diretor legal e de relações externas da Organização Marítima Internacional, ao Wall Street Journal.

Ou seja, a identificação do navio por parte da Rússia protege-o de ser intercetado e permite a Moscovo condenar a abordagem norte-americana como uma violação do Direito Internacional. “Não é uma questão retroativa, não se pode dizer que era apátrida há duas semanas, por isso vamos dizer que é apátrida agora”, acrescentou Kenney. Além da questão legal, a Rússia ativou outra precaução, ao mobilizar um submarino para acompanhar o navio que circulava em águas internacionais — a estratégia de acompanhamento e proteção já tinha sido utilizada noutros navios da frota fantasma que navegam no Atlântico.

Tendo em conta os detalhes do incidente com o Bella 1 (ou Marinera), este parece ter sido motivado principalmente pelo interesse dos Estados Unidos na Venezuela e no seu petróleo. Mas isso não quer dizer que o “pequeno” incidente não seja revelador da política externa dos Estados Unidos face à Rússia, argumenta Arkady Moshes. O analista especializado na Rússia do Finnish Institute of International Affairs (FIIA) salienta a necessidade de olhar para a relação entre Washington e Moscovo, desde o legado histórico da Guerra Fria, às ações dos anteriores Presidentes, até às recentes tentativas de mediação de Donald Trump. Daí considerar que a relação não caminha para a normalização — nem nunca caminhará, devido às diferenças estruturais. Ainda que menos assertivo, também Oleg Ignatov argumenta que “americanos e russos não estão numa trajetória de normalização, estão longe disso”.

Neste contexto estrutural, a ação dos Estados Unidos ganha uma outra leitura, mais focada na relação bilateral, argumenta Arkady Moshes ao Observador. “[Isto mostra] que Trump está a falar a sério sobre travar ou pelo menos diminuir a exportações de petróleo russo”, afirma. “Eles não estão felizes, porque sabem que as exportações de petróleo sustentam a agressão russa na Ucrânia. E tornam-se mais sérios sobre a necessidade de travar isso. É aqui que a necessidade de travar as operações dos russos podem ser somadas a outras coisas, incluindo a Venezuela”, elabora. Ou seja, com apenas uma ação, os Estados Unidos puderam responder a dois problemas, em duas partes diferentes do globo.