Olhemos para o exemplo de Ricardo Mangas: chegou como reforçou low cost a Alvalade por uma verba que no futebol atual serve para quantificar ordenados e não transferências (300 mil euros), aproveitou a lesão de Maxi Araújo para aparecer na formação inicial, cedeu o lugar quando o uruguaio foi aposta como lateral. De seguida, andou várias semanas entre suplente não utilizado e entradas nos segundos tempos. A meio do mês de dezembro, o jogador de 27 anos foi testado frente ao AVS com Maxi Araújo mais à frente. Correu bem. E voltou a correr bem, com o V. Guimarães. E correu de novo bem, diante do Rio Ave. Problema? Com todas as substituições esgotadas, Mangas caiu no relvado, alongou, esticou mais uma vez as pernas, fez um sacrifício para cumprir os 90 minutos. No encontro seguinte, no início de 2026, estava de fora – e por lesão.
O caso do esquerdino entronca num dos atuais problemas de Rui Borges: a falta de opções para dar maior rotatividade aos jogadores utilizados. É quase como se fosse uma “bola de neve”: cai um, cai outro, cai mais um e os que ficam acabam por ficar mais perto de cair pelo desgaste acumulado. Azar, muito azar ou algo mais? Em Alcochete, impera sobretudo a segunda ideia. Pedro Gonçalves e Morita são dois casos à parte de todos os ausentes, neste caso por envolverem problemas musculares e/ou reincidências, sendo que a maioria dos restantes lesionados depois dos problemas de Diomande e Maxi Araújo no jogo de estreia na Primeira Liga frente ao Casa Pia surgiram sobretudo de situações traumáticas que são impossíveis de controlar ou sequer prever, como aquelas que vão afastar Eduardo Quaresma e Fotis Ioannidis, que saíram na meia-final da Taça da Liga, das próximas partidas dos leões. “É um caso de estudo”, desabafou o treinador após o jogo.
Pela primeira vez, sinto-o mais, acredito que a equipa sinta isso. É impossível por mais que sejamos positivos e otimistas, custa ver tanta gente de fora mas jamais servirá de desculpa. Em termos de lesões é inacreditável o que nos tem acontecido (…) Se preocupa? Sim mas não foi a quantidade de lesões musculares que nos põe os jogadores de fora. São coisas que não podemos controlar. A minha maior tristeza é sair daqui com menos dois jogadores para o próximo jogo. Por mais que seja otimista, é impossível que não o sinta, assim como a equipa. São coisas traumáticas, não musculares, e temos de seguir caminho”, defendeu Rui Borges.
Em termos internos, a situação preocupa mas existe esperança que, aos poucos, o cenário vá ficando mais desanuviado. Haverá sempre questões a melhorar mas não é o atual cenário de muitas ausências que irá promover uma “revolução” em Alcochete a nível de métodos de preparação e recuperação. Morten Hjulmand e Maxi Araújo estão de fora com o Casa Pia por castigo mas voltam depois para jogos decisivos em janeiro para Campeonato e Liga dos Campeões, ao passo que Gonçalo Inácio regressa após suspensão. Entre os lesionados, Daniel Bragança recupera agora o ritmo competitivo para ser opção de forma mais consistente (jogou pela equipa B e esteve no banco em Leiria), Zeno Debast está quase recuperado e Geny Catamo volta da CAN, ao passo que chegará pelo menos mais um reforço em janeiro além de Luis Guilherme. Depois, a prioridade será o regresso aos poucos de Pedro Gonçalves, com toda a importância que tem na equipa.
Com mais opções a postos, Rui Borges terá condições para gerir tudo de outra forma, nomeadamente evitar que algumas unidades com maior utilização fiquem com sobrecarga de jogos. No entanto, os 118 jogos de ausência por lesão de 15 jogadores do Sporting já perderam esta temporada (fora poupanças nas taças, após semanas de seleções ou CAN) têm feito mossa naquilo que é o rendimento da equipa, algo que a utilização de elementos da equipa B não consegue travar num remake do que aconteceu em 2024/25.

Luis Eiras
Eduardo Quaresma sofreu uma fratura na cara frente ao V. Guimarães e será operado mas tempo de ausência pode ser inferior ao esperado
É o setor que por norma tem menos problemas em termos físicos, foi também um setor que não passou ao lado da onda de lesões que toca quase a todos no plantel verde e branco: a meio de setembro, depois da pausa inicial para compromissos das seleções, Rui Silva sofreu um traumatismo no polegar da mão esquerda, ainda se pensou que poderia não ser algo impeditivo de jogar mas acabou por falhar três partidas oficiais na Liga e na Champions. João Virgínia foi chamado à baliza verde e branca, que não se “ressentiu” da ausência do seu número 1 e somou três vitórias seguidas diante de Famalicão (2-1), Kairat Almaty (4-1) e Moreirense (3-0).
- Rui Silva: 3 jogos de ausência por lesão (traumática)
- João Virgínia: 0 jogos de ausência por lesão
- Diego Callai: 0 jogos de ausência por lesão

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Rui Silva ficou três jogos de fora devido a um traumatismo no polegar mas não demorou a voltar à baliza dos leões
Com St. Juste relegado para a equipa B depois de ter recusado vários cenários de saída no último verão, Rui Borges passou a contar com quatro jogadores para o eixo central recuado que entretanto deixara cair a linha a três que vinha dos tempos de Ruben Amorim. Ou seja, e basicamente, o Sporting tinha aquilo que todos os plantéis costumam apresentar. No entanto, isso foi ficando curto: Diomande, que está agora na CAN, sofreu uma lesão muscular na coxa direita na primeira parte do jogo da primeira jornada com o Casa Pia e ficou nove jogos de fora, em outubro foi a vez de Zeno Debast ter um problema muscular que afetava o joelho e perder pelo menos 16 encontros, agora o azar tocou a Eduardo Quaresma que, após sofrer uma fratura na cara nas meias-finais da Taça da Liga com o V. Guimarães, ficará algumas semanas ausente. Só Gonçalo Inácio resistiu a essas razias cíclicas, apesar do traumatismo num gémeo na Seleção que assustou.
As laterais eram posições com menos problemas mas também começam a enfrentar os seus dilemas – que têm impacto a outros níveis, com o caso prático de Maxi Araújo render mais como ala mas ter muitas vezes de descer para lateral por força das circunstâncias. Também o internacional uruguaio saiu lesionado do jogo frente ao Casa Pia que abriu a Liga mas o problema na coxa esquerda, havendo depois paragem para partidas das seleções, fez com perdesse apenas três encontros oficiais. Mais recentemente, e quanto tinha recuperado a titularidade, Ricardo Mangas teve um problema muscular num gémeo e falhou os dois últimos jogos. A direita é a posição que menos tem sofrido com lesões, apesar de uma entorse no tornozelo que fez com que Iván Fresneda falhasse a partida na Champions frente à Juventus em Turim. Nuno Santos continua a recuperar da operação a uma rotura do tendão rotuliano do joelho direito, ao passo que Matheus Reis, que tanto pode alinhar no meio como à esquerda, começou a temporada com um castigo da época transata.
- Iván Fresneda: 1 jogo de ausência por lesão (traumática)
- Georgios Vagiannidis: 0 jogos de ausência por lesão
- Ousmane Diamonde: 9 jogos de ausência por lesão (muscular)
- Zeno Debast: 16 jogos de ausência por lesão (muscular/joelho)
- Eduardo Quaresma: 0 jogos de ausência por lesão
- Gonçalo Inácio: 0 jogos de ausência por lesão
- Matheus Reis: 0 jogos de ausência por lesão
- Nuno Santos: 29 jogos de ausência por lesão (ligamentar)
- Ricardo Mangas: 2 jogos de ausência por lesão (muscular)
- Maxi Araújo: 3 jogos de ausência por lesão (muscular)

PAULO CUNHA/LUSA
Diomande lesionou-se na coxa na primeira jornada do Campeonato, perdeu nove jogos, regressou e está agora na CAN
O meio-campo é um setor que tem conseguido passar mais ou menos ao lado de todos os problemas físicos que têm fustigado o plantel mas nem por isso deixa de ter questões que vão limitando o raio de atuação de Rui Borges. Foco de tudo? Morita. Apesar de estar no último ano de contrato, o japonês acabou por ficar no plantel mesmo sem renovar, teve uma primeira lesão muscular no final de agosto que lhe retirou dois jogos oficiais, sentiu um desconforto depois do regresso e pareceu sempre andar no limite com implicação direta no rendimento, muito longe das primeiras épocas em Alvalade. Com o japonês nessa condição, e sem a possibilidade de recuar Pedro Gonçalves pelas lesões do internacional, tudo o resto no setor ficou afetado.
Morten Hjulmand e João Simões, que perdeu os últimos meses da última época devido a uma fratura no pé direito e só regressou em pleno em 2025/26, têm sido os habituais titulares, tendo em conta também que o nome novo do meio-campo, Giorgi Kochorashvili, continua sem mostrar o porquê de ter sido contratado ao Levante numa aposta pensada ainda na época anterior. A sobrecarga de jogos fez com que houvesse uma perspetiva de resguardo ao máximo dos dois médios, até porque só agora Daniel Bragança voltou a contar após ter sido operado a uma rotura total do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo e Debast, que foi opção na última época mais à frente, também se lesionou. É aí que entronca o problema: com menos rotação, Hjulmand e João Simões acusam mais o desgaste (e ficam mais propensos a lesões).
- Morten Hjulmand: 0 jogos de ausência por lesão
- João Simões: 0 jogos de ausência por lesão
- Hidemasa Morita: 2 jogos de ausência por lesão (muscular)
- Giorgi Kochorashvili: 0 jogos de ausência por lesão
- Daniel Bragança: 28 jogos de ausência por lesão (ligamentar)

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Morita já ficou de fora de alguns jogos por questões musculares na época onde está a ter menor utilização em Alvalade
Quando assumiu a mudança tática na presente temporada do 3x4x3 que vinha dos tempos de Ruben Amorim para o 4x2x3x1 que tem como melhor estratégia, Rui Borges sabia na perfeição os prós e contras que teria pela frente – e não se limitou apenas a “mudar” porque muitas vezes o Sporting ainda tem comportamentos defensivos a cinco como antigamente. Nessa mudança, o jogo dos criativos, não só os alas mas também quem jogasse no apoio direto a Luis Suárez pelo meio, assumia outra preponderância e tem sido aí que entronca um dos grandes problemas dos leões, que levou à contratação do brasileiro Luís Guilherme em janeiro.
Pedro Gonçalves, que esteve vários meses ausente na última época por uma lesão muscular grave na coxa, voltou a mostrar a importância que tem na equipa do Sporting (dez golos e seis assistências em 19 jogos) mas voltou também a “cair” com problemas físicos: a lesão na coxa direita sofrida frente ao Santa Clara colocou-o de fora dois jogos, a reincidência do problema “no último lance do treino”, como referiu Rui Borges, faz com que esteja de fora desde o início de dezembro. Também Geovany Quenda, que leva sete ausências por lesão, vai demorar a voltar após ter sido operado a uma fratura no pé. Já Geny Catamo, que falhara três jogos por um problema muscular numa partida por Moçambique, só agora voltará da CAN. Até Salvador Blopa, jovem jogador de 18 anos lançado com sucesso na Taça da Liga com o Alverca, teve de parar devido a uma questão no gémeo. Desta forma, Francisco Trincão foi a exceção numa temporada em que se estava a destacar até mais pelo que fazia mais “solto”, entre corredor central e direita, tendo falhado apenas um jogo em Munique frente ao Benfica e por uma questão de índole traumático contraída no dérbi com o Benfica.
- Geny Catamo: 3 jogos de ausência por lesão (muscular)
- Geovany Quenda: 7 jogos de ausência por lesão (traumático)
- Francisco Trincão: 1 jogo de ausência por lesão (traumático)
- Pedro Gonçalves: 9 jogos de ausência por lesões (musculares)
- Alisson: 0 jogos de ausência por lesão
- Salvador Blopa: 2 jogos de ausência por lesão (muscular)
- Luís Guilherme: 0 jogos de ausência por lesão

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Apesar dos nove jogos de ausência por lesão que já leva, Pote fez a diferença em campo com dez golos e seis assistências em 19 encontros
Com Fotis Ioannidis a assinar no final do mercado de verão pelo Sporting quase por “troca” com Conrad Harder, que rumou ao RB Leipzig, os leões mantiveram a aposta em dois avançados no plantel que poderiam depois ser “reforçados” por jovens da equipa B tendo em conta esse plano A de jogar só com uma unidade na frente. Numa primeira instância, o grego ia sobretudo atuando no lugar de Luis Suárez; depois, perante as muitas ausências no plantel, jogou em dupla com o colombiano – e com sucesso. No entanto, e já depois de uma lesão no ligamento colateral interno do joelho direito que o afastou durante um mês até ao início de dezembro, o helénico voltou a sair lesionado na meia-final da Taça da Liga com o V. Guimarães, deixando outra vez Luis Suárez como única opção de raiz na frente de ataque do conjunto verde e branco.
- Luis Suárez: 0 jogos de ausência por lesão
- Fotis Ioannidis: 3 jogos de ausência por lesão (traumática)

EPA
Depois do problema no ligamento do joelho contraído contra o Santa Clara, que o afastou um mês, Ioannidis voltou a lesionar-se